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A poesia é a minha bússola

Poeta, professor, homem das letras. Albano Martins nasceu em 1930 na aldeia do Telhado, concelho do Fundão, e 20 anos depois deu vida à primeira obra, Secura Verde, que marcaria um percurso ligado à poesia, com cerca de 30 obras publicadas. É poeta, mas também “um homem apaixonado, um enamorado da beleza”, como disse à PÁGINA.
Albano Martins é formado em Filologia Clássica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e está ligado à docência pelos anos em que foi professor do Ensino Básico e Secundário e depois na Universidade Fernando Pessoa, no Porto. Ao longo da sua vida esteve ligado a vários projetos literários, tendo sido um dos fundadores da revista Árvore, e conta com inúmeras traduções de obras de alguns autores consagrados. A poesia é a sua bússola, uma presença necessária. “Como o amor. Como a respiração.”

Ainda te falta dizer isto: que nem tudo o que veio chegou por acaso.
Que há flores que de ti dependem, que foste tu que deixaste algumas lâmpadas acesas.
Que há na brancura do papel alguns sinais de tinta indecifráveis.
E que esse é apenas um dos capítulos do livro em que tudo se lê e nada está escrito.

Albano Martins,
"Um Dos Capítulos" (Escrito a Vermelho)

 

A poesia não é um magistério, mas um estado

 

 

Com mais de 60 anos de vida literária, ainda há muito a dizer?

Passamos a vida à procura da palavra única, da palavra essencial, e nunca a encontramos. Só dela nos aproximamos, talvez.
E também é verdade que passamos a vida a repetir os mesmos gestos, a dizer sempre a mesma coisa. Por outras palavras, tudo o que dizemos não passa de mera redundância. E, depois, por mais que digamos, está sempre tudo por dizer. O último poema do último livro do poeta Saúl Dias, Vislumbre, encerra com estes dois versos lapidares: A vida inteira para dizer uma palavra. / Felizes os que dizem uma palavra! Está aí expresso, na linguagem da poesia, o que eu, modestamente, tentei dizer na da prosa.

Que perfil traçaria do poeta Albano Martins?

Diria que ele é um homem torturado que passa os dias a interrogar – a interrogar-se – e não encontra resposta para as questões essenciais que a existência lhe coloca. Que é, também, um homem apaixonado, um enamorado da beleza, esteja ela onde estiver, assuma ela as feições que assumir. E, ainda, que aspira a um mundo donde sejam banidas as injustiças e onde as crianças e todos os inocentes não sejam maltratados, humilhados, feridos, ofendidos. Alguém que, utopicamente (mas de utopias está cheia a história da humanidade), aspira à construção de uma nova idade de ouro, na qual a felicidade esteja, de facto, ao alcance do homem.

Tem cerca de 30 obras publicadas. A primeira foi lançada em 1950, a segunda (Coração de Bússola) em 1967. Por que há uma diferença de 17 anos entre as duas primeiras obras?

A história literária universal regista numerosos exemplos de suspensão temporária da actividade criadora ou, pelo menos, da não revelação pública dessa actividade, por parte dos escritores. No meu caso (e já uma vez o declarei numa entrevista), foram as circunstâncias de tempo, de modo e de lugar e uma certa vagabundagem a que o dia-a-dia tantas vezes nos obriga, em início de vida e de carreira, que me afastaram, durante dezassete anos, do usual comércio com as lides literárias. Porém, isso não significa que tenha deixado em absoluto de escrever. Prova-o o meu segundo livro, publicado em 1967, que reúne poemas escritos ao longo de todos esses anos.

O que o guiou para a poesia?

Não me guiei, fui guiado por ela, a poesia. Na luz e na escuridão, esteve sempre comigo, ao meu lado. Ela é a minha bússola. E é, sempre foi, uma presença necessária. E o que é necessário é o que não pode dispensar-se. Como o amor. Como a respiração.

O discurso do amor é o ponto mais forte da sua poesia?

Sou, pode dizer-se (e alguns o têm dito), um poeta do amor. É essa, creio, a face mais visível da minha poesia. Mas há nela, também evidentes, outras faces, que lhe são contíguas: uma certa aura de melancolia, derivada da consciência aguda do fluir do tempo, e, ainda mais acentuada, a presença da morte, que carregamos connosco desde o nascimento. Porque, como queria Leopardi, o amor e a morte foram gerados pela sorte de um mesmo parto. Eles – Eros e Tánatos – caminham lado a lado. São irmãos. Inseparáveis.

Tem poemas traduzidos em castelhano, inglês, cantonense e japonês. Os sentimentos são todos universais?

Sim, os sentimentos são universais. O que muda – o que é particular – é o discurso que os revela, a linguagem através da qual eles, os sentimentos, se exprimem. E é também diferente a língua que os veicula e oferece à generalidade dos leitores.

Traduz alguns autores consagrados. Como se consegue ser fiel ao original? Há palavras que se perdem?

A tradução implica duas operações, diferentes nos seus objectivos e na sua realização: a interpretação do texto e a sua transposição para outra língua. A primeira resulta numa apropriação de conteúdos, relativamente fácil, quando se domina a língua de origem. A segunda é mais complexa, porque as palavras, mas também a sintaxe, são diferentes na língua de partida e de chegada. Por isso tenho dito que, a meu ver, toda a tradução é – deve ser – uma recriação e o tradutor, co-autor.

Tem vários prémios atribuídos e reconhecimento público por trabalhos como poeta e tradutor. Que significado têm para si?

Os prémios, por si mesmos, não conferem qualidade às obras distinguidas.
Significam, tão-só, o momentâneo reconhecimento, por parte da crítica ou dos membros dos júris a cuja apreciação são submetidas, do seu mérito relativo. Sim, porque tudo, em suma, é relativo, tudo depende dos critérios de avaliação. E nestes entram, sempre, factores de natureza subjectiva, além, naturalmente, de outros sobre os quais, por melindrosos, não vale a pena falar.

Quais são os seus autores de referência?

Cito-lhe, de entre os muitos a que poderia chamar os meus autores de cabeceira (e falo apenas de poetas): Homero, Safo, Virgílio, Catulo, Paul Éluard, Apollinaire, Juan Ramón Jiménez, Vicente Aleixandre, Pablo Neruda, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, estrangeiros; Camões, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa (meia dúzia de poemas de Álvaro de Campos e o Bernardo Soares do Livro do Desassossego), algum Miguel Torga (o de alguns poemas dos três primeiros volumes do Diário), o Vitorino Nemésio de O Bicho Harmonioso e Eu, comovido a oeste, Carlos de Oliveira, Sofia de Mello Breyner Andresen, nacionais. Não avanço outros nomes, para não alongar a lista.

E quais as suas obras preferidas?

A resposta está de certo modo contida na anterior. Na verdade, falar de um poeta é falar da sua obra. Posso, no entanto, acrescentar meia dúzia de livros de escritores nacionais do meu particular agrado: a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes; alguns Sermões de Vieira (por exemplo, o sermão da Sexagésima, o sermão de Santo António aos Peixes e o sermão das nossas armas contra as da Holanda…); Os Maias, de Eça de Queirós; Mau tempo no canal, de Vitorino Nemésio; Húmus e Os pescadores, de Raul Brandão.

Questionado sobre o experimentalismo em poesia, disse que o compreende, mas não aceita. Porquê?

Tomo a poesia demasiado a sério para admitir o seu uso como exercício de linguagem gratuito. Os jogos são manifestações de ociosidade, e desta não cura a poesia. No Hospital das Letras, já o nosso D. Francisco Manuel de Melo, no século XVII, classificava a poesia do seu tempo como “passatempo de mancebos, damas e ociosos”.

Não será a poesia tão pessoal que cada um se possa expressar como quer, mesmo brincando gratuitamente com as palavras?

Penso que sim, que a poesia é uma realização individual (Lautréamont dizia, porém, que a poesia deve ser feita por todos) e, como tal, respeitável, mas passa ao domínio do social a partir do momento em que vem a público, isto é, em que entra nos circuitos comerciais. Todos os jogos são legítimos, mas também o é o comentário da crítica sobre o seu valor e significado.

“A poesia é o inferno; às vezes também é o paraíso” (Eugénio de Andrade, em Rosto Precário). E para o Albano Martins, é um ou outro?

Eu não seria tão radical. Eu diria simplesmente que todo o poema, enquanto realização verbal, exige da parte do seu autor um árduo trabalho, compensado, todavia, com o resultado estético obtido aquando da sua conclusão. A dor (era Goethe quem dizia: “Faz da tua dor um poema”) dá então lugar à satisfação. Quer dizer, o poeta sente-se compensado (ou recompensado) do esforço desenvolvido na sua luta com as palavras. Falar, a este respeito, de inferno e paraíso parece-me desmedida hipérbole.

Um poeta professor é melhor poeta? E um professor poeta é melhor professor?

Não, o poeta é o poeta e o professor o professor. Há muitos e bons poetas que não são – nunca foram nem serão – professores, e muitos e bons professores que nunca escreveram um verso. A poesia não é um magistério, uma profissão, mas um estado, nem se compadece com horários, com espartilhos e cadernos diários.

 

O futuro é uma equação de primeiro grau cuja incógnita é zero

 

Quando aluno, gostava de ser estudante? O que ditou as suas escolhas?

Entendi sempre o estudo como um meio para atingir patamares mais elevados de formação, um meio de progredir. As minhas escolhas foram ditadas pelo exemplo de familiares próximos, tidos como modelos, e por interesses que a passo lento se foram manifestando.

Por que escolheu ser professor?

Escolhi ser professor porque a licenciatura em Filologia Clássica, pela qual enveredei, me não oferecia, na altura – e continua, afinal, a não oferecer – outra via profissional. E talvez porque, em última análise, era essa a minha verdadeira vocação.

Acha que se adaptaria ao atual conteúdo funcional da profissão e ao funcionamento das escolas?

Não tenho acompanhado, por dentro, a evolução do sistema educativo e o regular funcionamento das escolas. As turbulentas manifestações verificadas, nos últimos anos, por parte dos docentes, mas também dos discentes e dos próprios encarregados de educação, movidas ou não pelos sindicatos do sector, traduzem um certo mal-estar e indiciam, por isso, que “algo está podre no reino da Dinamarca”. Penso que se torna necessário definir, com precisão, de uma vez por todas, uma política de educação que tenha como meta o indivíduo, e não as teorias, os dogmas ou as cores partidárias. Uma política, quero eu dizer, que seja verdadeiramente a da formação dos educandos e não a das vanguardas pedagógicas ou a dos mentores dos partidos que detêm a governação (os actuais ou quaisquer outros).

O que pensa das transformações operadas no sistema educativo e o que perspetiva para o futuro?

O que digo a propósito da questão anterior serve, de algum modo, a esta. Penso que há muitas correcções a introduzir no sistema, mormente ao nível dos programas de Português, a área que melhor conheço e em que, por isso, melhor me situo. Sei que há autores – autores importantes – que foram grosseiramente arredados, ou melhor, banidos dos currículos. Que, ao nível da Gramática (da nomenclatura gramatical), foram introduzidas nos programas “novidades” de duvidosa eficácia, quando não de resultados inteiramente nefastos, isto é, que funcionam mais como malefício do que como benefício para os alunos. A experimentação, em pedagogia e didáctica, tem de ser bem calculada, bem avaliados os riscos da sua aplicação. Os prejuízos causados pelas improvisações e pelo exercício de vaidades, se não irritadas, ao menos irritantes, podem ser irreparáveis. O futuro é uma equação de primeiro grau cuja incógnita é zero. É preciso alterar – e já! – a actual situação.

Albano Martins respondeu por escrito às questões colocadas pela PÁGINA.

Maria João Leite (entrevista)
Ana Alvim (fotografia)


  
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