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Professores consideram que rankings originam “julgamento público negativo” sobre a classe

Em Agosto de 2001 era publicado, em Portugal, o primeiro ranking de escolas. Desde essa altura, os rankings passaram a ser publicitados todos os anos por vários meios de comunicação social e têm estado no centro de um intenso e polémico debate. Atenta a esta questão, Benedita Portugal e Melo, professora do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, conduziu um estudo através do qual procurou analisar a reflexividade simbólico-ideológica do debate mediatizado, mas sobretudo perceber os efeitos da sua publicação nas práticas profissionais dos professores. Intitulado “Os professores do ensino secundário e os rankings escolares – reflexos da reflexividade mediatizada”, o estudo será publicado em livro, pela Fundação Manuel Leão, no início do próximo ano lectivo. Nesta entrevista damos a conhecer algumas das conclusões que resultaram deste trabalho de investigação.

 

O que a levou a avançar com este trabalho?

Este trabalho constitui o objecto de estudo da minha tese de doutoramento. Nessa altura, em 2003, os rankings escolares eram ainda um tema pouco familiar à maioria dos professores do 12.º ano e não tinham sido sistematizados pelos meios de comunicação social. Além disso, e apesar das inúmeras reflexões mediatizadas que se iam produzindo em torno deles, os rankings não tinham sido ainda alvo de qualquer estudo científico que analisasse as consequências da sua publicação nas práticas organizacionais e pedagógicas dos docentes do ensino secundário. Ao mesmo tempo, este era um tema que me interessava também como material pedagógico – os meus alunos colocavam-me variadas questões em torno dos rankings, nomeadamente o seu efeito nas práticas dos professores –, tendo procurado, através do debate que era produzido nos jornais, em particular no Público, explicar-lhes o contexto ideológico que estava por trás da produção e da defesa dos rankings. Por estas razões, e porque as minhas áreas de interesse cruzavam a Sociologia da Educação com a Sociologia da comunicação, decidi avançar para este trabalho.

 

Que metodologia utilizou?

O trabalho de campo decorreu ao longo de 2005, tendo sido pedido a 85 professores do 12.º ano de escolaridade que manifestassem as suas opiniões sobre os rankings escolares relativos a 2001, 2002, 2003 e 2004. Os docentes eram oriundos de seis escolas secundárias situadas em diferentes regiões, ilustrando as disparidades socioeconómicas, culturais e geográficas do país. Estas escolas, aliás, ocupavam posições muito diferentes nos rankings escolares, uma invariavelmente nos primeiros lugares; outra nos últimos lugares; as restantes em posições intermédias.

 

O que evidenciaram os resultados que recolheu?

O inquérito mostrou que 57,6% dos professores inquiridos discordam da publicação anual das listas que ordenam, por escola, as classificações dos exames de 12.º ano, ao passo que 42,4% afirmou concordar com a sua publicação. De uma maneira geral, porém, diria que os rankings escolares não são percepcionados pela maioria destes professores como um meio de dar a conhecer publicamente os resultados da sua competência pedagógica. A questão passará justamente pelo facto de muitos docentes considerarem que não é o produto das suas práticas que é alvo de uma avaliação pública, mas os resultados que os alunos obtêm nos exames. Ora, para alguns professores estes resultados são bastante aleatórios. De qualquer forma, mais de metade dos professores entrevistados entende que os rankings escolares originam um julgamento público negativo sobre eles. Aliás, é interessante termos verificado que são muito mais os professores que entendem que é a acção de todos os professores do ensino secundário público que é avaliada negativamente (20,2%) do que aqueles que consideram que só são visados os docentes que leccionam nas escolas pior posicionadas (13,8%). Um outro dado interessante tem a ver com o facto de alguns professores se mostrarem preocupados com a possibilidade de os rankings escolares terem acentuado a emergência de um mercado escolar (18,2%).

 

Quais são os argumentos daqueles que se mostraram favoráveis à publicação dos rankings?

Nas justificações dadas pelos inquiridos que são a favor da publicação dos rankings escolares, é possível detectarem-se argumentos que parecem aceitar a ideia veiculada por alguns produtores de opinião de que os rankings são um meio válido e fidedigno para medir a qualidade do ensino ministrado nos diferentes estabelecimentos escolares, expressos em afirmações como “é sempre uma forma de tomar conhecimento da realidade global do ensino em Portugal” ou “é uma forma de comparação de resultados que considero bastante válida e, por vezes, dá para inferir conclusões quanto aos critérios de avaliação utilizados nas escolas”. Outras perspectivas associam-se a estas mas, apesar de traduzirem o mesmo espírito, mostram-se mais críticas, na medida em que colocam reservas ao processo de elaboração dos rankings escolares. Um outro conjunto de docentes revela-se mais preocupado com a utilização que deveria ser feita dos rankings, defendendo que estes deveriam ser aproveitados para se promover a melhoria do sistema educativo público.

 

E aqueles que discordam, o que dizem?

A grande maioria dos inquiridos que não concorda com a publicação dos rankings de escolas põe em causa os critérios que presidem à sua elaboração, por entender que estes não são “objectivos” nem minimamente adequados para reflectir publicamente a qualidade do seu trabalho e o dos seus pares. Todavia, tal como os professores que concordam com a publicação dos rankings, alguns professores reconhecem que os rankings produzem um julgamento público, porventura mais acentuado nas regiões em que existe um mercado escolar atento aos resultados dos rankings. Na opinião de outros docentes, o problema deste julgamento público reside justamente no facto de os rankings escolares reflectirem uma imagem errónea da actividade que é realizada nas escolas secundárias públicas. Como os rankings não têm em conta todas as variáveis que interferem no processo de ensino-aprendizagem, os professores consideram que a hierarquização que é construida é profundamente penalizadora e injusta. Ao criticarem os critérios de elaboração dos rankings e ao não considerarem importante o lugar ocupado pela sua escola naquelas listas, outros docentes manifestam-se contra os valores da eficácia e da produtividade que, em seu entender, estão associados à construção dos rankings. Para estes professores, os rankings põem em causa a função democratizadora da escola podendo, inclusivamente, favorecer práticas de ensino instrumentalizadas e mercantilizadas. Alguns professores referem, a este respeito, o facto de algumas escolas seleccionarem a admissão de alunos ou apenas levarem a exame os alunos que dão garantias de poder obter bons resultados. Todos os professores que discordam com os rankings estão de acordo num aspecto: em seu entender, estas listagens não traduzem a complexidade do trabalho escolar e o conjunto de dimensões que o envolvem ocultando, inclusivamente, o papel dos factores sociais e culturais no insucesso escolar, aspecto salientado por muitos docentes quando mencionam o facto de os rankings não terem em atenção estas variáveis.

 

Que tipo de efeitos produzem os rankings escolares nas práticas profissionais?

O facto de a maioria dos professores percepcionarem os rankings escolares como um instrumento que produz um julgamento público injusto sobre a acção dos professores não é condição suficiente para que estes tenham alterado siginificativamente as suas práticas profissionais quotidianas. Na verdade, apenas 22,4% dos inquiridos assumiram que a publicação dos rankings escolares influenciou o modo como passaram a leccionar. Julgo que isso se deve a dois tipos de razões. Por um lado, em termos ideológicos, defendem a realização de uma avaliação multidimensional que integre os aspectos qualitativos da realidade educativa. Assim, apesar de não serem indiferentes aos rankings, não lhes atribuem credibilidade e confiança suficiente para incorporarem aquela informação no seu quotidiano e transformarem as suas práticas pedagógicas. Por outro lado, muitos professores já adoptavam práticas pedagógicas muito direccionadas para os exames e já tinham em atenção as diferenças entre as notas obtidas na frequência e as notas dos testes nacionais. De facto, a preocupação com as notas dos exames começou a surgir em muitos professores desde que foram implementados os exames nacionais de 12.º ano. Julgo, aliás, que foi sobretudo esta medida que provocou alterações no modo como os professores passaram a leccionar: treinar os alunos o melhor possível para os exames desde o primeiro período, deixando de realizar outras tarefas que poderiam desenvolver nos alunos o espírito crítico e a criatividade. Os rankings escolares parecem ter vindo intensificar estas práticas, influenciando, assim, a forma como os professores passaram a avaliar os seus alunos. A valorização da avaliação aferida dos desempenhos dos alunos em detrimento da avaliação formativa constituirá a consequência mais evidente da adopção destas práticas. O risco de a multiplicidade de olhares sobre os alunos se ir reduzindo e de estes passarem apenas a ser representados como meros reprodutores de conhecimento torna-se então bastante provável, como, aliás, o reconheceram alguns professores.

 

Os efeitos são mais visíveis nas práticas organizacionais?

Sim, penso que os dados obtidos permitem concluir que os rankings escolares já foram assumidos pelos professores, e pelas próprias escolas, no sentido de interferirem nas práticas organizacionais dos estabelecimentos de ensino. O grau de atenção que é dedicado aos rankings em cada escola é, porém, muito diverso, dependendo de factores tão diversos como a credibilidade que é conferida aos próprios rankings escolares pelos membros dos conselhos executivo e pedagógico, pelos restantes professores e mesmo pela situação de concorrência no mercado escolar vivenciada por algumas escolas. Neste sentido, 37,5% dos inquiridos referiram, por exemplo, que os rankings levaram à adopção de estratégias específicas que permitissem à sua escola melhorar os resultados obtidos nos exames de 12.º ano.

Entrevista conduzida por Ricardo Jorge Costa

Fotografia de Inês Andrade


  
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