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O Porto é-se!

O Porto é solidário, hospitaleiro, honesto... O Porto não se diz, é-se. Assim, de forma pura e sincera. Assim é também Júlio Couto, economista, mas, acima de tudo, um historiador e conhecedor da cidade, portuense interessado, em constante busca de histórias e factos. Como o Porto, também Júlio Couto “não está quieto”. Apesar da vida com os números, esteve sempre ligado às letras e à comunicação, tendo escrito vários livros. A partir da Fontinha, na sua casa com paredes forradas a livros e quadros, Júlio Couto deu com a PÁGINA uma volta pela cidade, através de lugares e de histórias.


Como descreve a cidade do Porto e os portuenses?
Eu tenho 78 anos de vida e 77 desta cidade. Nasci numa ilha, numa rua que tem tantas galerias de arte como tinha ilhas no meu tempo, que é a Miguel Bombarda. Nasci com aquele destino fatal de fazer a 4a classe e trabalhar, mas nasci também com uma sorte extraordinária. Nasci no meio de gente que não era portuense por título, era por convicção interna. Era-se. Não se dizia, era-se. E para mim o Porto é isso, o Porto é-se! E é-se de uma maneira muito nossa. Dou um exemplo: recolho tampinhas de plástico, faço uma média de 10 a 15 garrafões por mês, que entrego cheios. E tenho sido objeto de coisas lindíssimas. Ainda há dias uma senhora me chamou na rua e perguntou-me porque estava a apanhar tampinhas. “É para alguma coisa?” E a senhora disse que tinha em casa e que me ia entregar.

É a maneira de ser da cidade...
É esta a nossa maneira de ser. É sermos solidários. Como diz o Rodrigues Canedo, num poema extraordinário que é o “Cântico à Cidade do Porto”, o Porto é assim. É engraçado que o Rodrigues Canedo não era do Porto, era de Gaia, mas viveu cá muitos anos, de tal maneira que se afeiçoou ao Porto, via-o como a sua cidade e morreu cá. Bem, mas por vezes até nos acusam, os senhores intelectuais de Lisboa, de trocarmos os “vês” pelos “bês”. Esquecem-se que nós somos herdeiros de uma coisa chamada galaico-português onde não há “vês”. Ninguém na Galiza vai beber “vinho”. Daí que não temos “vês”, temos “bês”. Depois, vamos limando a nossa linguagem. Fiz teatro, estive na televisão a trabalhar muitos anos, estou na rádio a trabalhar há muitos anos, e normalmente não sou acusado de ter sotaque portuense. Mas como disse o Almeida Garrett nas cortes, “sou de uma terra onde por vezes trocam os ‘vês’ pelos ‘bês’, mas nunca trocamos a liberdade pela subserviência”. É assim.

Portanto, descreve o povo portuense como solidário.
Sempre. Como já disse, nasci numa ilha. Naquela altura, as raparigas não tinham o conceito de liberdade que hoje têm, era tudo mais ou menos recatado. No meu tempo, as raparigas ajudavam a partir a lâmpada da entrada para namorar num lugar mais escuro. E acontecia exatamente aquilo que acontece hoje, só que com outras consequências. Quando alguma dessas pequenas engravidava e os rapazes fugiam às responsabilidades, havia logo uma cena terrível: sua esta, sua aquela, vais ficar falada... Levava um enxerto de porrada, mas deixa lá, há de se criar; onde passam fome três, passam fome quatro. Não havia que chegasse para comer, mas ninguém falava em fazer abortos ou coisa que o valha.

Outros tempos, outras maneiras de viver...
Muitas vezes perguntam-me porque é que sou tão solidário... Sou muito solidário com dois extremos, as crianças e a terceira idade. Digo muitas vezes que tenho uma dívida para pagar. Eu nasci naquela ilha, mas não fui criado ao colo da minha mãe ou da minha avó. A minha avó era peixeira – saía de casa cedíssimo, porque ia a pé de Miguel Bombarda a Matosinhos buscar a pescada que depois vendia ali na zona, e só regressava quando já tivesse a pescada toda vendida. A minha mãe era costureira e a minha tia também ia trabalhar. Eu ficava ali, à porta de casa, com um biberão e as velhas da ilha tomavam conta de mim e criavam-me. Todas me criaram. Era dessa maneira que o Porto vivia, mesmo tendo pouco, continuava-se a dar. O Porto precisa pura e simplesmente que lhe deem motivos ‘para’, e nós vamos.

O Porto tem muitas histórias. Que episódios mais contribuíram para a identidade dos portuenses?
Não há... É ao contrário. As histórias da cidade vêm pela influência, o espírito portuense é que gerou muita coisa. Há um monumento na Rotunda da Boavista que tem um apontamentozinho que reflete perfeitamente uma faceta do nosso temperamento, da nossa maneira de estar e de ser. Quando o desastre se começa a precipitar na ponte das barcas, começam a rebentar as amarras e as pessoas são caem ao rio – houve um excesso de gente, pois todos queriam fugir ao mesmo tempo. Há uma senhora que está com duas crianças na beira do rio e que disse ao barqueiro que se a levasse com os filhos para o outro lado lhe dava um saco cheio de joias. Ele disse que os levava e eles entraram na barcaça. Houve muita gente que assim que viu que ela ia embarcar, desatou a saltar para a barcaça. Resultado, a barcaça foi ao fundo e a senhora foi salva por populares. Era a Luísa Todi, só se soube depois.

É uma cidade que se dá?
Sim. Por exemplo: eu fui trabalhar com 14 anos e o meu primeiro emprego foi acarretar sacos de cimento. Acarretei centenas deles para o que é hoje o Palácio Atlântico. É claro que ao fim de um ano comecei a achar que aquilo não tinha graça nenhuma e por isso quis arranjar outro emprego. Arranjei conhecimento com um senhor, que por sua vez conhecia outro que tinha um escritório no Muro dos Bacalhoeiros, e eu fui lá a uma entrevista e já não saí. E fiquei lá quase 40 anos. É por isso que digo muitas vezes que me criei na Ribeira, com aquela gente toda. E esse crescer na Ribeira deu-me um conhecimento íntimo com muitas figuras características.

Destaca alguém, em especial?
Uma delas está lá imortalizada, o Duque da Ribeira, o senhor Deocleciano Monteiro. Quantas vezes aquele homem chegava e eu dizia-lhe: “ó senhor Duque”, “que é menino?”, “mais um...” Antigamente a Ponte D. Luís era um sítio para suicídios. Perguntava a que horas tinha sido e calculava onde estava o corpo. “Anda daí!” Chegava ao sítio e lá tirava o morto. E fazia uma coisa impressionante – eu vi, não foi ninguém que me contou: fosse o morto de que género fosse, masculino, feminino, rico ou pobre, a primeira coisa que ele fazia era tirá-lo, levantá-lo e dar-lhe um beijo na boca. Depois é que o punha no caíque para o trazer. Ninguém lhe pagava para fazer aquilo. E ainda ficava com o caíque ali preso, até virem as autoridades buscar o corpo, o que às vezes era o dia inteiro. Lençóis para tapar o morto arranjavam-se sempre...

Como assim?
A primeira confraria que se inventou cá no Porto – a Confraria das Almas e do Corpo Santo, ao fundo da Restauração – tem nos seus estatutos três princípios marcantes: primeiro, fizeram o que hoje seria uma companhia de seguros – pagavam um tributo conforme as cargas que faziam, aquele dinheiro ia para a confraria e se algum dos irmãos da confraria perdesse o barco, a confraria dava-lhe outro; segundo, a escola – sempre que um irmão da confraria morresse, os filhos seriam educados para serem futuros marinheiros dos barcos da companhia e a viúva, se precisasse, teria sempre um subsídio para viver dignamente; e terceiro, teria de haver sempre um stock de lençóis de linho lavados, prontos para ajudar os mortos a serem enterrados. É o Porto.

Escreveu «O Porto em Sete Dias», que propõe a descoberta da cidade. Uma semana nunca será tempo suficiente para conhecer a cidade, pois não?
Não é. Como lhe digo, tenho 77 anos de Porto e ainda não
conheço o Porto todo.

Há muitos sítios e histórias por descobrir?
Ui! Há muitas histórias, muitos sítios...

O Porto é um livro?
Um?! O Hélder Pacheco já escreveu 40... [risos]. Conto-lhe só isto: o Museu de Santa Clara, um sítio estupendo para se ir ver, tem uma coisa fabulosa. É do século XIV e no primeiro altar do lado esquerdo tem uma santa preta. Como diz o Camões: “nós deitamos na areia mulheres de todas as cores”. Em frente à Santa Clara há um Cristo, uma escultura que, segundo consta, foi entregue pela irmã que o fez à prioresa, dizendo que era oferta dela, porque aquele Cristo tinha previsto o dia, hora e minuto em que ela ia morrer. A prioresa não ligou nenhum e a verdade é que naquele dia e àquela hora morreu. E o Cristo abriu a boca e ainda hoje está de boca aberta [risos]. O Porto tem tantas histórias... Não é preciso inventar nenhuma. Acima de tudo, o que é preciso é falar com as pessoas, ouvi-las e deixá-las falar.

Há muito para aprender...
Muito, muito. Dou-lhe outro exemplo: o Bonfim é a única freguesia do Porto que foi imposta por decreto. A D. Maria queria homenagear e pagar as dívidas que tinha para com as pessoas que a tinham ajudado. Nomeou-os a todos condes, barões, viscondes, etc. E então resolveu fazer aqueles arruamentos todos com os nomes de todos eles. Mas, para isso, era preciso que existisse a freguesia, porque aquilo era Santo Ildefonso. Então tirou-se de Santo Ildefonso uma fatia e fez-se a freguesia do Bonfim. E chama-se assim porque onde está a igreja era um monte onde se enforcava gente. Eram sempre acompanhados por um padre, às vezes com muito mau tempo, de maneira que fizeram um abrigozinho para ele estar ali à espera que eles tivessem um bom fim. Por isso é que Bonfim se escrevia Bom Fim. E depois tem acima uma coisa fabulosa, o Bairro da Polícia, de onde se vê uma paisagem sobre o rio que é maravilhosa. Há tanta coisa gira por aí... Não há um Porto, há 15 Portos, tantos quantas as freguesias.

Este ano, o Porto celebra os 250 anos da Torre dos Clérigos, 60 da Ponte da Arrábida, os 50 da Cooperativa Árvore e da Unicepe...
O Porto é uma cidade de efemérides, há sempre uma data para celebrar. Temos milhentas, queiramos nós fazer isso... O Porto não está quieto.

A propósito da Torre dos Clérigos, que é um ex-líbris da cidade. O monumento tem tido a atenção merecida?
Durante muito tempo, a Torre dos Clérigos viveu única e exclusivamente para turista ver. Também servia para outros fins, porque naquela altura não havia tantas residenciais na cidade como há hoje, de maneira que era muito utilizada para encontros imediatos de primeiro grau [risos]. Há muitas histórias... Ainda há dias houve um casal turco, creio eu, que deve ter-se entusiasmado de tal maneira que ficaram lá dentro fechados [risos]. Pronto, mas agora tem tido atenção. Agora há um padre responsável pela Torre dos Clérigos, o padre Américo. Pelo menos, temos uma pessoa que tem interesse e que prepara algumas coisas para se começar a mexer. Porque o grande problema é este: nós não sabemos vender o que temos. Nós temos a festa mais extraordinária que existe na Europa e não sabemos vendê-la. A nossa Câmara não faz nada para vender aquilo que tem de bom. Repare, o Palio de Siena ou as Fallas de Valência têm um milhão de pessoas. Já imaginou o movimento que aquilo dá à cidade? Quanto é que aquela gente toda deixa ficar na cidade?

E o São João podia atrair ainda mais visitantes à cidade...
Olhe, numa ocasião, tive a sorte de ser convidado para receber cá altos dirigentes da NATO. Eles gostavam muito de História, mas não saíam de Lisboa. Um dia, um filho meu, que era tenente-coronel, sugeriu uma visita ao Porto e falou-me para os guiar. Os nossos amigos escolheram vir cá no dia 23 e 24 de junho. E eu, muito caladinho, fiquei encantado da vida. Recebi-os de manhã, fiz uma visita de barco às pontes com almoço a bordo. Eles deliciaram-se com o bacalhau à espanhola e o verde branco. Foi ótimo. Chegámos e eles foram para o Hotel do Porto. Disse-lhes que os ia buscar por volta das nove da noite. À hora marcada cheguei lá com uma grande molhada de alhos-porros, que eu não sou de martelos. Dei um a cada um e às tantas estávamos já de cabeça perdida a bater e a levar, todos entusiasmados da vida.

Devem ter ficado surpreendidos...
Atenção, estamos a falar de suecos, americanos, franceses, belgas... Até que chegámos à Ribeira e um deles disse que tínhamos tudo muito bem marcado, bem enquadrado, pois não se via um polícia. “Não vês porque não há”, “Não?”, “A polícia, se viesse, levava um enxerto de ‘porrada’ (com os alhos-porros). Vês aquele barquinho que está ali no meio?”, “Sim”, “Está lá o primeiro-ministro, o presidente da Câmara, estão lá todos. Daqui a bocado vão encostar e muita ‘porradinha’ vão levar”, “O quê, vocês batem...?”, “Ai batemos, batemos. Eles batem em nós, também, está descansado.” Até que o americano disse-me o que acho que é o maior elogio que a cidade pode ter: “Olha, eu sou de um país da democracia, e vim hoje saber o que é a democracia aqui. Isto é maravilhoso.”

O São João é, de facto, uma coisa diferente.
É a noite mais fabulosa que se pode imaginar. O São João é feito pelas pessoas, não é por imposição. Um dia, o senhor doutor Oliveira Salazar zangou-se connosco. Nós tínhamos feito muitas malandrices, ele castigou-nos e não foi feriado naquele ano, nesse São João, nem houve iluminações ou luzes acesas na noite. Mas nós andámos toda noite cá fora, com as luzes das montras, e fizemos a festa. Nós somos essencialmente um povo de rua, um povo de liberdade.

Como surgiram as tradições das fogueiras, dos balões...?
Disse já que o São João é uma invenção da Igreja. As fogueiras, as águas santas, as ervas de cidreira, etc., tudo isso já existia. A igreja só teve de tomar conta e passar a homenagear o São João, mas o resto já existia. O senhor Conde de Resende tinha uma quinta que ia desde a Praça da República até Cedofeita. Na noite de São João, abria as portas da quinta para que o povo pudesse ir às orvalhadas. Aliás, havia um ditado que dizia “bem tolo é quem se deita sem ir às orvalhadas a Cedofeita”.

E a sardinha assada?
O Porto não comia sardinha assada, o Porto comia anho. As camionetas vinham com os anhos vivos e paravam junto da Ponte D. Luís. As pessoas chegavam lá e escolhiam. Eles matavam o anho, esfolavam-no, tiravam a pele, e a pessoa trazia o anho para assar. Agora come-se sardinha porque a determinada altura o dinheirinho não deu para anhos. Por isso, a gente fez à maneira de Lisboa, passou a comer sardinhas, que era mais fácil. A sardinha era do povo – agora já não é, mas naquela altura era do povo –, era o alimento de todos os dias.

É uma festa do coração...
É essencialmente uma festa do coração, não é uma festa por imposição de nada. A mim revolta-me sempre que me lembro que a Câmara quer ao fim da força que a gente vá para a Ribeira ver o fogo. O fogo, antigamente, lançava-se do lado da Serra do Pilar e nós víamos das Fontainhas para lá. Eu ia lá sempre com uma namorada, a casa de um tio meu, que era numa ilha, tomar o café, comer o pão com manteiga, ver o fogo e depois gastar cinco tostões para ver a cascata.

A tradição das cascatas está a perder-se um pouco?
Está. Mas se vier à Fontinha, está sempre uma cascata aqui montada.

Antes, nas ruas, pedia-se um tostãozinho para o São João...
À porta de minha casa, eu punha uma cascatinha. Havia sempre aquelas pessoas que diziam que os santos não comem, e eu dava sempre a resposta: mas como eu. Mas eu era honesto, metade era para os santos e metade para mim. Era assim que funcionava. Alguns dos santos que tenho cá em casa ainda são desse tempo.

Curiosamente, a padroeira da cidade é a Nossa Senhora da Vandoma, mas possivelmente a maioria dos portuenses não sabe. Será porque o São João é sinónimo de festa e as pessoas pensam que é o São João?
Não. Ninguém lhes diz que a Nossa Senhora da Vandoma é a padroeira da cidade, muitos nem sabem que ela está na Sé. Às vezes, farto-me de rir, porque há pessoas que chegam lá a perguntar quem é a Senhora da Vandoma. Ninguém sabe quem ela é, mas está lá um altar dela.

E por que será que é pouco conhecida?
Porque ninguém lhes disse. A Câmara nunca teve problemas em que fosse este ou aquele. Primeiro foi São Vicente, que era de Portugal inteiro. Depois foi o São Pantaleão, porque trouxeram para cá as relíquias do santo. Depois foi decretado que era a Nossa Senhora da Vandoma, ficou a cidade da Virgem. Quando foi para escolher o feriado municipal, resolveu-se fazer, e muito bem, por decisão pública. Estavam à escolha várias datas e o povo escolheu o São João. O povo é que determinou que o feriado era no São João. E ninguém disse que o São João é que era o patrono. O São João é o São João. O São João é o Porto.

Esta cidade tem sido bem tratada politicamente?
Não. O Porto tem sido muito maltratado. E digo isto porque não valorizamos as coisas que temos. Por exemplo, tivemos o mais fabuloso boletim sobre o Porto, editado pela Câmara Municipal. De repente, não se publicou mais... Disseram que não se gasta dinheiro em edições, que não é vocação da Câmara. O problema é que não fazemos nada por promover a cidade. Nada. Devíamos fazer uma divulgação internacional bem feita a promover o São João. Por que é que as pessoas que caem aqui ficam tão espantadas que querem voltar outra vez? Porque somos simpáticos e amáveis? É verdade. Porque comem bem e bebem bem? Também é verdade. Por ter uma temperatura razoável? Também é verdade. Mas não é só. A Câmara não promove a cidade, e é uma pena, porque não promover a cidade significa não trazer mais pessoas cá e que elas não levem uma recordação do Porto para lá...

Mas cada vez se fala mais do Porto...
Olhe, fui convidado a escrever uma vez mais «O Porto em Sete Dias», agora revisto e ampliado, até porque se quer fazer uma edição bilingue. Primeiro escrevi um livro, a convite de uma editora italiana dedicada ao turismo. Escrevi «O Porto e o Norte de Portugal» e, quando dei por ela, aquilo estava editado em sete línguas. Pura e simplesmente, aquilo é feito para vender, para promover o destino. Uma ocasião fui atrás de um indivíduo, porque ele saiu do Hotel do Império com um livro meu na mão, em alemão. Eu olhei para aquilo tão espantando que fui atrás dele... E um dia fui fazer uma conferência à Bolsa e quando lá cheguei fui ao guichet de entrada e fiquei pasmado, porque no escaparate estavam os meus livros, todas as edições em todas as línguas. O Porto precisa urgentemente de ser vendido. Nós temos de vender aquilo que temos. Andei dois anos e meio como guia turístico na Europa. O Porto? Futebol Clube do Porto e vinho do Porto era o que eles sabiam... A Câmara do Porto deveria ter um vereador só para promover a cidade.

 

AUTORRETRATO

“Sempre fui uma pessoa de exterior. O meu primeiro emprego foi andar a acarretar sacos de cimento. Depois fui para um escritório no Muro dos Bacalhoeiros, para os recados. Era eu que fazia o serviço externo todo. A minha falecida mãe era modista, mas já no tempo da escola primária quem fazia as coisas externas era eu: ia forrar os botões, buscar amostras, buscar tecidos... A minha mãe era assim: a casa é das mulheres, a rua
dos homens.”

“A determinada altura comecei a ver que nunca mais me safava, tinha 15 anos e achava que ia morrer nos recados. Lá no escritório havia máquinas de escrever, cada uma com o seu tipo de teclado. Os três teclados que existiam na altura. O escritório só abria às nove e meia, mas eu às nove horas já lá estava. Entrava com a senhora da limpeza, e lá ia eu ver como é que se escrevia naquilo. Resultado: passado algum tempo, conseguia escrever em qualquer teclado. Até que comecei a pensar que o meu futuro ia ficar confinado a muito pouco. Decidi ir estudar.”

“Fui estudar à noite. Fiz o curso comercial e já garimpava. Deixei de andar aos recados, passei a trabalhar na secretária, daquelas de tampo inclinado, e fui subindo. Passei a ser um homem de confiança. A firma tinha minérios, e isso obrigava muitas vezes a movimentos avultados para a época. Eu ganhava 850 escudos e de vez em quando tinha de ter 200 contos em notas, para irem lá buscar para levar para as minas. Vinha cá um senhor, que me telefonava a dizer que precisava de 200 contos em notas de 20, 50, 100 e algumas de 500. Eu telefonava para o banco, dizia como queria o dinheiro e depois ia lá com uma mulher com um cesto de carvão à cabeça. Chegava, conferia o dinheiro e colocava-o dentro do cesto, depois punha jornais em cima, umas cordas e a mulher ia com o cesto à cabeça, pela Praça fora, e eu atrás dela até à Ribeira. Comecei a estudar outra vez e a determinada altura já era guarda-livros, depois técnico de contas e depois economista.”

“Quando fui trabalhar para o cimento, com 14 anos, já tinha a mania dos livros. Uma vez comprei um livro, ali na Rua do Almada, a Crónica de D. João I. Só que depois faltavam uns cadernos e fui ao editor, a Civilização. Olhe, eu comprei este livro, faltam uns cadernos, por acaso não terão por aí algum caderno destes? O senhor disse que não, que isso era da gráfica. Até que outro senhor, que estava lá no fundo, veio até à minha beira: você gosta desse livro? Gosto, mas falta-me o outro volume. Perguntou-me quanto gastava por mês em livros, ao que respondi ‘vinte, trinta escudos’. Perguntou-me se queria fazer um contrato: fornecia-me os livros todos que me faltavam dessa coleção e eu pagava-lhe vinte escudos por mês. Mas o senhor não me conhece, disse eu. E ele: está bem, mas estou a conhecê-lo agora. Quando cheguei a casa, ia levando uma tareia da minha mãe, porque tinha lá um caixote de livros.”

“Havia uma tradição extraordinária, que eram as tertúlias, nos cafés, ao fim da tarde. Nessas tertúlias, discutíamos as coisas mais impressionantes, entre as quais literatura. Estive sempre envolvido e ligado às Letras.”

“Sempre me interessei pela história da cidade. A minha ex-mulher dizia que eu tinha um gosto de tal modo pela cidade que quando faltava uma pedra ia queixar-me à Câmara, porque eu tinha-as todas numeradas.”

“O interesse pela cidade nasceu porque eu vivo cá, nasci cá... O Germano Silva conta isso com muita graça. O Germano andou comigo na escola primária. Íamos jogar futebol, ‘muda aos seis acaba aos doze’, e quando não havia gente que chegasse, perguntavam: Ó Júlio, o que é que vamos ver hoje? E lá íamos nós, eu a falar do ‘Desterrado’, com dez anos... Estudava uma coisa de cada vez. Acabava e vínhamos embora.”

“Tenho, há quatro anos e meio, um programa de divulgação de poesia na Rádio Cinco. Durante um ano inteiro fiz um programa sobre a cidade do Porto, no Porto Canal. Noutro ano inteiro fiz um programa sobre fado, também no Porto Canal. Mas continuo ligado a tudo quanto seja cidade do Porto, sempre.”

“Costumo dizer que o Porto é uma mulher. Eu, o Germano [Silva] e o Hélder [Pacheco], cada um pega-lhe por onde lhe dá jeito. Somos três, mas a mulher é a mesma.”

 

UMA VOLTA PELO PORTO

De São Bento à Sé. “Conheço praticamente a Europa toda, e a única estação melhor do que a nossa é a Komsomolskaya, de Moscovo, porque foi feita com o que estava no Palácio dos Czares e é uma coisa fabulosa. A estação de São Bento é toda azul e branca, à exceção dos azulejos em cima, da roda até à chegada do primeiro caminho de ferro. É a história do transporte todo. Essa parte é a cores. Aqueles vinte mil azulejos de Jorge Colaço são um sonho. A visita é imprescindível. Depois subimos até à Sé e começo logo por uma coisa extraordinária: ver. Ninguém vê. Olha-se, mas não se vê. Olhando para a frontaria da Sé, no primeiro contraforte da esquerda, no terceiro painel em cima, tem cravado no granito uma coca, que eram os barcos pequenos que cruzavam o Mediterrâneo. Ir à Sé não é olhar para a Sé, é entrar, é ir ao claustro inferior, ao claustro velho, é ver a estátua da Nossa Senhora da Vandoma, é ir ver o altar de prata, etc. Depois, embrenha-se naquele dédalo de vielas com aquele sabor extraordinário, desde a Rua das Aldas, Pena Ventosa, entra na Igreja do Colégio e vai à sacristia ver o mais fabuloso trabalho em madeira, desde o arcaz às molduras. Se tiver tempo, pode ir ao Museu de Arte Sacra. Vem por Santana e com um bocado de boa vontade consegue descobrir lá numa parede, ao canto, um resto do arco que existia, o Arco de Sant’Ana. Logo depois, tem um fabuloso trabalho muito à maneira do Porto: a recuperação de casas velhas. Depois desce, pela Rua da Bainharia fora, aos Mercadores e à Ribeira.”

Da Ribeira a Miragaia. “Na Ribeira encontra o exemplo da invenção do São João. A igreja tinha inventado o São João para tapar o solstício de verão. A Fonte de São João tem um nicho onde não existia nenhum São João, mas em cima tem as armas do príncipe D. João. Até que um dia tocou a fanfarra, tiraram o pano e apareceu o São João feito pelo Cutileiro, com cabelinho encaracolado, mas nem carneiro tinha nem bandeirinha. De maneira que um homem da Ribeira virou-se para mim e disse: Ó menino, já viu? Temos lá em cima o Porto a mijar contra a parede, agora temos aqui o São João larilas. [risos] Portanto, vai até à Ribeira pelos Mercadores, sai junto da Fonte de São João e tem o cubo do José Rodrigues à frente. Dá a voltinha pelos Canastreiros, por baixo dos muros. Era a muralha virada ao rio. Vai pelo Muro dos Bacalhoeiros e sobe à Casa do Infante. Depois tem a Bolsa e a Igreja de São Francisco. Cuidado que há duas igrejas de São Francisco e o cemitério. A igreja de que toda a gente fala é a que está do lado direito e que pertencia ao mosteiro antigo, mas depois temos a igreja em frente. Do lado esquerdo está a Confraria de São Francisco, e entrando por aí vai dar ao cemitério. Depois há uma coisa maravilhosa a não perder: a Igreja de São Pedro de Miragaia. Lá existe um museu de Arte Sacra, cujo teto da sala é todo trabalhado em estuque. É qualquer coisa de fabuloso. E há lá uma peça de muito valor. Toda a gente fala da Fons Vitae da Misericórdia. Ora, dessa época, temos três exemplares. Uma é a Fons Vitae, a outra é o tríptico que existe em Miragaia, que é tão bonito! E depois é o altar-mor da Capela dos Alfaiates, que foi estupendamente restaurado há 20 anos. São peças maravilhosas em qualquer parte do mundo. Depois vai até à Fonte da Colher. Tem esse nome, porque durante muito tempo pagavam-se direitos para entrar na cidade e era ali que se pagava o tributo, que era muito simples: uma colher, daquelas de mercearia antiga, por cada saco de grão. Depois sobe um bocadinho e apanha uma das zonas das judiarias do Porto.”

Do Passeio Alegre à Boavista. “Em Miragaia, apanha o elétrico e faz a trajetória toda por ali fora até ao Passeio Alegre. Infelizmente não continua, é pena. Lá tem a estátua do Cristo a ser batizado, tem A Menina e a Foca de Dário Boaventura, tem a Igreja de São João da Foz, que é muito bonita, tem uma boa talha e uma acústica estupenda. Tem também o Forte de São João Baptista, que é muito engraçado, porque é o único forte do mundo que nasceu à volta de uma igreja. Aliás, os três fortes que existiam para defesa da cidade eram muito engraçados: o de São João Baptista, o do Castelo do Queijo e depois o de Leça. Aquilo não serviu para coisa nenhuma, era mais por uma questão de imponência do que propriamente de eficácia. Quanto ao Castelo do Queijo, tem esse nome porque foi construído em cima de uma pedra redonda com formato de um queijo holandês, daí que as pessoas passassem a chamá-lo assim. Aí pode ir ver uma coisa giríssima que o Porto ganhou há algum tempo, o Sea Life. Depois segue pela Avenida da Boavista. Na segunda travessa à direita, entra e vai ter a uma zona onde há uma igreja fabulosa, num enquadramento todo da época, que é uma maravilha e que normalmente nunca aparece nos roteiros. Depois volta à Boavista, vai ao Parque da Cidade, que é o único parque que termina no mar. Pode passear por lá. Depois sobe a avenida e encontra a Fundação Cupertino de Miranda, e mais acima, na Avenida Marechal Gomes da Costa, tem a Fundação de Serralves. Depois continua a subir a Avenida da Boavista, no enquadramento daquelas casas antigas fabulosas que resistiram. Até à Casa da Música.”

Da Boavista aos Aliados. “Da Boavista segue até ao Palácio de Cristal, por Júlio Dinis. Antigamente, esta rua ia só até à Praça da Galiza – sou do tempo em que a Praça da Galiza era para jogar futebol. Chega depois ao Palácio. Se tiver tempo vai por Entre Quintas, tem a Casa Tait do lado direito e o Museu Romântico do lado esquerdo, onde morreu o rei Carlos Alberto, de Itália. Com um pormenor muito engraçado: toda a gente vai lá visitar o quarto onde ele morreu, mas a mobília que lá está não é a original. Quando o rei morreu, os italianos mandaram dois barcos buscar o corpo e ficaram pasmados com a reação do Porto perante aquele homem, porque as lojas comerciais fecharam meia porta para o corpo passar até à Ribeira, onde estavam os barcos à espera. Ao sair a barra, o capitão escreveu no diário de bordo que estavam mais de duas mil pessoas a dizer adeus com lenços brancos... Foram para Itália, e ele está em Milão. Pediram que lhes fosse cedido o mobiliário do quarto, fizeram cópias ao milímetro e mandaram para cá. Carlos Alberto foi um homem que lutou e morreu pela causa da liberdade. Por isso, o Porto adora-o. Como também ‘adotámos’ o Humberto Delgado e muitos mais. Bem... Depois passa pelo Museu Soares dos Reis e pelas traseiras do Hospital de Santo António. Passa junto da nossa Torre dos Clérigos com 250 anos de vida e, pronto, fica na Praça da Liberdade, sossegada.”

Maria João Leite (entrevista)
Ana Alvim (fotografia)


  
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