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Eu vivo porque sou curioso

Aos 16 anos, saiu de casa, em Moçambique, para ir estudar na África do Sul, onde se licenciou e doutorou na área da Física. Mudou-se para Berkeley,  onde trabalhou na Universidade da Califórnia e foi diretor do Centro de Estudos Ambientais. Em 1991, veio para Portugal, para trabalhar na  Universidade do Porto. Foi diretor do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) e, atualmente, além de dar aulas (“o que gosto muito”), faz parte  do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNCT) e do Conselho Consultivo de Ciência e Tecnologia (CCCT), da Comissão Europeia. Alexandre Quintanilha é professor catedrático e continua a abraçar projetos que o estimulam, dentro e fora do país. Defende que é importante ter os  olhos abertos para o mundo. E ser curioso. “A curiosidade é fundamental em todas as áreas”, tal como a imaginação e muito trabalho. No seu gabinete do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, a PÁGINA confirmou que é um homem de desafios, que gosta de defender os direitos dos outros e que se interessa por “coisas que fazem mexer a cabeça das pessoas”. Apreensivo com o atual estado da Ciência em Portugal,  alerta que o trabalho das últimas décadas está a ser posto em causa e defende que devíamos voltar à forma como a Ciência estava a evoluir nos últimos 30 anos.

 

Qual é o estado da Ciência e da Investigação em Portugal?
Cheguei a Portugal em ’91 e foi um choque muito grande, porque vinha de Berkeley, um sítio dos melhores do planeta em termos de Ciência e de conhecimento em geral, de cultura, de sociedade, de dinâmica em termos da curiosidade sobre o mundo e sobre as pessoas. É um lugar de experimentação, com uma grande mistura de origens étnicas. Ainda me lembro que o meu primeiro grande choque quando cheguei ao Porto foi ver  que toda a gente era branca. E não mudou muito. Os primeiros dois anos foram muito difíceis. Estive várias vezes para voltar. Não voltei e não estou arrependido. Gostei muito de ficar, percebi que Portugal estava num processo de enorme aposta, essencialmente em duas coisas: pessoas, o que eu achava muito bem, e cimento, que não aprecio tanto. Acho que foi importante, mas foi demais. Agora, a aposta no Conhecimento e na Ciência foi dos aspetos mais interessantes que presenciei. Senti que havia um grande esforço para apostar na aprendizagem, no arriscar, no  conhecer mais, e acompanhei isso com muito empenho. Ajudei na formação de estruturas onde se faz Ciência de muita qualidade – o IBMC é um bom exemplo – e vi muitos jovens florescerem. Dou aulas a alunos de Medicina, Veterinária, Bioengenharia e Bioquímica, e tenho muita sorte, tenho alunos extraordinariamente bons. Só dou aulas aos alunos do primeiro ano, porque acho que os professores mais seniores só devem dar aulas ao primeiro ano. Há muito tempo que o digo.

Por que defende isso?
Acho que à medida que vamos avançando em idade, se tivermos sorte, temos uma perspetiva mais global sobre aquilo que são os desafios, os problemas, as áreas interessantes que estão a emergir. Para quem chega à Universidade, acho que ter alguém que possa dar essa visão transdisciplinar do que está a acontecer no mundo é muito importante, é o que faz a diferença. E também acho que à medida que vamos avançando, vamos abrindo a cabeça a muitas áreas diferentes. Eu comecei por ser um físico teórico, depois interessei-me pela Biologia, hoje em dia estou interessado pelas áreas da Sociologia e da Ética. E tenho alguns alunos absolutamente excecionais, o que também dá muito gosto. Portanto, a experiência tem sido muito positiva. Com a grande surpresa, nos últimos dois ou três anos, de haver alguém que quase ignora um processo que deu provas mais do que suficientes de que estava a funcionar. Quer dizer, nós estávamos na cauda da Europa, e agora estamos, em muitos indicadores, acima da média europeia. E alguém diz que agora temos de mudar isto de uma forma dramática, sem garantia nenhuma de que vai funcionar...

Há um património em risco?
Construir esta rede e estas instituições dá imenso trabalho. Os portugueses são muito individualistas e fazê-los colaborar uns com os outros, fazê-los pertencer a instituições que depois criam massas críticas, não é fácil: cada um defende o seu território, têm medo de partilhar ideias, acham que os outros vão roubar as ideias que têm... Portanto, foi difícil construir esta rede, e agora acho que estamos a voltar atrás, àquele individualismo supremo de que vai haver três ou quatro estrelas de excelência que vão conseguir fazer a melhor Ciência. Nós sabemos que essas pessoas têm de estar integradas em estruturas onde a Ciência se faz, por isso estou muito apreensivo: há indicadores de que muitas das melhores pessoas estão a ir-se embora, para sítios onde têm a noção de que há um futuro para elas, se trabalharem muito e forem realmente muito dedicadas. Muitos pais perguntam-me o que é que os filhos devem fazer, que curso devem escolher, e eu estou sempre a dizer que as pessoas devem escolher o que mais gostam, porque daqui a cinco ou dez anos, aquilo que estarão a fazer, provavelmente, não tem nada a ver com o que aprenderam. O que não é mau. Mas há muita gente muito apreensiva. Há muito desemprego, mas há muitas pessoas que, precisamente por serem muito boas, têm dezenas de oportunidades lá fora e vão atrás delas. E fazem muito bem, eu encorajo-as o mais possível.

São experiências enriquecedoras.
São experiências muito boas, não é isso que me preocupa. O que me preocupa é que toda uma rede de instituições onde se estava a fazer boa Ciência – e que ainda era extremamente frágil, porque tem uma ou duas décadas de existência – está em risco de se desmoronar, porque há alguém que chega cá e acha que vai mudar tudo e que vai ser tudo melhor. Isso mostra uma certa arrogância e uma certa pretensão de conhecimento que fica mal.

 

Voltar à forma como a Ciência estava a evoluir nos últimos 30 anos

 

Vê com apreensão o que parece ser um desinvestimento do Governo na Ciência?
Ainda por cima não é desinvestimento... Eles dizem que o financiamento total não diminuiu e até aumentou um bocadinho. Não sabemos é para onde está a ir. Não é nas bolsas que estão a gastar. Todos os 26 laboratórios associados tiveram cortes entre 20 e 50 por cento no seu financiamento nos últimos dois anos, portanto, não é para aí. Também não abriram assim tantos concursos para projetos, e os que abriram são muito pequeninos... E como a Fundação para a Ciência e a Tecnologia ainda não publicou os relatórios anuais dos últimos dois anos, ninguém sabe onde está o dinheiro. Essa é agora a grande incógnita.

Como é que isso se reflete no futuro?
Não gosto e acho que é perigoso fazer futurologia. O que sabemos hoje é que os laboratórios associados têm crescido com uma dinâmica muito interessante, porque havia em muitos deles um turnover de investigadores. Nos que conheço melhor, como o IBMC ou o Instituto Nacional de Engenharia Biomédica, houve investigadores que vieram e investigadores que saíram, houve lugares que abrimos e foram preenchidos e que depois foram substituí dos por outros investigadores, houve uma busca cada vez maior de financiamento a nível mundial. Portanto, estava tudo em crescimento e a chegar a massas críticas interessantes. E de repente... Eu sei de dezenas de concursos que foram abertos; de pessoas muito competentes que se candidataram e depois resolveram não aceitar os lugares, porque a perceção que tinham era que não tinham futuro. Há os que estávamos a tentar atrair e deixaram de vir – embora também haja exceções, gente muito boa que veio e ficou. Houve muitos que estavam para vir e não vieram e há muitos que estão a ir embora, porque não veem um futuro à sua frente. Claro que garantir trabalho para toda a vida é cada vez mais difícil, mas as pessoas têm de ter a perspetiva de que se forem trabalhadoras, se produzirem, se tiveram ideias interessantes, se se ajudarem na construção de estratégias, isso vai ser recompensado com alguma estabilidade. Não total, mas alguma. E isso está a desaparecer da perceção de muita gente. Eu não tenho medo da fuga de cérebros; gostava é que houvesse circulação, que fossem uns e viessem outros.

E há mais a ir...
Há muito poucos que vêm, são muito mais os que saem... A circulação de cérebros é ótima, como a circulação de ideias, de tudo. E depois há muitas dúvidas sobre os processos de avaliação. Vai haver avaliações de todas as unidades de investigação e ninguém sabe muito bem se isso vai ser feito como deve ser ou não; não sabemos quem são os avaliadores, não sabemos o que vai acontecer depois da primeira ronda de avaliação, quais as instituições que vão ser visitadas ou não. Como é que se avaliam estruturas sem ir lá saber o que estão a fazer? Está tudo muito obscuro e com uma enorme falta de transparência, o que causa ainda mais apreensão. Se as pessoas soubessem melhor quais eram as regras claras do jogo, se calhar sentiam-se com um bocadinho mais de confiança naquilo que se está a passar. Eu estou muito pessimista, e nunca fui pessimista por natureza. Eu próprio ando a dizer a toda a gente: vão-se embora, vão para os melhores sítios, vão buscar aquilo que vos preenche, sigam as vossas paixões. Que foi o que eu fiz, apesar de ter sido muito difícil. Os primeiros dois anos na América e em Portugal foram muito difíceis, mas foram muito importantes, se calhar por isso. A gente aprende muito quando as coisas são difíceis.

O que é que deveria ser feito?
Uma resposta muito simples é voltar à forma como a Ciência estava a evoluir nos últimos 30 anos. Eu acho que todos os governos têm o direito às suas políticas. Faz sentido, e uma política mais à direita ou mais à esquerda pode pôr mais ênfase num determinado aspeto ou noutro. Agora, o que me surpreende é que, nestes 30 anos, de facto, Portugal estava a melhorar significativamente em todos os indicadores internacionais. Em alguns, se calhar, podia ter avançado mais depressa, mas não nos podemos esquecer que estamos num país em que a última aposta na Ciência foi no tempo do Marquês de Pombal... Há 30 anos, começou uma aposta real, mas mudar um país que tem 400 anos de história de repressão não se consegue em duas ou três décadas. Os portugueses ainda têm imenso medo de arriscar e isso é uma questão que leva tempo a mudar. O meu pai foi corrido da Universidade de Coimbra e foi imediatamente convidado para ser professor em Paris; e podia ter ficado em Berlim, para onde foi nos anos 20 – eles queriam que lá ficasse, porque era um dos primeiros geneticistas na área dos fungos. E como o meu pai há muitos outros que foram corridos de Portugal no tempo do Estado Novo. E só foi reintegrado, já com 80 anos, depois de ’74.

Há muitos casos assim.
Há dezenas de professores que foram postos na rua, de pensadores, jornalistas... Tiveram de ir lá para fora, porque aqui eram perseguidos ou postos na cadeia. Portanto, nós estamos num país em que as pessoas arriscam pouco. As pessoas com poucas posses vão lá para fora trabalhar. As pessoas com muito conhecimento também podem ir para onde quiserem. Para mim, a globalização foi a coisa melhor que aconteceu. Mas para a maior parte das pessoas que têm um emprego e que toda a vida apostaram num determinado afazer, a globalização é muito negativa, porque o trabalho que fazem é muito mais barato noutros sítios, e a globalização vai fazer com que percam o emprego.

Os privados não deveriam apostar mais?
Muito mais. Mas repare... Da mesma forma que não gosto de fazer futurologia, não gosto de fazer análise social, porque não sou sociólogo. Mas sinto que há na população portuguesa, com exceção dos que têm de ir lá para fora por necessidade, um certo receio, uma insegurança. Quer dizer, todos nós temos algum receio, mas muitos também sabemos que temos recursos, intelectuais ou físicos, para em situações de crise tentarmos sobreviver, tentarmos coisas novas, arriscar projetos novos, envolvermo-nos em áreas novas do conhecimento. Esta dinâmica da pessoa não ficar ligada à sua história passada ainda não é muito comum em Portugal. Aliás, um amigo meu acha muito curioso que a grande maioria dos currículos em Portugal tenha informação sobre se se é doutorado, por que universidade... Isso é muito raro nos CV americanos, porque o que interessa não é tanto o grau académico, mas mais aquilo que se fez. É o tal risco...

E também uma questão de autoconfiança.
Não é só Portugal, mas aqui é clássico: há muitos jovens que acabam o liceu e os paizinhos oferecem um carro, acabam a universidade e os paizinhos oferecem um apartamento e depois, quando há problemas, vão para casa dos pais e a mãezinha faz a comida e trata da roupa... Há aqui um apaparicar que é mais visível nas classes mais altas, os meninos e as meninas são todos muito protegidos, se calhar demais. O que faz com que até nas suas relações pessoais as coisas funcionem mal, porque quando casam, eles continuam a pensar que a outra pessoa é que vai fazer o trabalho todo. Há muitos homens que acham que a mulher é uma espécie de substituição da mãe e há muitas mulheres que acham que é isso mesmo que devem fazer, o que ainda é pior. Isso é muito comum cá, e leva-me a outra questão: falamos muito da revolução, o que fez e qual foi a sua importância...

O país está a comemorar os 40 anos do 25 de Abril...
A revolução deu liberdade política aos homens, mas às mulheres deu a política e todas as outras liberdades que não tinham. Portanto, a revolução foi muito mais importante para as mulheres do que para os homens, porque eles efetivamente tinham todas as outras liberdades. A minha mãe, quando me queria levar de férias, tinha de pedir autorização ao meu pai para sair do país comigo; para abrir uma conta tinha de ter uma autorização do meu pai. Os homens tinham o direito de abrir a correspondência das suas mulheres... Portanto, não é de espantar que hoje as jovens tenham mais garra do que os rapazes. Agora já passou muito tempo, mas nos anos 80/90 eu sentia que as raparigas que entravam na universidade queriam ir muito mais longe, porque perceberam que tinham essa liberdade que não tinham antes. Não sei, mas se calhar as mulheres são capazes de arriscar mais do que os homens; valia a pena fazer um estudo sobre isso. Elas sabem que são capazes de fazer muita coisa, sabem tratar das coisas práticas, e se tiverem que trabalhar muito, trabalham. Apesar de estarmos no século XXI e da igualdade de género, as mulheres continuam a trabalhar muito mais do que os homens. Não só em Portugal; nos Estados Unidos também, e em muitos outros sítios.

Ainda é difícil para uma mulher vingar no trabalho?
Principalmente quando tem filhos. Porque quase assume que a responsabilidade dela é maior do que a dele na educação e formação dos filhos. E isso é mau, porque às vezes os homens acomodam-se a isso e outras vezes irritam-se porque não lhes é dada oportunidade de fazerem o mesmo trabalho. Quer dizer, acham que a mulher está a ser interventiva demais e não está a dar-lhes o espaço que gostariam de ter também com os filhos. Mas voltando ao risco...

E aos privados...
Eu acho que em todo o mundo, em princípio, os privados arriscam muito mais. Em Portugal, pelo menos naquilo que dizem e naquilo que escrevem, acho que os privados apreciam o risco, gostam que as pessoas tenham ideias novas e que essas ideias possam servir para serem mais competitivos.

Mas apostam muito ou pouco?
Nos últimos 30 anos, houve mais empresas que apostaram em contratar doutorados e pessoas qualificadas, mas ainda estamos longe da média dos chamados países desenvolvidos. Mas isso também mudou bastante. Lembro-me que há 20 anos, a grande maioria das empresas até achava que havia qualificações a mais; queriam era pessoas que não tivessem muitas qualificações, para serem treinadas para aquilo de que a empresa precisava. Agora, se a pessoa tiver uma bagagem muito grande, até pode sugerir, introduzir novidades, alterações no produto, no management de tudo aquilo. Mas isso também depende das empresas, há de tudo e em todo o lado. Como os Estados Unidos são um país muito maior, há muito mais experiências e, portanto, muito mais falências e sucessos. Nós temos muito medo da falência, de errar, de fazer asneira e, portanto, não fazemos nada. Temos é de fazer muitas coisas, e em algumas fazer asneira...

 

A nossa formação continua a ser de muita qualidade

 

Há poucos meses apelou à união da comunidade científica. A comunidade científica portuguesa não é unida?
Voltamos à história do individualismo. Há pessoas que nestas alturas querem evidenciar-se muito e dizer “já que estão a falar de excelência, apostem em mim, que eu sou o melhor de todos...”. Quando há uma crise, há sempre a sensação de que cada um se quer salvar a si próprio. Se há uma estrutura que foi construída com alguma fragilidade, que ainda é frágil, quando aparece uma crise, há sempre alguns que dizem “eu sou muito melhor do que eles, portanto, vou abandonar o barco, vou fazer as coisas à minha maneira”. E isso fragiliza ainda mais. As crises tendem a fazer com que cada um olhe mais para o seu umbigo, e uma das consequências é uma pressão muito grande para cada um se “salvar” no meio do processo.

Mas tem havido sinais de alguma união.
Tem, mas às vezes também é um bocadinho corporativo... Quer dizer, são os bolseiros que se juntam porque as bolsas falharam. E eu percebo perfeitamente, há menos bolsas e as pessoas ficam preocupadas com isso. Mas eu gostaria que houvesse mais pessoas a falar dos problemas dos outros e não dos próprios. Eu, se calhar, sou o extremo disso. Há uns anos envolvi-me muito nas questões da toxicodependência – eu, que nunca provei uma droga, nunca fumei nada na minha vida, mas sempre achei que criminalizar o consumo era uma coisa inumana. Quando foi a questão do aborto, da procriação medicamente assistida... Eu tenho muito mais facilidade de lutar pelos direitos dos outros do que pelos meus próprios. Por exemplo, na questão do casamento de pessoas do mesmo género, nunca apareci a lutar por isso. A luta por aquilo que deve ser dos outros enfraquece, acho eu, nas alturas de crise. Há sempre aqueles grupos que já existiam e que defendem os direitos humanos, mas nos momentos de crise aparecem também aqueles que se querem salvar a si próprios e que se esquecem dos direitos dos outros.

E porque é que a sociedade não intervém nos assuntos da Ciência? A Ciência é acessível à população em geral?
Deixe-me dizer uma coisa que acho interessantíssima. Uma das grandes novidades em Portugal foi o Ciência Viva, uma aposta na tentativa de aproximar a população do conhecimento novo que se estava a gerar. E cada vez mais insisto em Conhecimento versus Ciência, porque Ciência dá sempre a ideia de Biologia, Física, Matemática, Medicina, Engenharia, e eu acho que o Conhecimento envolve as ciências humanas e sociais e que a construção da sociedade tem muito mais a ver com as ciências sociais do que com a Engenharia. O Ciência Viva foi uma estrutura criada para aproximar as várias gerações do Conhecimento. E em Portugal podemos dizer que estamos numa situação muito privilegiada. Há 15 anos, mais ou menos, que há esta aposta em pôr investigadores a falarem com o público em geral, em levar as crianças aos institutos, em haver Ciência no verão e cafés de Ciência no Parlamento. Esta ideia de dar à sociedade a noção da importância do novo conhecimento teve um sucesso enorme em Portugal, e está agora a ser imitada em muitos outros países. Portanto, se calhar, em Portugal temos uma sociedade mais confortável com os grandes debates sobre Ciência, sobre questões diversas.

Faz parte do CNCT e do CCCT, criado pela Comissão Europeia para debater e ajudar a perceber como é que Ciência e Investigação podem contribuir para o desenvolvimento.
Eu e o professor Ortwin Renn fomos os rapporteurs do primeiro relatório publicado pela Comissão. Foi muito importante, porque esse documento tem essencialmente a ver com a necessidade de aproximar o conhecimento da sociedade. O que é que a sociedade quer fazer do conhecimento? Como é que nós vamos definir as políticas de investimento no conhecimento para que vá ao encontro daquilo que a sociedade acha que precisa? Isto é uma alteração muito significativa. É dizer: por favor, não tomem decisões sem primeiro consultar o que a sociedade europeia quer ou não quer ou aquilo que a sociedade europeia acha que são os desafios do futuro. Nós não damos soluções, dizemos é que é preciso perguntar. Esse documento, único nesta altura, é importantíssimo para a Europa, porque vai ao encontro de muitas das coisas que o Parlamento Europeu tem vindo a defender. Uma coisa é sermos competitivos, outra é responder às necessidades daquilo que a sociedade acha que são as prioridades. E por isso, eu considero esse relatório fundamental.

Qual é a importância desse debate? Refiro-me às duas estruturas, nacional e europeia.
O objetivo do CNCT é, essencialmente, aconselhar o Governo. Até agora, a atividade principal tem mais a ver com a estrutura – o que deve ser a carreira do investigador, como é que os laboratórios do Estado devem continuar a funcionar, etc. – do que propriamente com os grandes desafios da Ciência, o que é o inverso do conselho europeu. Fiquei muito curioso por ter sido nomeado para esse conselho. Não há uma pessoa de cada país, só me cruzei com Durão Barroso uma vez, não conhecia a presidente do grupo (Anne Glover), portanto, fiquei muito surpreendido por ser nomeado. Posso dizer que politicamente também não sou próximo de Durão Barroso – não é que pertença a algum partido, mas a minha visão está muito menos dirigida para a competitividade e muito mais para a comunidade. E o primeiro documento também me espantou, com a ideia de que é necessário ouvir a sociedade.

É muito diferente a forma como Portugal e os restantes países veem a Ciência?
Não sei se se podem fazer comparações, porque Portugal tem uma história muito diferente dos outros países. Mas os cortes no financiamento têm sido feitos em todo o lado, e voltamos à mesma história: em Portugal não houve cortes, só não se percebe onde está o dinheiro e como está a ser gasto...

Ser investigador português é uma desvantagem lá fora?
Pelo contrário.

A Ciência portuguesa é bem vista?
Muitíssimo bem. Eu tenho a sensação de que lá fora, para alguns, é surpreendente que os jovens que vão de Portugal sejam de tal qualidade e estejam tão bem preparados para aquilo que estão a fazer. Mas hoje em dia está a tornar-se mais comum gostarem de receber investigadores portugueses, porque sabem que se dedicam de corpo e alma ao que estão a fazer. A nossa formação continua a ser de muita qualidade e os nossos investigadores, em todas as áreas, não têm de que se envergonhar em qualquer sítio do mundo. Somos bem preparados, dos melhores que há. Temos um bocadinho de medo de arriscar, é verdade, mas em termos de formação somos muito bem vistos.

A formação é uma aposta forte da Universidade do Porto?
A Universidade do Porto tem apostado muito na criação de conhecimento, já há vários reitores. O que acho que falta à Universidade, e não só no Porto, é apostar mais na interdisciplinaridade. Os alunos deviam ser todos obrigados a fazer 25 por cento das suas unidades de crédito numa faculdade diferente, porque isso só enriquece as pessoas. A cadeira que mais gostei de dar em toda a minha vida foi Fisiologia Celular para não cientistas. Tinha 1.600 alunos, em três salas enormes – os americanos são obcecados pela saúde, querem saber como funciona o corpo e, por isso, a Fisiologia interessa-lhes muito. Foi a cadeira mais excitante e onde fizeram as perguntas mais interessantes de toda a minha vida. Essas pessoas são curiosas, querem saber como funciona o cérebro, o sexo, a respiração, a circulação, essas coisas todas. Isso em Portugal ainda não está a funcionar, ainda temos um longo caminho para que as pessoas se convençam disso. Ainda há muitos professores que acham que os alunos têm de ter aquela matéria toda... É uma coisa aflitiva.

 

A informação é muito melhor nos livros. Nós temos é que estimular


Há uns anos, disse à PÁGINA que “o ensino não foi feito para produzir pessoas úteis, mas pessoas curiosas”. A Escola estimula a curiosidade?
Não é a Escola. Há pessoas na Escola que estimulam a curiosidade.

E não devia ser a Escola como um todo?
Pois devia. Mas a Escola como um todo, não é um todo nenhum. Voltamos ao individualismo. A Universidade do Porto é um conjunto de mini-universidades. Essa noção de que se faz parte de um todo e se tem de trabalhar para um todo é muito difícil de conseguir. Cada um quer ter o seu território, o seu quintal, para poder fazer o que quer. Na universidade há pessoas, e eu conheço muita gente, que são extraordinárias a estimular a curiosidade, mas também conheço outras, se calhar a maioria, que a única coisa que acham que estão aqui a fazer é transmitir informação. E a informação é muito melhor nos livros. Nós temos que estimular. A coisa mais importante que podemos fazer nestes anos que as pessoas passam aqui – e é um luxo poder estar cinco anos a aprender várias coisas – é estimular-lhes a curiosidade para o resto da vida, sobre a sua área e sobre todas as outras. Eu sempre tive o sonho de fazer Arquitetura, e quando me reformar, quem sabe?

Também se interessa pelo Ambiente...
Interesso. As primeiras conferências públicas sobre Ambiente que fiz em Portugal, há 23 anos, foram sobre alterações climáticas. E interesso-me pela questão da energia, da conservação de energia... É isso que me mantém vivo: eu vivo porque sou curioso.

Esses interesses são apenas fruto da curiosidade?
São fruto da minha curiosidade e de conhecer pessoas. Acho que muita da minha curiosidade tem a ver com as pessoas que conheci ao longo da vida e que me fascinaram, por quem eu me apaixonei intelectualmente. A pessoa que me convenceu a ir fazer Biologia para Berkeley foi um homem que depois veio a ter um Prémio Nobel, o Sydney Brenner. Conheci-o na África do Sul. Gosto muito de Física, mas estava a pensar em Biologia, estava com medo, e ele olhou para mim e disse “Do it! Do it!”. Passado um mês, comprei o bilhete para São Francisco e fui. Tive a sorte de conhecer gente fabulosa, na Ciência, no Teatro, na Pintura, na Arquitetura, em muitas áreas diferentes...

É um homem de desafios. Uma vez disse que de 20 em 20 anos precisa de um novo desafio.
É verdade, e já passaram 23 em Portugal. Estou agora a presidir ao Conselho de Ética para a Investigação Clínica, que é uma coisa que me está a fascinar imenso. Estou a coordenar um projeto europeu sobre a chamada neuropotenciação, que também me está a dar muito gozo, porque envolve 12 países e muitos grupos diferentes. Estou no Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, que também acho muito interessante – tivemos agora uma reunião, aqui no Porto, com uma série de pessoas que vieram lá de fora com ideias interessantíssimas sobre como se lida com essa questão. Ainda há muita gente contra a procriação medicamente assistida, que acha que se você é estéril, “too bad!”, e que têm ideias absolutamente escabrosas sobre a maternidade de substituição. Eu gosto de coisas assim, que fazem mexer a cabeça das pessoas, de pegar em questões em que toda a gente pensa que é assim e mostrar que, se calhar, há outros aspetos que não foram pensados. Isso estimula-me.

Tudo questões sensíveis...
Anteontem [1 de abril] fui à Assembleia da República, porque houve uma discussão sobre toxicodependência e infeção por HIV. Quando a Estratégia Nacional para a Toxicodependência saiu, em que nós descriminalizávamos o uso de drogas para consumo pessoal, houve uma enorme discussão: que Portugal ia ser o centro de toxicodependência no mundo, que íamos ter turismo da toxicodependência... Ora, 16 anos depois, não diminui apenas a toxicodependência, mas também a infeção por HIV, por causa da troca de seringas. E se cada HIV custa 12 mil euros por ano, com esta estratégia o Estado conseguiu poupar 300 milhões de euros em dez anos. Houve uma forma de olhar para os toxicodependentes não como criminosos, mas como doentes, o que é uma alteração total. Dá-me um certo gozo apostar em coisas que na altura eram vistas como novas, estranhas, e perceber que 10/20 anos depois os resultados confirmam muito do que dizíamos. Se calhar, também fiz asneiras, e vou fazer. Eu interesso-me por muitas coisas, se calhar coisas a mais. Por isso, nunca vou ter um Nobel – nunca trabalhei na mesma coisa durante 40 anos, e acho que tenho muita sorte de viver num país e numa sociedade que me toleram isso.

Nasceu em Moçambique, estudou na África do Sul, trabalhou nos Estados Unidos, veio para Portugal e tem participado em projetos em vários países. Essa experiência contribui para “ter os olhos abertos para o mundo”? A frase é sua.
Eu acho que nós temos de ter curiosidade, mas não só. Tudo o que é novo tem três componentes. Primeiro, é preciso ser curioso, fazer perguntas novas. Depois, é preciso imaginação para dar respostas diferentes à curiosidade. E finalmente, é preciso muito trabalho para testar essas hipóteses. O que eu percebi nestes quase 69 anos é que o mundo e as pessoas no mundo são a coisa mais extraordinária. Quando estava nos Estados Unidos, tirava um mês inteiro, sem salário, para fazer o que me apetecia. Acho que isso é muito importante. É abrir a nossa mente, é perceber que sabemos tão pouco e que há outras formas de olhar para o mundo, de resolver os problemas.

Maria João Leite (entrevista)
Ana Alvim (fotografia)


  
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