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É chegado o momento de refundação da Europa

Que nova ordem mundial poderá emergir da actual crise e qual o papel da Europa nesse novo contexto? Num artigo intitulado “A Perestroika americana”, publicado no jornal “Público” em Fevereiro deste ano, João Caraça, director do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, defende que ela representa o fim do Império americano e que abre uma grande oportunidade que a Europa deverá saber aproveitar. Diz que a resposta está na refundação das instituições europeias. A propósito deste artigo, conversámos com o autor, que é também Professor Catedrático convidado do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, professor agregado em Física pela Universidade de Lisboa (UL), consultor para a Ciência do Presidente da República e membro Integrado do Centro de Filosofia das Ciências da UL.

 

“O pior cego é aquele que não quer ver”. Não quisemos ver que o capitalismo estava fundado em premissas que no início deste século deixaram de ser válidas e que resultaram na actual crise. Porque razão mergulhámos nesta crise?
Não foi exactamente isso que eu queria dizer. O capitalismo é um sistema muito robusto, existe praticamente há 500 anos e acompanhou a formação da modernidade na Europa em termos económicos, políticos e sociais. O facto é que esse sistema, que consiste na possibilidade de acumulação de riqueza no seu centro, ou centros, tem vindo a evoluir e a deslocar essa centralidade ao longo deste período. O que não quisemos ver foi que essas formas de acumulação de riqueza, através da racionalização da procura de recursos, da sua utilização e da exploração de outras zonas que ficam coordenadas por esse centro, tem uma designação corrente de Império, que adoptamos habitualmente para os grandes impérios do passado mas que não quisemos adoptar para a organização coordenada pelos Estados Unidos da América.

A forma como a ele se referia parecia conter implicitamente uma crítica...
Não. Criticava o facto de não termos sido capazes de entender que os Estados Unidos, enquanto nação, terem adoptado, do ponto de vista político e económico, uma postura de Império, à semelhança de outros impérios ao longo da História. Com características diferentes, evidentemente, porque estávamos num século diferente, mas como um Império na medida em que foi uma estrutura que se iniciou, desenvolveu, entrou em declínio e acabou por cair. Aquilo que não quisemos ver, portanto, é que o Império americano tinha naturalmente um período limitado de vida. E que esta crise representa, na verdade, o fim desse império tal como o conhecíamos. O que se seguirá será certamente algo de muito diferente e já não será coordenado pela América. O que quis também dizer é que a queda do império americano não representa um descalabro. A América não acabou, terminou o império americano. E dava como exemplo a queda do império soviético, que fez com que a Rússia ficasse isolada e perdesse muita da sua capacidade. Mas ela lá está, com as suas armas nucleares e os seus recursos naturais. Não desapareceu. Nós referiamo-nos ao império soviético com uma conotação coerciva, como se o facto de sermos aliados dos Estados Unidos não representasse nenhuma relação de coerção. Ora, numa coordenação imperial há sempre uma subjugação de regiões que estão à volta do centro, obedecendo-lhe.

Não terá esta crise representado um golpe final no modelo capitalista tal como o conhecemos?
Não me parece, porque o capitalismo implica uma acumulação infinita de riqueza. Quando essa acumulação era medida por coisas materiais, tinha naturalmente uma certa limitação. Actualmente, tendo em conta que ela pode ser registada na memória de um computador – não havendo, portanto, uma limitação física – a possibilidade de acumulação de riqueza é muito maior. O sistema capitalista, portanto, não desapareceu. Além disso, os sistemas capitalistas que vigoram na China, na Índia, na Indonésia, na Rússia, nos vários países do Médio Oriente, etc., podem ter diferenças entre si mas têm uma base comum, assente numa rede de comunicações a nível mundial que permitiu a globalização das finanças. E essa globalização não significa que haja um centro a comandar tudo, pode haver vários. É isso que eu julgo que foge um pouco à nossa percepção.

 

Nova ordem mundial multipolar

 

No seu artigo referia-se também à incapacidade de antecipação das elites dirigentes para fazer face às crises que marcaram o século XX e à que vivemos actualmente. Serão as elites dirigentes de facto incapazes ou terá sido a sua subordinação aos interesses económicos que as impediu de se anteciparem?
Os impérios ruem quando as respectivas classes dirigentes não conseguem arranjar formas para sair de uma crise. É uma situação recorrente. Essa crise será mais ou menos forte em função das forças situadas na sua fronteira e que com ela interagem. O momento da queda é que não é previsível, porque está dependente da correlação de forças entre o centro e a periferia, e das respectivas elites. Esse é que é o problema. Olhando para o império americano, podemos constatar que há sempre duas gerações associadas à sua fundação, com uma fortíssima acumulação no centro: a geração que o funda, que possui princípios muito fortes; a geração seguinte, que já nasceu com esses princípios e conviveu com os pais fundadores; e, finalmente, a terceira geração, que já está longe desses princípios, tem deles a ideia de intrumentos que permitem manter o seu modo de vida. Nesse sentido, tentam modificá-los, torná-los mais eficientes, porque o funcionamento do império atrai a cobiça, a corrupção interna, etc. Essa “afinação”, digamos assim, não traz por vezes os resultado desejados, e é nessa altura que o império colapsa.

Essa terceira geração que refere, cristalizada sobretudo na actual classe política, não se terá vindo a divorciar de forma crescente dos cidadãos e das suas preocupações – e daí também a sua dificuldade em antecipar esta crise?
Nesse contexto, é muito interessante verificar o paradoxo das elites dirigentes americanas. Na minha perspectiva, no período correspondente aos mandatos dos presidentes Bush, Clinton e W. Bush, em que as forças da globalização das finanças estavam em pleno, essas elites perceberam que havia uma dificuldade de afirmação da própria América e adoptaram a solução da fuga para a frente, como habitualmente se faz nestas alturas, contraindo empréstimos que acabaram por atingir valores monumentais. Ou seja, as próprias elites dirigentes americanas não perceberam o que se estava a passar. E todos nós pensámos que, sendo os líderes da globalização, iriam lucrar com essa situação – e lucraram, de facto. Com o único senão de ser um modelo de consumo baseado no empréstimo, apoiado num forte dispositivo militar e no facto de o dólar ser a moeda de reserva mundial. Mas isso foi-se erodindo à medida que outros actores foram aparecendo.

Mas essa incapacidade poderá ser exclusivamente atribuída às elites dirigentes americanas? Isto é, não haverá também uma quota-parte de responsabilidade por parte dos outros principais actores mundiais…
Mas os outros principais actores mundiais jogaram nisso…

...nomeadamente a Europa?
A Europa é um actor com um papel muito reduzido neste jogo, porque a força da Europa reside no facto de ser um parceiro dos Estados Unidos. O que os americanos fizeram foi arranjar mecanismos – dos quais a guerra no Iraque é um caso paradigmático – para continuar com o esquema existente, de manter uma ilusão de poder. E quando a América começa a perceber que não pode ganhar a guerra, as outras forças à volta vão-se posicionando. O que acontece é que, no próprio centro, o mecanismo de acumulação de riqueza foi ruindo. O grande erro das elites dirigentes foi promoverem um modelo de crescimento baseado na facilidade de obtenção de crédito, socorrendo-se da poupança obtida na periferia do império.

Mas a Europa também foi vivendo à custa desse modelo...
Sim, a Europa viveu à custa desse modelo – assim como diversas organizações mundiais e muitos outros países – financiando alegremente o centro até ao momento em que o nível da dívida atingiu um montante tal que corresponde actualmente ao PIB mundial.

Chegados a este ponto, que alternativas se vislumbram?
A reunião do G20 – que agrupa os vinte países mais ricos do mundo – teve lugar há poucos dias, antes da realização desta entrevista. Na minha opinião, essa reunião é uma manifestação clara de que irá surgir uma nova ordem mundial – neste momento transitória – de carácter multipolar.

Mas o modelo vigente irá, no essencial, manter-se o mesmo...
Eu penso que o modelo irá assentar nas regiões, isto é, em vez de termos um centro e de tudo o resto estar organizado em torno dele, iremos ter vários centros de acumulação. O que irá acontecer, portanto, é que cada uma dessas regiões – traduzidas em acumulação de riqueza – irá trilhar o seu próprio caminho e investir de acordo com aquilo que lhes parecer a melhor forma de fazer negócio. Ou seja, irá apoiar-se muito mais o crescimento da riqueza noutros sítios do mundo. Irá haver não uma única moeda de reserva mundial, que neste momento é o dólar, mas uma série de outras moedas com essa função, como o euro, a libra, o yen... os chineses já chegaram a propor o yuan, e os russos também querem o rublo. Ou seja, se deixa de existir uma única moeda de reserva e ela se multiplica por seis, qualquer um desses países poderá criar riqueza suficiente para tornar interessante as trocas comerciais com base nas respectivas divisas. Deste modo, é evidente que poderá haver uma transferência do centro de coordenação da América para outros sítios. Mas este processo, evidentemente, não será imediato.

Que papel poderão desempenhar as Nações Unidas nesta nova ordem?
O facto de este primeiro encontro do G20 ter sido realizado fora do âmbito das Nações Unidas mostra bem até que ponto o actual modelo da ONU estará esgotado. As Nações Unidas terão de ser reformuladas, de uma forma ou de outra, quando estiver estabelecido um novo modelo mundial. Que não irão ser as Nações Unidas a definir, mas o próprio G20 – ou um grupo mais restrito no seu interior.

Mas acha que a ONU poderia, ou deveria, ter um papel mais importante na definição dessa nova ordem mundial?
Como qualquer organização, a ONU tem uma marca muito forte, própria do contexto em que foi criada. Não podemos esquecer que ela surge no final da II Guerra Mundial, sob proposta dos EUA, para consolidar a liderança deste país em determinadas zonas do mundo. Ora, esse mundo do pós-guerra acabou. Temos de criar novas instituições.

 

A Europa como centro de um novo império

 

No seu artigo, o professor fala da necessidade de refundar as instituições. E diz, nesse sentido, que se abre uma grande oportunidade para a Europa que é preciso saber aproveitar. Em que medida?
Essa grande oportunidade passa, na realidade, por percebermos aquilo que esta crise representou, com tudo o que isso implica em termos de dificuldades e de dramas pessoais. Enquanto a Europa mantiver as suas instituições ligadas ao império – é preciso não esquecer que a CEE surgiu como um produto da Guerra Fria para estabilizar a Europa face à ameaça soviética e que todas as nossas instituições têm funcionado nessa lógica, inclusivamente o próprio alargamento aos países de Leste – isso não será possível, porque esta lógica está completamente falida. É, pois, chegado o momento de refundação da Europa e das suas instituições, que nos permita tirar partido da nossa dimensão e assumirmo-nos, enquanto nação ou federação de nações, como um grande actor democrático global. Porque neste novo mundo multipolar, as únicas regiões onde a democracia se assume como um ponto forte de definição e de sobrevivência são a Europa e a América do Norte.

Democracias talvez um pouco fragilizadas...
Mas ainda assim democracias. Não se pode dizer que a China seja uma democracia; e a Índia, apesar de se assumir como democracia, é um país onde 25 por cento da população faz parte da casta dos intocáveis.

Regressar de certa forma ao papel que a Europa tinha nos anos 70...
Fazer aquilo que foi o sonho dos grandes impérios europeus mas que nunca foi atingido, isto é, conseguir unificar a Europa. Evidentemente que essa ambição não poderá passar pela formação de uma Europa-país, mas por uma federação, com um poder no centro, um parlamento a sério, um governo e um exército europeus.

É favorável, por isso, a uma Europa federada...
Não sei se federada, se confederada. Francamente, não sei definir qual desses modelos poderá funcionar melhor. O que afirmo é que a actual União Europeia é fraca para competir e para sobreviver neste mundo. Nós nunca iremos acabar com as nações no espaço europeu porque elas têm identidades muito fortes. Mas a Europa, enquanto conjunto de nações, é fraca. Quando queremos falar de cooperação surge à cabeça a Comissão Europeia, mas quando falamos em termos económicos os países europeus continuam divididos e a competir entre si. No fundo, é esta a imagem da Europa perante as grandes potências mundiais. E temos de ter a noção de que a continuar por este caminho não estaremos a avançar para lado nenhum.

Mas esse é um meio caminho para, de certa forma, nos assumirmos nós próprios como o centro de um novo império...
Teria de ser um império, embora não gostemos muito dessa designação.

Voltando ao mesmo modelo que mostrou a sua falência por duas vezes ao longo do século XX...
Não se trata do mesmo modelo. E, de qualquer modo, sempre haverá impérios. Um império é, no fundo, uma coordenação de recursos e de acumulação de riqueza. Enquanto essa acumulação de riqueza for baseada nos pressupostos do capitalismo, que vão mudando. Desde 1500 até hoje, o centro deste sistema deslocou-se do Norte de Itália para os Países Baixos, para a Inglaterra, para a costa leste dos EUA, e agora não sabemos para onde irá. Não se pode explicar este processo se não pela acção do próprio poder financeiro que foi apostando em novas áreas de desenvolvimento para criar uma maior acumulação de riqueza. Enquanto não houver um método mais eficiente de acumular riqueza, não vejo como parar este processo. Haverá um novo império que colapsará, e depois um seguinte, e por aí adiante. Até, eventualmente, à formação de um governo mundial.

Pensa que a sociedade civil e as organizações não políticas poderão desempenhar um papel importante nesse processo de construção?
Sem dúvida, porque é da sociedade civil que emergem os novos dirigentes. Uma sociedade civil que depois se organiza em grupos, e que terá ela própria um papel muito importante – num sistema democrático, naturalmente – na circulação de informação, de opinião e na criação de coesão interna. Uma sociedade civil forte, com instituições fortes, pode conduzir à emergência de um grupo que tenha capacidade de interpretar não só os anseios da população como os próprios objectivos e estratégias dos outros, que consiga propor algo que seja válido por uma ou duas gerações. Isso seria óptimo.

Entrevista conduzida por Ricardo Jorge Costa
Fotografia de Inês Andrade


  
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