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A educação não é um problema de economia, mas de filosofia

Em alturas de crise como a que vivemos atualmente, a Filosofia poderia “abrir os espíritos e fazer as pessoas pensar de uma maneira independente. Mas isso, infelizmente, esgota-se na retórica”. Elena Theodoropoulou é professora na Universidade do Mar Egeu (Rodes, Grécia) e esteve recentemente no Porto para participar no colóquio Direitos Humanos e Contemporaneidade.
O Novo Contrato Social, organizado pelo Instituto de Filosofia da Universidade do Porto. Num breve encontro com a PÁGINA, conversou sobre a importância da Filosofia, o papel da Educação e das universidades e as suas expectativas relativamente ao futuro.

É professora de Filosofia na Grécia. Comecemos por aí…

Ensino Filosofia na Escola de Humanidades da Universidade do Mar Egeu. Mesmo que pareça evidente, ao nível da cultura grega, ensinar Filosofia num Departamento de Educação Pré-Escolar e Design Educacional, de facto não o é, precisamente por causa de um recuo da cultura filosófica na Grécia relativamente ao que era no passado.
Para mim, é muito interessante não fornecer aos alunos, futuros educadores, apenas conhecimentos e informações sobre a história da Filosofia, mas criar com eles uma atitude filosófica no que respeita ao mundo e à vida. Muitas vezes, as pessoas não reconhecem a importância de uma atitude singular e importante. Por isso, o meu trabalho, a minha preocupação, é explorar com os meus alunos a singularidade e importância possíveis de uma tal atitude, a todos os níveis também possíveis.

... Até porque a Grécia tem uma longa tradição filosófica…

Sim, mas, paradoxalmente, no sistema educativo, a Filosofia não aparece sistematicamente nem nas escolas, nem nas universidades. Nós ensinamos Filosofia, mas não temos a Filosofia disseminada nos nossos cursos ou na estrutura do nosso currículo. É algo removido da nossa experiência diária. Há uma coisa que a Psicologia explica: nós herdámos características dos nossos pais, mesmo físicas, mas depois não tomamos consciência da nossa semelhança. E adquirir consciência da nossa proximidade com os nossos pais, com os nossos ascendentes, por vezes, é um trabalho muito duro, muito difícil. Acho que o grego, como pensa que a Filosofia lhe está no sangue, não chega a conhecer a Filosofia ou, se quiser, os direitos da Filosofia. Creio profundamente que é preciso reinventar, redescobrir a Filosofia na Grécia.

No atual contexto de crise, que papel pode desempenhar a Filosofia?

Há uma resposta muito estereotipada a propósito disso. A Filosofia é necessária porque pode abrir os espíritos e fazer as pessoas pensar de uma maneira independente.
Mas isso, infelizmente, esgota-se na retórica, porque desde lembrar e acentuar isso até esquecê-lo completamente, designadamente na Educação, é precisamente o percurso de um esquecimento que se torna destrutivo para a sociedade e para a própria Educação. Muito concretamente, por que é que a gente se esquece da Filosofia, tendo ela esta força de libertação?

É uma pergunta muito complexa, que tem também parâmetros políticos.

Se quisermos ficar no campo da Educação, o que se passa é que não temos paciência para escutar o murmúrio das crianças e torná-lo num discurso que seja razoável, um discurso que possua um poder de conhecimento, de autoconhecimento e de conhecimento do outro, ou de descoberta do outro, nas suas formas diversas. Porque esta passagem do murmúrio ao discurso múltiplo implica tempo, com demoras múltiplas; não é feito de uma forma linear, quando há silêncios, quando há recusas. E é preciso que a Educação respeite de uma maneira profunda este desenvolvimento da pessoa humana, através da linguagem, porque a Filosofia é linguagem.
Efetivamente, e infelizmente, a Educação, de uma forma geral, e na Grécia em particular, não tem tempo para esta passagem, porque o seu objetivo é de uma só vez construir personalidades com características distintas, em vez de personalidades tecidas pela Filosofia da Educação. Porque a Filosofia não é só libertar o espírito. É uma possibilidade de encontrar para cada pessoa, para cada indivíduo, a linguagem que convém, que interessa, que está de acordo com a sua maneira de pensar. A Grécia vive uma grande instabilidade.

Como estão a viver este momento?

Nós vivemos a dificuldade. Uma dificuldade a todos os níveis, mas que, de facto, representa – talvez pela primeira vez depois da ditadura militar – a necessidade de nos identificarmos numa paisagem europeia e internacional através de conceitos e valores que representem aquilo que é verdadeiramente o nosso povo, no tempo e no espaço.
Eu tenho a impressão de que durante os últimos cerca de 40 anos nós vivíamos nas sombras das luzes, de civilizações que estavam mais alinhadas com o progresso. E isso significa que tendíamos a assumir sistemas de valores que, no fundo, não tinham passado pelos nossos problemas, pelos nossos medos. Quando a crise explodiu, parecia que se tratava apenas de um problema económico, mas agora, que o problema económico está no seu ponto mais profundo, nós compreendemos que se trata de uma situação do tipo daquela que Hannah Arendt descreveu, que é a destruição total do espaço público; uma alienação profunda, porque o Estado, pouco a pouco, criou excluídos no seu próprio espaço. E o problema é que os gregos não tomaram consciência de que isso estava a acontecer ao longo destes anos.
Lá como cá, tem havido cortes na Educação. A Educação não pôde ser salva. Todos os setores sofreram cortes muito duros, embora tivéssemos a esperança de que, mesmo durante este período, o Estado pudesse ter um projeto que poderia proteger a Educação. Mas agora sentimos que não, não houve esse projeto muito simplesmente porque não se trata ainda de um problema económico e da Economia.
Mas é com certeza um problema da Filosofia da Educação. Acredito que da forma como as coisas se desenvolveram não haveria nenhuma Filosofia da Educação que pudesse prever o que de facto aconteceu, nada poderia prever esta política.

O que podem fazer as universidades?

Toca numa questão que é imperiosa, porque as universidades passam por uma das crises mais severas da sua história, depois da queda da junta militar – falo sempre da junta porque realmente é um marco da nossa história recente; este período depois da junta foi, apesar de tudo, um período de desenvolvimento para nós, mas infelizmente com os resultados que todos conhecemos...
A Universidade encontra-se agora num período sensível, porque o Governo está a tentar aplicar uma lei que muitas universidades gregas consideram que emerge de uma mentalidade anglo-saxónica que faz com que as considerem mais como empresas.
E eis que está aqui o grande conflito entre o Governo e as universidades. De qualquer forma, houve alguns universitários que pensaram que esta lei pudesse pôr alguma ordem nas universidades, mas não é o que está a acontecer, ela está a introduzir um grande sofrimento.
Sob o pretexto da crise, as universidades vão mudar radicalmente. Mas quero acentuar que, além das questões estritamente administrativas que se colocam, o que se passa é que não há uma verdadeira filosofia para a Educação, que veja na Educação aquilo que realmente um povo pode querer para o seu futuro. Considero que neste momento, na Grécia, a Educação é autenticamente uma ferida. Hoje em dia não é seguro pensarmos que um universitário é um intelectual, porque a Universidade transformou-se num centro de criação de poder, e não seguramente de trabalho intelectual. Mas ao mesmo tempo, temos de esperar que a Universidade crie um discurso criativo, um discurso libertador, que possa abrir novos caminhos, que possa abrir espaços, que possa acolher as inquietações do povo.
Se quer a minha opinião, não tenho muita confiança nas instituições, e a Universidade é uma instituição. E nestas circunstâncias, a revolução não vai poder ser produzida no seio das universidades.

Ou seja, as universidades deviam preocupar-se mais em formar seres pensantes do que em fornecer mão de obra ao mercado de trabalho?

Formar seres pensantes devia ser a preocupação das universidades. O próprio Estado diz que sim, mas é essa a ironia. Pretende-se que a Universidade, trabalhando de uma maneira mercantil, positivista, centrada nos resultados que podem ser medidos, seja igual a produzir seres pensantes. É preciso, então, definir ou redefinir o conceito de pensamento, do que é pensar.
Por outro lado, por que é que as universidades, nestas circunstâncias, quereriam produzir seres pensantes? Pois se eles existem para servir uma conceção muito precisa da vida e da civilização...
Mas temos necessidade de uma certa maneira de pensar que esteja de acordo com ideais, ou pretendemos que as pessoas façam silêncio relativamente ao seu pensamento íntimo? Não vale a pena pensar de uma maneira diferente em circunstâncias predefinidas e extremamente rígidas, porque se pudermos pensar verdadeiramente, será precisamente para alterar os quadros de referência, para se poder fazer a revolução.

Que expetativas tem relativamente ao futuro da Educação na Grécia?

Não sou nada otimista a esse propósito. O que não quer dizer que deixe de trabalhar, de fazer esforços, individualmente ou em grupos de trabalho. Mas eu não sou realmente otimista, porque a Educação grega vê o seu futuro com os instrumentos, os utensílios, os valores e os conceitos do passado, ainda que com um vocabulário técnico que parece ser moderno. Esta é a corrente atual. O que devemos esperar da Educação é que, sendo capaz de alterar os conceitos, os valores, os referenciais, possa representar um papel transformador, um papel inovador nas sociedades. Se há uma crise de sentido, nós não respondemos a essa crise com respostas prefabricadas.
Não se está a ousar colocar a questão crucial e não se ousa dizer que não se tem a resposta. Nós perdemos a nossa juventude, porque todas as respostas estavam já respondidas; mas, no meu ponto de vista, o défice não está tanto nas respostas, mas nas questões.

E qual é o caminho para a mudança?

A mudança deve provir do direito a pensar e da liberdade de pensar diferentemente até às próprias origens, às próprias raízes. É preciso não pensar apenas ao nível da superfície. É preciso ousar, conforme Lorca dizia, mergulhar até ao ponto mais sombrio do grito.

O que espera do futuro, na Grécia e na Europa?

Mais do que nunca, nós temos necessidade de pertencer a uma comunidade, e houve pessoas que pensaram que essa comunidade era a União Europeia. O mais cruel do nosso pesadelo é compreender que esta não é de facto uma comunidade de valores, uma comunidade de seres vivos, de pessoas vivas, o que passaria através dos seus conflitos, dos seus desacordos, das suas diferenças, ou seja, através da procura de um modus vivendi em conjunto. Em vez disso, o critério de formação da comunidade situa-se fora da própria comunidade e das pessoas que aí vivem. Eu não sei se tenho confiança na atual comunidade europeia. Mas penso cada vez mais que a necessidade de se construírem comunidades é uma questão crucial para as nações, na Europa e por todo o lado.

Entrevista conduzida por Maria João Leite 


  
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