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Sam Gamgee: um herói do 25 de Abril

A propósito da recente passagem de mais um aniversário da revolução do 25 de Abril de 1974, presto assim a minha modesta homenagem àquele que, para mim, melhor encarna o simbolismo dessa data.

O romance mais extraordinário que li, até à data, foi «O Senhor dos Anéis», de J.R.R. Tolkien. Seriam precisas muitas páginas desta revista para explicar este juízo. Como isso não é possível, limitar-me-ei a dizer que encontro lá tudo o que somos (nós, humanos), mas vistos à lupa, para se ver o que não se vê à vista desarmada. Assim sendo, não surpreenderá, a quem tenha lido e apreciado esse romance, que eu me possa ter cruzado, ainda que fugazmente, com dois dos seus personagens: Samwise Gamgee e Tom Bombadil. Lembram-se? Eram ambos completamente imunes ao Anel Um, o anel forjado por Sauron para dominar os outros anéis, que dá poderes assombrosos a quem o utiliza, mas vai corrompendo interiormente aqueles que o possuem, até torná-los seus escravos.
Abro pois, desta vez, uma excepção à linha de rumo destes artigos, sempre dedicados à linguagem, para contar, a propósito da recente passagem de mais um aniversário da revolução do 25 de Abril de 1974, como conheci o seu Sam Gamgee. Presto assim a minha modesta homenagem àquele que, para mim, melhor encarna o simbolismo dessa data. O meu preito de homenagem ao seu Tom Bombadil terá de ficar, por falta de espaço, para outra oportunidade.

Sauron faz das suas

Em finais de 1977, o ministro da Educação à época, Mário Sottomayor Cardia, já falecido, decidiu extinguir o Instituto Superior de Ciências Sociais e
Políticas, em Lisboa, alegando “degradação pedagógica e científica”. Não se conhecem os relatórios de avaliação em que se baseou para chegar a esse veredicto, nem os nomes de quem os fez. Seria em vão que procuraríamos uns e outros, porque creio que nunca existiram. Por que razão foi então o ISCSP encerrado? Pelo mais antigo, constante e coriáceo de todos os motivos: a disputa pelos anéis do poder, que, nessa época, ainda estavam muito dispersos por facções rivais. A do ministro, no governo, era a mais poderosa, mas havia outras fora dele, que não lhe davam tréguas, entre elas, a do seu antigo partido.
A mini-biografia do ministro, publicada pelo Instituto Camões, é muito esclarecedora a este respeito. Aí se lê que aderiu ao PCP em 1961, quando ainda era estudante de Filosofia, onde permaneceu até 1973, antes de aderir ao PS. Como militante do PCP, diz o seu biógrafo, foi “um ideólogo rígido, [que] participou de forma determinada na estratégia comunista”. Também como ministro, nos 1º e 2º governos constitucionais, “dificilmente a sua acção pode ser sobrestimada”, diz o seu biógrafo, porque, entre outras coisas, “saneou a influência comunista no ensino”, “chegando a encerrar a Universidade de Coimbra durante seis semanas, mas deslocando-se à baixa da cidade para afirmar a sua autoridade”.
Nada posso dizer sobre a alegada influência comunista no ensino, na Universidade de Coimbra dessa época, porque não estava lá. Mas no ISCSP, o caso muda de figura, porque eu era, em 1977, um dos docentes desse instituto, onde entrei em Setembro de 1974. No corpo docente, de muitas dezenas de pessoas, só havia três membros do antigo partido deste ministro da Educação, que ele tanto passara a detestar. A ideia de que esses três docentes, de que guardo boas recordações como colegas, seriam responsáveis pela gestão e pela qualidade de ensino do ISCSP é tão ridícula que me dispenso de a comentar.
Quanto aos estudantes, que eram mais de mil, havia de tudo, politicamente falando, como seria de esperar. Concluo, portanto, que Sauron deve ter plantado na palantir de Saruman, digo (peço desculpa pelo lapso) de Cardia, as imagens caleidoscópicas dos seus detestados inimigos políticos.
O facto é que todos os docentes, com três ou quatro excepções, receberam a notificação de que seriam despedidos a partir de 15 de Dezembro de 1977. E os estudantes? Perguntam bem. Reagiram muito mal à perspectiva de terem de interromper ou abandonar os seus cursos por falta de professores. Então, aconteceu uma coisa extraordinária, que só é compreensível no contexto da época. A grande maioria dos docentes, em vez de ir tratar da sua vida noutras paragens, como seria normal, decidiu continuar a trabalhar e fazer as avaliações e os exames das cadeiras de que eram responsáveis. E foi o que fizeram, conscienciosamente, o que só por si descredibiliza a inventona da “degradação pedagógica e científica”.

Sam Gamgee, aliás Salgueiro Maia

Foi nessa época que conheci melhor um dos meus alunos, uns anos mais velho do que eu, o capitão Salgueiro Maia, o homem que intimou Marcelo Caetano a entregar-lhe o Anel Um e que o entregou a seguir à Junta de Salvação Nacional, para que fosse destruído. Claro, sabemos que não foi. O Anel Um só pode ser destruído nas fornalhas de Orudruin, que ninguém sabe onde ficam, aqui na Terra.
Simpatizámos imediatamente um com outro e descobrimos até que tínhamos um elo de ligação comum. O capitão Maia era natural de Castelo de Vide, a vila dos meus avós paternos, onde eu vivi um ano durante a minha infância pré-escolar. Na altura, Salgueiro Maia tinha sido colocado nos Açores, como persona non grata. Lembro-me de lhe ter perguntado o que sentia por ter sido remetido para essa espécie de desterro. Respondeu-me que não sentia nada de especial, apenas vontade de rir, visto que não tinha qualquer ambição de poder. Apenas queria ser dono da sua vida e viver como um homem livre.
Depois, discutimos longamente o trabalho que me apresentou para avaliação: um estudo sobre as relações, durante a segunda guerra mundial, entre o Estado português (Salazar, para abreviar) e os EUA no que toca à utilização dos Açores como base militar. Nunca mais o vi.

José Catarino Soares


  
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