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Saber ler pode mudar destinos?

No filme Entre os muros da escola, os alunos tampouco se intimidam diante do poder legitimado. Dessacralizando a estrutura escolar,  eles denunciam incoerências éticas e ridicularizam  práticas pedagógicas desconectas da vida.

Se a denúncia da distância crescente entre escola e vida não é nova, sua problematização já extrapola espaços pedagógicos, invadindo páginas de romances, chegando às telas dos cinemas, convidando a sociedade à reflexão. Tais questões perpassam, inclusive, três filmes recentemente premiados, roteirizados a partir de livros: O leitor; Quem quer ser um milionário? e Entre os muros da escola (A turma, em Portugal). No primeiro, livros e escola se mesclam ao prazer de ler/possuir em que Michel e Hanna trocam entre si o que lhes falta; no segundo, a leitura na escola aparece em rápida cena em contraponto com impactantes experiências e leituras de mundo; no terceiro,  conflitos interculturais entre professores e adolescentes  marcam uma escola da  periferia de Paris.
Em O leitor, o nó do  conflito recai no  sentimento de suprema vergonha – culpa? – por não saber ler. Se  Hanna soubesse ler, poderia aceitar a promoção que lhe fora acenada, em vez de fugir.  Se não abandonasse o emprego, talvez não se sujeitasse a servir aos nazistas. Se não agisse condicionada a cumprir com  seriedade suas tarefas - fosse o controle de bilhetes de trem ou a guarda de prisioneiras, talvez a sensibilidade reservada a ouvir leitores evocasse outra atitude diante da vida e do holocausto das prisioneiras. Vítima do analfabetismo, assume a culpa pelo relatório que não escreveu para não  se assumir analfabeta. Condenada, consegue  inventar  na prisão um método de se alfabetizar, associando textos escritos  a textos gravados e enviados por Michel. Cumprida a  sentença, restou-lhe o vazio: como viver  sem esperança?
Em Quem quer ser um milionário? os irmãos Jamal e Salim são lançados  juntamente com Latika no olho da turbulência, vivendo emergências tão impactantes que exigiam deles sobre-ser-viver para escapar à morte. O trio compartilha experiências reelaboradas de modo diverso da linearidade  de causa e efeito.  Como fracos que são, espreitam o terreno para responder do seu modo às circunstâncias que os subalternizam, recorrendo a camuflagens, astúcias e dribles. Acrescente-se  ainda o espírito determinado de Jamal que se orgulhava de saber ler. Tivesse aprendido também a lição de subalternidade na escola, conseguiria  enfrentar os desafios?
No filme Entre os muros da escola, os alunos tampouco se intimidam diante do poder legitimado. Dessacralizando a estrutura escolar,  eles denunciam incoerências éticas e ridicularizam  práticas pedagógicas desconectas da vida. Os professores deploram  o desinteresse dos alunos pelo saber escolar,  sem investigar o que fazem, o que desejam, o que sabem e que desafios enfrentam? No cenário de confronto, excessos e conflitos. Mas a cena final, em que o professor Bégaudeau,  ator e autor do livro, joga com alunos, instiga à reflexão: é possível uma outra escola, capaz de emancipar  colonizados e colonizadores, descolonizando-os?
Fora dos livros e das  telas, acompanhei um estudo longitudinal de caso em que o analfabetismo funcional  começou a ser superado,  quando  a jovem gravemente enferma foi hospitalizada e se  realfabetizou através de livros de literatura infantil. Recuperada, voltou à escola e concluiu o 1º e o 2º graus. Como continuasse trabalhando como empregada doméstica,  perguntei-lhe:  - Então, o que mudou em sua vida? – Tudo, porque eu mudei por dentro. Antes eu achava que eu era ninguém. Tinha vergonha de mim. Hoje, sei dos meus direitos e vou atrás dos meus sonhos. Nos anos que se seguiram, conseguiu abrir uma caderneta de poupança, comprar um terreno, construir uma casa,  manter correspondência com o namorado italiano e regularizar o visto de permanência dele no Brasil. Já casada,  com passagem marcada para uma 2ª. viagem à Europa, ainda sonha formar  uma cooperativa para vender trabalhos manuais na Itália.
Diante das quatro breves sínteses, cabe indagar: na arte como  na vida  a leitura pode mudar destinos? 

Edwiges Zaccur


  
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