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Os nomes da criança

O português falado no Brasil é talvez o mais rico e o mais imoral dos idiomas no que se refere à definição de infância

A sociedade brasileira criou palavras que distinguem cada criança conforme a sua classe, a sua função, a sua casta, o seu crime.
Os esquimós têm diversos nomes para indicar a neve. Para eles, cada tipo de neve é uma coisa diferente. Para os povos da floresta, cada mato tem um nome específico. Os habitantes dos desertos têm nomes diferentes para dizer "areia", conforme as características específicas que ela apresenta. Para conviver com o seu meio ambiente, cada povo desenvolve a sua cultura com palavras distintas para diferenciar as subtilezas do seu mundo. Quanto mais palavras distinguem as coisas que as rodeiam, mais rica é a cultura de uma população.
Os brasileiros urbanos desenvolveram a sua cultura criando nomes especiais para diferenciar o que, para outros povos, seria apenas uma criança.
Para poder circular com segurança nas ruas das suas cidades, os brasileiros deste século XXI têm maneiras diferentes de chamar "criança". Não se trata dos sinónimos de antigamente para indicar a mesma coisa, como "menino", "guri", "pirralho". Agora, cada nome indica uma subtil diferença no tipo de criança.
O português falado no Brasil é certamente o mais rico e o mais imoral dos idiomas do mundo actual no que se refere à definição de criança. É um rico vocabulário que mostra a degradação moral de uma sociedade que trata as suas crianças como se não fossem apenas crianças.
Menino-de-rua significa aquele que fica na rua em vez de estar na escola, em casa, a brincar ou estudar, mas tem uma casa para onde ir ? diferenciado subtilmente dos meninos-de-rua, aqueles que não estão apenas na rua, mas moram nela, sem uma casa para onde ir. Ao vê-los, um habitante das nossas cidades distingue-os das demais crianças que ali estão apenas a passear.
Flanelinha é aquele que, nos estacionamentos ou nas esquinas, finta os carros dos ricos com um frasco de água numa mão e um pedaço de pano na outra, com a intenção de convencer o motorista a dar-lhe uma esmola em troca da rápida limpeza do vidro do veículo. São diferentes dos esquineiros, que tentam vender algum produto ou pedem apenas esmolas aos passageiros dos carros parados nos engarrafamentos. Ou dos meninos-de-água-na-boca, milhares de pobres crianças que carregam uma pequena caixa com chocolates, tentando vendê-los mas sem saberem o paladar desse mesmo chocolate.

Subtis diferenças

Prostituta-infantil já seria um termo maldito para uma cultura que sentisse vergonha da realidade que retrata. Como se não bastasse, ainda tem as suas subtis diferenças. Pode ser bezerrinha, ninfeta-de-praia, nina-da-noite, menino ou menina-de-programa ou michê, conforme o local onde pára ou o gosto sexual do freguês que atende. E tem a palavra menina-paraguai, para indicar as crianças que se prostituem por apenas um real e noventa e nove centavos, o mesmo que custam as bugigangas que a globalização trouxe como contrabando, quase sempre daquele país. Ou menina boneca, de tão jovem que é quando começa a prostituir-se, ou porque o seu primeiro pagamento é para comprar a primeira boneca que nunca teve como presente.
Delinquente, infractor, avião, pivete, trombadinha, menor, pixote: sete palavras para definir a ligação das nossas crianças com o crime. Cada qual com a sua maldita subtileza - a maneira como aborda as suas vítimas, o crime ao qual se dedica - assim se aplica determinado artigo do código penal.
Em vez de crianças, são chamados boys, engraxates, meninos-do-lixo, recicladores-infantis, de acordo com o trabalho que cada uma delas faz.
Ainda tem filhos-da-safra, para denominar as crianças abandonadas pelos pais que todos os anos emigram em busca de trabalho nos lugares onde há empregos para os bóias-fria, nome que indica também a riqueza cultural do subtil vocabulário da realidade social brasileira. Ou os pagãos-civis, que vivem clandestinamente nas suas curtas passagens pelo mundo, num país que lhes nega não apenas o nome de criança, mas também a existência legal.

Criança-triste

Como resumo de todos estes tristes apontamentos, há também criança-triste: não se refere à tristeza de um brinquedo quebrado, de uma palmada ou reprimenda recebida, ou mesmo à perda de um ente querido. No Brasil há um tipo de criança que não fica apenas triste, mas nasce e vive triste ? o seu primeiro choro parece mais um lamento pelo futuro que ainda não pode prever do que o primeiro ar que recebe nos seus diminutos pulmões.
Criança-triste, substantivo e não adjectivo, como um estado permanente de vida: esta talvez seja a maior das vergonhas do vocabulário da realidade social brasileira. Outra das grandes vergonhas da realidade política é a falta de tristeza no coração das nossas autoridades perante a tristeza das crianças brasileiras, com as subtis diversidades reflectidas no vocabulário com que as catalogam.
A sociedade brasileira, na sua maldita segregação, foi obrigada a criar palavras que distinguem as criança conforme a sua classe, a sua função, a sua casta, o seu crime. A cultura brasileira, medida pela riqueza do seu vocabulário, enriqueceu perversamente ao aumentar as palavras para denominar criança. Um dia, esta cultura vai enriquecer-se ao criar nomes para os presidentes, governadores, perfeitos, políticos em geral que não sofrem, não ficam tristes, não percebem a vergonhosa tragédia do nosso vocabulário.
Quem sabe se não será preciso que um dia chegue ao governo uma das crianças-tristes de hoje, para que o Brasil torne arcaicas as palavras que hoje enriquecem o triste vocabulário brasileiro e construa um diccionário onde criança... seja apenas criança.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 174
Ano 17, Janeiro 2008

Autoria:

Cristovam Buarque
Ministro da Educação do Brasil
Cristovam Buarque
Ministro da Educação do Brasil

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