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A Saudade dos Presentes

Não são os (presentes) do Natal que isso já lá vai muito tempo! E, para além do mais, estes provocam momentos de satisfação ou não, a quem os recebe e, se a sério, não menos alegria a quem os oferece. Mas o sentimento é efémero. É desperdício aplicar ao facto a qualificação nobre de saudade.
A saudade, para mim, é muito mais do que nostalgia do que não vai repetir-se. É a emoção proveniente do que se perpetua em relação aos que abalaram sem deixaram de estar connosco.
Pois é, no dia 23 deste mês de Fevereiro cumprem-se 13 anos sobre a partida física do caminheiro das estradas da liberdade: José Afonso, o único!
Reza o calendário que, em dia homólogo de 1869, é abolida a escravatura em todo o território português. Em todo o "império".
Quando o Zeca deixou a herança ao povo, mais de um século passado, na sua declaração de bens ainda constavam armas de vontade e luta contra tantas formas de escravatura claramente expressas ou camufladas de bondade hipócrita.

"A morte / saiu à rua / num dia assim / Naquele / lugar sem nome / pra qualquer fim / ... E o som da bigorna / um clarim do Céu / vão dizendo / em toda a parte / O pintor morreu "

"Por trás daquela janela / Por trás daquela janela / faz anos o meu amigo / e irmão ... Não pôs cravo na lapela / Por trás daquela janela / Nem se ouve nenhuma estrela / por trás daquele portão"

O inconformismo feito insubmissão sempre foi acompanhado da serenidade que a paz exige e que a harmonia impõe. Tão consciente, que lhe chamaram o distraído. Que homem grande!
Clarifique-se o sentido da(s) escravatura(s) após a citada abolição das grilhetas. Escravo, nenhum ser humano, por via dessa condição, é. Agora, que há muitas pressões
que implicam uma grande capacidade de resistência aos chicotes dos que são, eles sim, escravos da sua ambição, do seu egoísmo, da sua arrogância, da sua mediocridade, da sua ignorância, enfim, da sua incapacidade de ser.

"São os mordomos / do universo todo / Senhores à força / mandadores sem lei/
/Enchem as tulhas / bebem vinho novo / Dançam a roda / no pinhal do rei /
/Eles comem tudo ... E não deixam nada "

Mas, quando o sonho comanda a vida, as vontades entrelaçam-se e o futuro acontece. Não há calendário nem relógio que aprisionem esse SEMPRE em que nos sabemos cúmplices companheiros na invenção de dias diferentes.

"Somos filhos da madrugada / Pelas praias do mar nos vamos / à procura de quem nos traga / verde oliva de flor no ramo ... Lá do cimo duma montanha / acendemos uma fogueira / para não se apagar a chama / que dá vida na noite inteira ... Onde o vento cortou amarras / largaremos pela noite fora / onde há sempre uma boa estrela / noite e dia ao romper da aurora"

Estamos no Ano Internacional para a Cultura da Paz. Sinal de perigo! É que não devia ser preciso! A cultura, naturalmente que é necessária, mas o mundo tem obrigação de ter aprendido a fazê-la como condição imperiosa para a sua sobrevivência.
Continua, portanto, a fazer falta avisar a malta, a acordar a malta, a empurrar a malta.

Iracema Santos Clara
Escola E.B. 2.3 Dr. Pires de Lima

 


  
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Edição:

N.º 88
Ano 8, Fevereiro 2000

Autoria:

Iracema Santos Clara
Escola E.B. 2/3 Dr. Pires de Lima, Porto
Iracema Santos Clara
Escola E.B. 2/3 Dr. Pires de Lima, Porto

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