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Os Novos Colonos

Hoje, não há espaço para a liberdade, para a opinião, para o debate, para a reflexão e para a proposta de mudança consequente. Na Escola cumpre-se o que Rubem Alves, esse notável pedagogo e escritor, disse: ?para a burocracia, o que interessa é o que vem no relatório, não as crianças?; no desporto, digo eu, por aqui, mais vale um título de campeão que uns milhares a praticarem desporto educativo,  regular e portador de futuro.

Politicamente, vejo-o um pistoleiro montado no cavalo do poder. Aliás, o ?cheiro a pólvora? sempre o fascinou. Ele é, de facto, um exímio jogador das circunstâncias políticas que o momento aconselha. A história vem de há muito: desde o apoio a Oliveira Salazar (são testemunho inequívoco os artigos publicados no antigo e situacionista Voz da Madeira), passando pelo elogio dos bombistas dos anos 70 até senhorio da Autonomia. Aquilo que o jornalista madeirense Tolentino de Nóbrega, recentemente condecorado pelo ex-Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, caracterizou, no Público, de Jardim I (o colonialista), Jardim II (o separatista) e Jardim III (o autonomista). Acrescento, agora, Jardim IV (o ditador).
Em tempos disse: os jornalistas de lá (leia-se Continente) são ?patetas? e, por aqui, a ?limpeza? vai começar. O tipo de limpeza, esse, não clarificou. Sabe-se, porém, que a vida de alguns profissionais da comunicação social madeirense, aliás, desde há muito, não corre de feição. Os que escrevem com independência e honestidade, os que não se curvam nem pagam tributo, os que são eles próprios com os seus princípios, valores e as convicções que transportam, os que tentam ir ao fundo das questões ou, no mínimo, conseguem olhar para o outro lado da coisa, os que sabem correlacionar factos internos e externos, os que têm arquivo e memória, os que investigam, os que não sorriem perante a palhaçada circense e a verborreia comicieira das inaugurações, esses, para o senhorio-ditador, constituem uma espécie daninha imprópria da ?Madeira Contemporânea?. A bem do povo superior urge liquidá-los. De forma ?raffinée?, como então foi salientado. Sem qualquer tiro mas, em alguns casos, fazendo sangue no ambiente familiar. Porque das duas uma, como escreveu Aor da Cunha: ou cumprem uma finalidade não incomodante, não provocadora de tensão e, por isso mesmo, ajudam a ?fazer a industrialização da cabeça? ou, se tentam continuar a ?mostrar o excepcional, diferente, estranho, curioso, insólito? (...) numa atitude de ameaça àquilo que o senhorio-ditador entende como consciência feliz da população, através do rompimento da sua ?estabilidade psíquica?, obviamente que pagam tal atrevimento. Percebe-se tudo isto na leitura de A Caixa Negra, de Jorge de Campos. Dir-se-á, então, para que sobrevivam nesta Região de interesses políticos e oligárquicos, o jornalista (o professor, também) tem de mandar às malvas a ética e a deontologia, os princípios e os valores, entrar no rebanho e produzir textos (aulas, também) que cumpram, exactamente, os critérios ideológicos e particulares do senhorio-ditador, interpretando o papel tipo voz do dono. A censura é, portanto, hoje, ?raffinée? e o lápis, antes azul, transformou-se numa caneta de veludo laranja, onde os assessores têm um papel determinante na criação de um ?apartheid? que não estimula a reflexão crítica e, como escreveu Umberto Eco (in Apocalípticos e Integrados) apenas conduz à ?hipnose? de quem lê, vê ou ouve. Para o senhorio-ditador, mentor desta sociedade despersonalizada, domada, de ombros caídos, passada ao ferro uniformizador da verdade única, compete ao jornalista (ao professor, também) colaborar, activamente, no domínio da indústria da consciência.
O senhorio-ditador é, de facto, um espertalhão. Tem a escola do antigo regime. Recentemente, através dos seus deputados na Assembleia Legislativa da Madeira, subscreveu, pasme-se, um deplorável requerimento, solicitando um exame às faculdades mentais de um deputado por indícios de ?demência?. Apenas porque o deputado teve a coragem de dizer o que muitos pensam, que a Região da Madeira está politicamente dominada por uma ?oligarquia mafiosa e criminosa? e ?transformada, por inacção do poder judicial, num verdadeiro paraíso criminal?.
Questionará o leitor, que terá tudo isto a ver com a política de Educação onde o desporto se enquadra? Tudo. Porque não há, hoje, espaço para a liberdade, para a opinião, para o debate, para a reflexão e para a proposta de mudança consequente. Na Escola cumpre-se o que Rubem Alves, esse notável pedagogo e escritor disse: ?para a burocracia, o que interessa é o que vem no relatório, não as crianças?; no desporto, digo eu, por aqui, mais vale um título de campeão que uns milhares a praticarem desporto educativo, regular e portador de futuro. Como não há forma de dar uma volta a isto, como docente, contento-me com as palavras de esperança de Rubem Alves "(...) enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo (a minha terra) pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro (...)". Subtilmente, caminho por aí.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 155
Ano 15, Abril 2006

Autoria:

André Escórcio
Mestre em Gestão do Desporto. Professor do Ensino Secundário, Funchal
André Escórcio
Mestre em Gestão do Desporto. Professor do Ensino Secundário, Funchal

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