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Casa da música aberta às escolas e professores

Música ao ritmo do ano lectivo

?A casa de todas as músicas?, é assim que Maria João Araújo, responsável pela Direcção de Educação e Investigação (DEI) da Casa da Música a define. Pela frente ?há muito trabalho a fazer?, garante. Escolas, comunidades, trabalho com outras instituições, edições, novas tecnologias e investigação, são as áreas de actuação em que a DEI vai apostar. A diversidade ilustra a ambição e o desafio a que a direcção se propõe. Maria João Araújo acredita em todas as potencialidades do trabalho a desenvolver.

Há imensa coisa a fazer na Casa da Música até ao fim do Verão. Workshops, concertos, visitas guiadas ao edifício. Mas a Direcção de Educação e Investigação (DEI) foi pensada em sintonia com o calendário do ano lectivo. Assim, a partir de Outubro, a coincidir com o arranque do ano escolar, começam os projectos a longo prazo.
"Em breve será assinado um protocolo com a Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) no sentido de lançar um desafio às escolas: serem elas a propor projectos que queiram realizar com a Casa da Música", adianta Maria João Araújo. Uma vez apresentadas, as propostas serão analisadas pela DEI e a DREN e juntas vão decidir quais os projectos a realizar. Nas escolas, cada projecto terá um coordenador que será como que o elo de ligação à Casa da Música. "Queremos que o tempo disponibilizado para a colaboração seja contabilizado como componente lectiva. E que os projectos se possam incluir na Área de Projecto".
No entender de Maria João Araújo o papel da DEI no contexto do ensino da Educação Musical é o de "envolver os professores de todas as disciplinas e criar projectos interdisciplinares dando-lhes meios e ideias de como trabalharem nas escolas com os alunos". Nesse sentido, a Casa da Música dispõe já de uma rede de cerca de 60 professores das mais diversas áreas, e não apenas da música, que estão a colaborar com a instituição. "Mas pretendemos que sejam ainda mais", afirma a directora. Até porque, sublinha Maria João Araújo: ?É proveitoso para as escolas trabalharem connosco pois temos os meios e os músicos e nós também queremos apostar nessa colaboração.?
"Os professores que estejam a trabalhar com a Casa da Música terão uma série de benefícios como o Cartão Professor com descontos para os concertos e serão o nosso elo de ligação às escolas." A rede existente é anterior à abertura da Casa da Música, mas está aberta a qualquer professor independentemente da sua área de formação, e a partir do próximo semestre haverá cursos de formação para os interessado e ser-lhes-ão dados kits pedagógicos para que possam trabalhar com os alunos antes de os levarem à Casa da Música.
Outro aspecto desta ligação entre a escola e a Casa da Música é a intenção expressa de que seja oficial, como esclarece Maria João Araújo: "Que seja o próprio Conselho Executivo da escola a nomear o professor coordenador do projecto professor [ainda que sejam estes a candidatar-se para tal colaboração] que vai colaborar e ver esse tempo contabilizado como lectivo."

Investigação

Será outra das áreas chave do trabalho da DEI. ?No campo da investigação há ainda muito a fazer?, garante Maria João Araújo. ?O primeiro curso de investigação em Ciências Musicais abriu nos anos 80?, recorda, ?depois começamos a interessar-nos pela música antiga que foi a época de ouro de Portugal devido aos Descobrimentos. Todo o resto está disperso?.
Da necessidade de ?concentrar todas as relíquias musicais que estão dispersas em vários sítios, como bibliotecas e colecções privadas?, a DEI tem em vista a criação de um Centro de Documentação ?que funcione como um pólo concentrador onde as pessoas possam encontrar as obras que precisam ou pelo menos uma referência sobre o local onde elas se encontram?, refere Maria João Araújo. ?Uma pessoa que queira investigar onde o vai fazer aqui no Porto??, questiona. E conclui: ?A criação do Centro de Documentação é um desafio muito grande.? E poderá ser útil não só aos investigadores portugueses. ?Há muitos investigadores estrangeiros interessados em estudar a musicologia portuguesa. Na Universidade de Oxford, por exemplo, há um coro à capela chamado ?Portuguesa? que se desloca a Portugal, investiga, edita, canta e grava obras portuguesas?.
A área da musicologia privilegiada será a dos séculos XIX e XX, épocas em que Maria João Araújo é especialista. Esta limitação cronológica prende-se com o facto de a Fundação Calouste Gulbenkian ter já um ?trabalho louvável? na área da investigação da música antiga. ?Foram feitos contactos com a Gulbenkian com o objectivo de concertar políticas editoriais no sentido de fazermos projectos em parceria mas também de dividirmos águas?, explica Maria João Araújo. ?É perfeito, cobrimos a história da música toda e estamos em sintonia em conformidade com as especializações das pessoas que trabalham em cada uma das instituições?, conclui.

Área Editorial

Aliada à investigação surge a área editorial que irá abranger não só a edição de trabalhos de investigação como também de partituras e de colecções educativas dirigidas a professores e alunos. Essas colecções também vão incluir os trabalhos dos músicos da Casa.
Também na área editorial ?o trabalho a fazer é muito?, garante Maria João Araújo. A explicação assenta na particularidade que a directora do DEI, sublinha. ?O século XIX no Porto foi a nossa época de ouro. Enquanto que Lisboa estava centrada na Ópera, no São Carlos, no Porto estávamos a avançar com a Música Sinfónica, com os quartetos, os primeiros recitais de líder. E tudo isto está por explorar!? E revela: ?Existem obras que nunca foram tocadas porque não existem as partituras editadas, algumas ainda se encontram manuscritas, por isso, será interessante passados 150 anos estarmos a estrea-las.?

Novas Tecnologias

Outra das vertentes que não ignorada pela Direcção de Educação e Investigação foi as das novas tecnologias ligadas à música. Destaca-se neste campo a colaboração do Media Lab do MIT (Massachusets Institute of Technology, de Bostan, nos EUA) num projecto que está a ser desenvolvido no Espaço Cyber da Casa da Música por Tod Machover, responsável pelo Media Lab. O projecto ?Hyperscore?, um sistema de software que permite a criação de composições desde a sinfonia ao rock, passando pela ópera e o fado, possibilitando a experimentação da música. Dos workshops já realizados Maria João Araújo constatou que a reacção ao projecto foi boa: ?Os miúdos adoraram e é uma maneira criativa e divertida de aprender todos os conceitos da música mas através do computador e a desenhar o que é bastante interessante?.
Para compor no ?Hyperscore? não é necessária formação musical. Uma funcionalidade que ?vai ao encontro da nossa ideia de como podemos fazer com que a pessoa tenha uma experiência rica na área da música não sendo só ouvinte?, refere Maria João Araújo. ?O nosso objectivo é saber como podemos ajudar as pessoas a serem compositores e instrumentistas sem terem de passar pelos anos de aprendizagem de linguagem  musical por que passam os músicos até que possam tocar com uma orquestra. Através da tecnologia as pessoas poderão ter essa experiência.? As melhores peças compostas no ?Hyperscore? vão ser tocadas pela Orquestra Nacional do Porto em concerto.
Na mesma linha, mas direccionado às escolas do Ensino Básico e Secundário, existe ainda o projecto ?Toy Shymphony?, criado por Tod Machover e o MIT. É um projecto internacional de educação  e criação de música que permite a experimentação da música através de brinquedos musicais preparados para o efeito. E é o culminar deste projecto em que as melhores peças compostas no Hyperscore vão ser tocadas pela Orquestra. Dirigido a crianças e jovens? mas também ao público em geral.
Outro dos projectos nesta área é o ?Laboratório de Som?, destinado a crianças e jovens, que resultou de uma parceria com o Centro Cultural de Belém. Os participantes experimentam um conjunto de mecanismos que materializam o som permitindo a sua visualização. Desta forma percebem todas as questões acústicas do som e realizam experiências fazendo, por exemplo, um gira-discos e vendo como o som se propaga na água. Todos estes workshops estarão em funcionamento até ao mês de Julho, sendo que alguns estão sujeitos a marcação.

Concertos

Até ao Verão, a programação da Direcção de Educação e Investigação inclui ainda uma série de concertos comentados e pedagógicos.
No programa destaca-se um concerto para dois pianos comentado por António Vitorino de Almeida que vai explicar a peça e tirar dúvidas no sentido de ajudar a audiência a ser melhor ouvinte (22 de Maio). Serão organizados concertos pedagógicos com a Orquestra Nacional do Norte (7 de Junho), com o pianista  Domingos António (3 de Junho) dirigidos às escolas do 3º ciclo do Ensino Básico e Secundário e ao público em geral. Também existem concertos ou espectáculos que são pensados exclusivamente para crianças, não como espectáculo pedagógico mas como arte por arte. ?Se uma criança se habituar a ver espectáculos apropriados para a sua idade, certamente que no futuro continuará a fazê-lo?. E esta é também umas das preocupações da DEI. A formação de audiências.

Palestras e Masterclasses

Outra área é a das palestras e apresentações pensadas para ajudar os espectadores a compreender as obras e a melhor desfrutarem delas. Para um público mais ligado à música a DEI vai ainda apostar na realização de masterclasses.
Uma dessas apresentações será a da ópera ?Ottone?, de Haendel proferida por Rui Vieira Nery (21 de Julho). António Cartacho, autor de programas da rádio Antena 2, será outro dos oradores convidados a comentar os ?Quadros de uma Exposição?, de Mussorgsky, pela Orquestra Nacional do Porto (23 de Julho). Também o concerto da Orquestra Nacional do Porto sobre o ?Mar?, será precedido de uma conversa entre Marc Tardeu e António Vaz de Carvalho, maestro e director da orquestra.
No âmbito das masterclasses, destinadas já a um público mais ligado à música destacam-se as realizadas pelo Quarteto Borodin que durante um ano vai fazer sete visitas a Portugal e de cada vez irá trabalhar com um quarteto de cordas português. A expectativa criada em torno desta experiência é muita, afirma Maria João Araújo: ?O Quarteto Borodin é considerado um dos maiores de sempre?.
As audições para a participação nestas masterclasses realizam-se nos dias 5 e 7 de Maio e estarão a cargo do próprio quarteto. Os escolhidos trabalharão ao longo do ano nessas aulas de aperfeiçoamento técnico e o melhor grupo tocará com os músicos o ?Octeto? de Shostakovich. ?É um incentivo muito grande para os grupos instrumentais portugueses se aperfeiçoarem com músicos desta craveira?, sublinha a directora da DEI.
?Mas como esta é uma casa de todas as músicas?, diz Maria João Araújo, haverá ainda dois workshops de Jazz, um com o Don Byron (14 Maio), outro com o Mart Ducret (15 Maio) e um de música Oriental com Ali Reza Ghorbani (11 Junho).
Sobre os desafios que se colocam à Direcção de Educação e Investigação, Maria João Araújo não tem dúvidas de que ?há todo um trabalho a fazer?, mas insiste: ?na Casa da Música temos a vantagem de poder fazer todo o ciclo: investigar a obra e o compositor, estudar a partitura, editá-la e tocá-la em concerto, gravá-la em disco, fazer uma conferência sobre isso.? E isso, conclui Maria João Araújo, ?é dar vida à música!?

O rosto da Direcção de Educação e Investigação

Maria João Araújo é a directora de Educação e Investigação da Casa da Música. Passou os últimos doze anos da sua vida em Londres, Inglaterra. É licenciada em Ciências Musicais pelo King?s College London, e doutorada pela Universidade de Oxford onde leccionou durante dois anos na Faculdade de Música. Tem feito a sua carreira na área da musicologia, tendo participado em vários projectos educativos internacionais organizados pela União Europeia. Um facto ao qual não será alheia a sua recente eleição para o conselho de administração da Rede Europeia de Serviços Educativos, entidade responsável pela organização de projectos educacionais entre os mais prestigiados centros musicais da Europa em cooperação com a União Europeia.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 145
Ano 14, Maio 2005

Autoria:

Andreia Lobo
Jornalista, A Página da Educação
Andreia Lobo
Jornalista, A Página da Educação

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