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A escola é promotora de transformação social?

Quase 30 anos volvidos sobre a democratização da sociedade portuguesa e muitas reformas curriculares implementadas com vista a garantir igualdade de direitos e oportunidades no sistema educativo, a função socializadora e conservadora da Escola parece continuar a ser vencedora, promovendo cabalmente a integração na cultura dominante.

Ao estudar o processo de decisão vocacional à saída do 9º ano, procurei dar voz aos alunos, no sentido de compreender o significado que este momento tinha para eles e o sentido que atribuíam à decisão tomada.
Adivinhava alguma falta de reflexão sobre os seus próprios comportamentos. Acreditava, porém, que a situação de entrevista, ao abordar temas afectivamente importantes, lhes permitiria tornar explicito o seu quadro de referência, desmontando possíveis resistências e racionalizações. Mas não foi isso que aconteceu.
Em primeiro lugar, os meus entrevistados dividiam-se em dois grupos: os que sabiam muito bem o que queriam e os que se tinham limitado a adiar a decisão para o final do 12º ano. Não viam portanto razão para reflectir sobre o assunto naquele momento.
Por outro lado, ao contrário do que aconteceu com outras entrevistas que noutros contextos realizei com pessoas mais idosas, esta faixa etária parece ter uma história de vida ainda muito curta, razão por que tem mais dificuldade em invocar experiências significativas.
Por fim, o que me parece verdadeiramente relevante, este público não foi suficientemente estimulado a emitir as suas opiniões, a reflectir sobre as suas práticas e sobre o mundo que o rodeia. A frequência escolar parece ter desenvolvido técnicas de sobrevivência que passam pela aprendizagem da resposta tipo: unívoca, breve e pré-concebida e, portanto, quando convidados a reflectir, a questionar ou tão somente a desenvolver um tema, parecem ficar ?sem rede?.
Este contacto revelou que, quase 30 anos volvidos sobre a democratização da sociedade portuguesa e muitas reformas curriculares implementadas com vista a garantir igualdade de direitos e oportunidades no sistema educativo, a função socializadora e conservadora da Escola parece continuar a ser vencedora, promovendo cabalmente a integração na cultura dominante.
De entre os entrevistados, apenas uma foi capaz de tecer críticas sobre a instituição onde passa a maior parte dos seus dias, onde todas as relações acontecem e da qual parece depender grande parte do seu futuro. Quando questionados directamente sobre se a frequência escolar favoreceria a formação do sentido crítico e a tomada de decisão autónoma, mais uma vez a Ana parece ter sido a única a reconhecer o conceito:
«Acho que as coisas já estão tão enraizadas que acaba por não se saber o que é que tem de mudar. Mas percebemos que alguma coisa tem de mudar. As nossas atitudes também têm de mudar, os professores...
(espírito crítico) Não se faz muito por isso, até parece que se não tivermos é melhor... É ouvir e calar!»  Ana, 15 anos
Em todos os outros casos, pareceu-me ter sido a primeira vez que estes jovens foram convidados a questionar a realidade que os rodeia, não tendo sequer a noção de que esta poderia ser diferente daquilo que é. Habituados a reproduzir os discursos produzidos por, pela e para a Escola, limitaram-se a reproduzir durante as entrevistas argumentos legitimados pela cultura escolar, mesmo quando são eles as suas principais vítimas.
Se desde o início da minha investigação havia postulado a reflexividade como fundamental a uma tomada de decisão consistente e a um projecto vocacional potencialmente emancipatório, a falta de capacidade para questionar o mundo à sua volta e de concepções alternativas pareceu-me um indicador negativo relativamente à forma como o processo de decisão tende a desenvolver-se entre os alunos que terminam o 9º ano. Revelando-se a escola incapaz de levar a cabo o que considero ser a sua função mais nobre, a promoção de processos de transformação social.
Esta visão pode, porém, ser relativizada se encararmos a posição acrítica dos alunos como utilitarista e estratégica, fruto de uma longa aprendizagem através do currículo oculto de que a melhor forma de ser bem sucedido é a reprodução de argumentos legítimos. Então, estes alunos parecem estar no caminho certo, e nós tivemos acesso apenas ao discurso que produzem sobre as suas práticas e não às suas verdadeiras acepções.


  
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Edição:

N.º 140
Ano 13, Dezembro 2004

Autoria:

Susana Faria
Escola Superior de Educação de Leiria
Susana Faria
Escola Superior de Educação de Leiria

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