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Para onde é que vamos?

(Para a Marília?)

O ambiente era festivo. Não seria de esperar aquele desabafo numa noite assim. «Se pudesse ia-me embora da escola já amanhã». Uma amargura, como que envergonhada, embargava-lhe a voz e foi perante o nosso silêncio algo embaraçado que rematou: «Nunca pensei que um dia seria capaz de dizer isto».
Fossem outros os tempos e a conversa não acabaria ali, por isso é que o nosso silêncio, naquele momento, nos soava de forma tão constrangedora como a confissão daquela mulher. Uma mulher generosa e uma professora com provas dadas. Uma dessas profissionais que não só acreditava no que fazia, como sabia, igualmente, por que é que o fazia. Uma professora que o era porque o queria ser. Era ela que, com a filha ainda criança, se metia serra acima, semana após semana, durante todo um ano lectivo, a caminho de Mafomedes. Sem esmorecer e recusando, sem vacilar, o recurso aos atestados médicos, porque acreditava que esse era o seu dever: fazer com que os seus alunos pudessem usufruir da escola, como quaisquer outras crianças deste país.
O que explicava aquele desânimo de alguém que, com um brilhozinho nos olhos, tem sempre uma pequena história para nos contar sobre um qualquer acontecimento ocorrido na sua sala de aula? O que explicava o nosso silêncio quando, noutras circunstância, teríamos sempre uma palavra encorajadora e amiga para desencantar?
O desânimo e o silêncio, como sinais do tempo educativo em que vivemos, afirmaram-se, em todo o seu esplendor, naquele momento breve e súbito. Um tempo em que se enaltece meia dúzia de professores, atribuindo-lhes um prémio monetário, que contribui, sobretudo, para que se possa desacreditar todos os outros. Um tempo que propicia o caciquismo e a ordem deprimente dos rebanhos. Um tempo feito à defesa e em surdina, onde os sonhos se afogam em documentos sem sentido e em projectos cujo significado escapa, invariavelmente, àqueles que são os responsáveis pela sua implementação. Um tempo em que as vozes usualmente críticas parecem, hoje, tão mais cansadas quanto amansadas. Um tempo que nos obriga a perguntar «Para onde é que vamos?», quer porque começamos a acreditar que essa questão pouco tem a ver connosco, quer porque não sabemos fazer, ou não somos capazes de fazer, perguntas mais úteis e localizadas. Um tempo dado a sebastianismos ou ao salve-se quem puder que, de repente, foi erigido em lema fundamental dos tempos que correm. Um tempo feito de ruídos e de incertezas acerca do papel das escolas e dos professores. Um tempo feito de grandes e de pequenas armadilhas que não temos sabido evitar, embrenhados que andamos em mil e uma tarefas tão pedagogicamente inúteis, como politicamente necessárias. Um tempo onde a pertinência da educação escolar é alegremente confirmada em todos os «confesso-que-sei-menos-que-um-miúdo-de-dez-anos» que nos atazanam a noite, a vida e a paciência.
Por isso é que o «quem-me-dera-ir-embora-já-!» se transformou no pai-nosso dos professores e o nosso silêncio significa quão funda é a descrença que se vai apoderando de todos nós. Uma descrença que ajuda a compreender o nosso silêncio em torno do encerramento apressado e insensato de algumas escolas, das actividades de enclausuramento escolar, mais conhecidas por actividades de enriquecimento curricular, dos desmandos dos critérios e dos concursos para professor titular ou, entre outros exemplos possíveis, da avaliação de desempenho dos professores, designação pública e desonesta para nomear algo que pouco tem a ver com um processo de avaliação.
Não seria este, certamente, o artigo que gostaríamos de escrever no início de um novo ano, mas não cremos que, pelo andar da carruagem, possamos afirmar que uma nova vida nos espera. O concurso que substitui a eleição dos responsáveis pela direcção executiva das escolas, a figura do director e a ilusão de eficiência que essas medidas preconizam, falam por si e revelem-nos os sentidos das políticas educativas, e não só, do Portugal de Sócrates. O Portugal das assinaturas nos Jerónimos e dos bilhetes postais ensolarados, onde o desemprego, as relações laborais precárias, as reformas compulsivas antecipadas, as assimetrias sociais crescentes e o poder dos tiranetes ou dos chicos-espertos não são passíveis de ser vislumbrados, talvez ofuscados por um sol que, contudo, não impede que sintamos o frio duro do Inverno em que vivemos.

Ariana Cosme
Rui Trindade


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 174
Ano 17, Janeiro 2008

Autoria:

Ariana Cosme
Fac. de Psicologia e Ciências da Educação, Univ. de Porto
Rui Trindade
Faculde de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto
Ariana Cosme
Fac. de Psicologia e Ciências da Educação, Univ. de Porto
Rui Trindade
Faculde de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

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