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A Sexualidade na Escola

"Educação Sexual" ou "Educação para os Afectos"?

Abordar a sexualidade na escola não é fácil. Devia sê-lo, mas não é. "Falar de sexualidade é difícil porque imaginamos sempre coisas associadas a ela que nos levam a ficar com vergonha. Se calhar é por isso que os professores não estão à vontade para conversar connosco". Quem o afirma é a Mariana, 17 anos, estudante do 11º ano, que naquela tarde estava sentada com mais dois amigos, a Cláudia e o Pedro, na escadaria fronteira à escola. Não foi difícil falar com eles. Pareceram partilhar as suas opiniões com gosto e dizer o que provavelmente muitas vezes fica por dizer.
O Pedro, um ano mais velho do que a Mariana, acha que aprendeu mais a falar com os amigos e os colegas sobre os temas que se relacionam com a sexualidade do que na escola. "Aqui fala-se principalmente dos perigos das doenças sexualmente transmissíveis, dos métodos contraceptivos e pouco mais". Oculta-se, na sua opinião, o que por vezes é mais importante: satisfazer a curiosiosidade, questionar sobre se determinados comportamentos são considerados "estranhos" ou se "faz mal à saúde" praticar determinado tipo de sexo. "Acho que é como a Mariana disse: as pessoas talvez tenham vergonha ou achem mais natural falar disso com os amigos, não sei...".
"Os rapazes deviam saber qual é a sensação de uma mulher ter um filho... Talvez assim dessem mais valor à maternidade", opina a Cláudia. Apesar de concordar que passar pela mesma experiência será um pouco difícil, ela pretende demonstrar que o facto de "eles" desconhecerem o funcionamento biológico da mulher leva-os, muitas vezes, a adoptarem certos "comportamentos irresponsáveis".
Há dois anos trabalharam a sexualidade como tema na área-escola. O resultado parece ter sido encorajador, mas não houve continuidade. "Foi engraçado porque pudemos pesquisar sobre determinados assuntos e expô-los abertamente aos outros. Na altura falamos bastante sobre o assunto, mas depois nunca mais o abordamos", diz a Cláudia. "Foi a primeira vez que soube como realmente funcionava o aparelho reprodutor feminino, o ciclo da menstruação e outras coisas. Mas acho que ficou muito por perguntar...", afirma, por seu lado, o Pedro.
Um pouco mais jovens do que os seus colegas - frequentam o nono ano e têm todos quinze anos -, a Mariana, a Ana e o Domingos estão à volta de uma mesa do bar jogando cartas. Talvez por isso seja patente a sua apreensão inicial em falar sobre o assunto. Como é que a educação sexual devia ser abordada na escola? "Nunca tinha pensado nisso", diz a Mariana - esta de apelido Raquel -, desviando o olhar para os colegas e soltando um pequeno riso. "Aqui na escola só aprendi educação sexual nas aulas de Religião e Moral", responde por seu turno a Ana, que, apesar disso, não hesita em afirmar que já sabe "quase tudo" o que há para saber.
O Domingos, pelo contrário, considera que devia haver uma hora semanal para discutir os assuntos ligados à sexualidade. "Às vezes há perguntas que temos vergonha de fazer aos nossos pais e às quais os amigos também não sabem responder. Nessa altura dava jeito. Mas não devia contar para avaliação nem ter faltas", refere.
Os depoimentos recolhidos junto destes alunos de dois estabelecimentos de ensino do Porto, permitem demonstrar, pelo menos em parte, que a educação sexual nas escolas é ainda um tema pouco divulgado. Isto, apesar de a educação sexual se encontrar regulamentada desde 1984, pela lei nº3/84, bem como pela Lei de Bases do Sistema Educativo de 1986. O ano passado, as garantias do direito à saúde reprodutiva foram reforçadas pela Lei nº120/99 e, segundo o Plano Interministerial para a Educação Sexual e para o Planeamento Familiar, prevê-se que até 2003 cerca de 90 por cento dos alunos deverá receber formação nas áreas da sexualidade humana, fisiologia da reprodução, doenças sexualmente transmissíveis, relações interpessoais e planeamento familiar.
Uma meta tanto mais importante quando se sabe que Portugal é o país da União Europeia com maior número de mães menores de idade. Apesar deste número ter vindo a decrescer nos últimos anos, só em 1997, segundo números fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística, cerca de 2500 adolescentes - entre os doze e os dezassete anos - foram parturientes, sendo que a larga maioria não retorna à escola.

Investir na formação dos professores

Apesar de ter uma importante função preventiva, a educação sexual não devia cumprir um papel meramente informativo. "E o erro está aí, ao continuar a achar-se que a informação é o mais importante. Não é, porque os adolescentes têm a informação e não a usam." , diz Emília Costa, psicóloga e professora da Faculdade da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação do Porto. O mais importante, sublinha, é o "desenvolvimento do indivíduo no respeito por si próprio e pelo outro". Daí considerar que deva falar-se mais em "educação para os afectos" - onde, a par com aspectos de ordem prática, se dê particular ênfase às relações interpessoais - do que reduzir o conceito a "educação sexual".
Mas mais do que orientar-se preferencialmente por uma ou outra abordagem, o fundamental, defende, é que a escola, desde a pré-primária à universidade, defina com coerência os objectivos que pretende atingir. Mas as escolas, afirma, "não têm objectivos e cada professor tende a actuar de forma isolada". "Assim, como é possível os alunos sentirem-se inseridos num contexto, quando não há uma identidade própria ou uma estratégia concertada?", questiona-se.
A formação de professores é uma das áreas mais importantes para o sucesso dessa estratégia. Uma necessidade premente, demonstrado, nomeadamente, pelo crescente número de pedidos que a Associação para o Planeamento da Família (APF) tem vindo a receber para formação ou apoio a projectos de educação sexual nas escolas, inclusivamente nos estabelecimentos do 1º ciclo do ensino básico, embora nestes com menos frequência. A formação de formadores tem sido uma das principais apostas da instituição, tanto como meio de suprir a carência de formadores disponíveis como forma de aumentar a qualidade da resposta. Paralelamente a estas acções, também as escolas superiores de Educação e as universidades têm vindo a ser solicitadas no sentido de incluirem temas de educação sexual e Formação pessoal e Social nos curriculos dos diversos cursos, quer no que respeita à formação inicial, quer à formação contínua. ESE's como a de Setúbal ou do Porto, entre outras, começaram já a organizar formação nesta área.
Seja por falta de preparação ou por desconhecimento de causa, o facto é que muitos professores continuam a ter dificuldades na abordagem da sexualidade. Para ilustrar esta afirmação, Emília Costa recorre a um exemplo extremo, mas bem ilucidador do que pode suceder quando o professor não se encontra convenientemente preparado para lidar com determinadas situações na sala de aula. Uma história que, confessa a própria, a chocou bastante: "A meio de uma aula uma adolescente foi menstruada e não se apercebeu do facto. Os colegas começaram a rir-se e a professora, ainda jovem, não reagiu de forma positiva, perguntando-lhe, ao contrário do que seria de esperar, se a mãe nunca lhe tinha ensinado a andar protegida".
São exemplos como este que levam a psicóloga a concluir que o tipo de abordagem utilizada não se encontra relacionada com a idade ou com a formação pessoal de cada docente, mas está dependente, em grande medida, da motivação e da sensibilidade em relação aos problemas e à forma de lidá-los. Factores, reconhece, que uma formação adequada pode ajudar a desenvolver. É por isso que quando um aluno diz um "disparate" na aula, o professor, em vez de o convidar a sair, devia aproveitar a circunstância para abordar o assunto de uma "forma educativa", sugere.
"Os professores esquecem-se muitas vezes que são ao mesmo tempo pais. Se eles pensassem nos alunos nos mesmos termos que os filhos, como reagiriam? Por outro lado, se se lembrassem do seu período de adolescência, o que faziam, o que questionavam, os medos e as angústias que experimentaram, concerteza se sentiriam mais próximos dos sentimentos dos alunos".

Envolver os pais

Mas não devem ser apenas os professores os alvos destas acções de sensibilização e formação. Os encarregados de educação, enquanto actores centrais no processo de aprendizagem e da formação pessoal dos jovens, são também eles confrontados com situações às quais não sabem, por vezes, como reagir, questionando-se frequentemente de que forma podem ajudar os filhos. "Não é preciso tirar nenhum curso", refere Emília Costa. "Basta que falem do que sabem com naturalidade e abertura".
Neste sentido, a Associação de Pais da Escola Secundária da Maia, desenvolve, desde final de 1998, diversos programas de sensibilização para as questões da adolescência, de entre os quais se destaca uma acção de formação destinada exclusivamente aos encarregados de educação. "Elos de Intimidade", assim se chama a iniciativa, leva, uma vez por semana, os pais de três turmas do oitavo ano daquela escola a encontrarem-se para debater os mais variados temas ligados à sexualidade, recebendo formação, entre outras vertentes, na área da comunicação com os filhos.
"Pretendemos principalmente que os laços de comunicação sejam facilitadores da relação entre pais e filhos", refere Luísa Costa, presidente da Associação de Pais e dinamizadora da iniciativa. A taxa de participação não é muito elevada - cerca de trinta por cento do total de encarregados de educação assistem às reuniões -, mas esse não é um aspecto que a preocupe. "Não nos interessa formar grandes grupos porque não seguimos uma estratégia do tipo explanativa, apostamos mais na dinâmica de grupo, lançando questões que são posteriormente discutidas entre todos".
Partindo da sua experiência, Luísa Costa diz que a sexualidade continua a ser um tabu, seja a nível pessoal, seja na relação entre os casais. "Como não o havia de ser entre pais e filhos?", pergunta-se. Mas o trabalho parece estar a desenvolver frutos. Após três encontros, Luísa Costa afirma que a evolução deste grupo foi extraordinária. "Já há uma ligação mais forte entre os participantes, as pessoas falam abertamente, gracejam... houve inclusivamente quem me pedisse para levar as irmãs, as cunhadas ou os amigos. E isto demonstra a vontade dos pais quererem aprender mais para saber como lidar com os respectivos filhos".
Um exemplo, entre tantos outros que se começam a generalizar, indispensáveis para mudar as mentalidades dos adultos e daqueles que ensinam as crianças. "A sociedade portuguesa ainda está muito virada para si própria. Ainda se acredita que ser pai e mãe é qualquer coisa de instintivo e natural, mas é uma das tarefas mais difíceis com que o ser humano é confrontado", refere, por seu lado, Emília Costa. Daí considerar que uma boa parte do trabalho deva ser desenvolvido juntos dos adultos, pais e sociedade em geral, tentando alterar valores que já não se adaptam à actual forma de vivência dos adolescentes: "Somos regidos por valores paradoxais e queremos que os jovens os assumam".

Ricardo Jorge Costa

Alguns títulos sobre o tema

"Amo-te"
Francesco Alberoni, Venda Nova, Bertrand, 1996

"Madrugada de Lágrimas - Depressão na Adolescência"
Dulce Bouça, Porto, Edinter, 1997

"Mais do que Amigos - Tudo o que queres saber sobre
amor e sexualidade"

Sanderijn Van der Doef, Porto, Edinter, 1996

"Os Amantes, os Maus e os Outros"
Shere Hite e Kate Colleran, Venda Nova, Bertrand, 1992

"Menina e Moça - A construção Social da Feminilidade"
Teresa Joaquim, Lisboa, Universidade Técnica de Lisboa, 1994

"As Árvores de Deus e as suas Flores -
Psicologia Social das Relações Amorosas"

António Manuel Marques, Lisboa, ISCTE, 1996

"Vozes e Ruídos - Diálogos com Adolescentes"
Daniel Sampaio, Caminho, 1993

"Sexo para adolescentes"
Marta Suplicy, Porto, Afrontamento, 1994

"Educação Sexual na Escola"
Júlio Machado Vaz, Duarte Vilar, Susana Cardoso
Lisboa, Universidade Aberta, 1998


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 89
Ano 9, Março 2000

Autoria:

Ricardo Jorge Costa
Jornalista do Jornal A Página da Educação
Ricardo Jorge Costa
Jornalista do Jornal A Página da Educação

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