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Educação Tradicional em Angola

O que ensina a companhia é superior ao que ensina a escola.
(provérbio ambundo, Matta. 1891:121)

No debate sobre as finalidades da literatura de tradição oral não há contendor que olvide ? e até que não privilegie ? o papel educacional da mesma, sem esquecer os, sempre repetidos, objectivos lúdicos e catárticos.
Natural será, por isso, que haja uma congruência quase total entre os princípios da educação tradicional ? não existe qualquer "tratado escrito" angolano de educação tradicional infantil ? e aqueles que a literatura de tradição oral veicula.
A educação da criança na literatura angolana de tradição oral poderá ser abordada segundo alguns vectores educacionais: agentes; áreas de incidência; parâmetros; expectativas; dificuldades; vantagens; procedimentos. Talvez seja interessante explicitar esses vectores, registando alguns exemplos patentes nas "formas simples de texto", nomeadamente provérbios, adivinhas e canções. Embora o universo educacional da narrativa tradicional não difira muito do daquelas formas de texto, a extensão da narrativa não permite a sua exploração exemplificativa.
Os agentes educativos que intervêm nas "formas simples de texto" são os seguintes, por ordem de frequência: a mãe: "Quem muito pergunta não come veneno, viagem (feita) com a mãe não escapa da memória." (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:297); os pais: "O merdeiro não é parvo: é negócio que os pais fizeram." (provérbio ambundo, Ribas, 1979:197); o pai: "O que cresce por fora no tubérculo já estava lá dentro: se teu pai que te gerou tem maus costumes, tu também os terás." (provérbio ambó, Mittelberger, 1991:168); os velhos: "Esteve a chover e a dar sol. /Fomos interrogar os velhos./Os velhos disseram: ?Não tem importância./-?Muito bem!... Muito bem!..." (canção nhaneca-humbe, Silva, 1966:107); e, por último, os avós, os irmãos e a escola.
As áreas sobre que incide a educação são, por ordem de frequência: a aprendizagem da obediência (veja-se provérbio português: "Menino, e moço, antes manso, que formoso", in Rolland, 1841:75): "A criança deve ser obediente ou atoleimada para poder comer com os mais velhos." (provérbio ambundo, Ribas, 1979:138); a generosidade: "Criança, deves dar, não digas que a tua mãe e teu pai já haviam dado." (provérbio ambundo, Matta, 1891:31); o cuidado a ter na linguagem: "Ó filho, não digas insultos, a gazelita da chana (planície alagável) vê-te." (provérbio ovimbundo, Valente, 1964:125); por último, a hospitalidade, e a proibição do furto.
Os parâmetros educacionais: atempação: "Pau não endireitado, enquanto verde, já não pode sê-lo depois de seco; a criança não ensinada em pequena, quando crescida, não te obedece." (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:240); "O feitiço que com a infância bebi, com ele irei a enterrar." (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:241); "P - Saltando e saltando na rocha (que é)?/R - É o filho da gazela que aprende a saltar." (adivinha ovimbunda, Alves, 1951, II:1525); importância da companhia: "O que ensina a companhia é superior ao que ensina a escola." (provérbio ambundo, Matta, 1891:121). "O rio, porque andou só, está torto; se tivesse andado com gente, não entortaria." (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:267)
As expectativas educacionais goradas: "Foi guerra (contra nós) que alimentámos; são salteadores os filhos que gerámos." (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:242).
As dificuldades com que se depara o educador: "As cobras não ficam juntas na mesma caverna: educar crianças é obra difícil." (provérbio ambó, Mittelberger, 1991:147).
As vantagens duma boa educação dos filhos: "Se educas bem o teu filho, serás rico." (provérbio ovimbundo, Valente, 1964:70).
Os procedimentos educacionais: moderação: "Onde há riso, há chupeta; onde há sobrecenho carregado, há proibição." (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:332); "Se ao miúdo tiras a faca (aguçada), dá-lhe outra embotada (não ser radical e brusco na educação das crianças)"; (provérbio ovimbundo, Alves, 1951, I:675); discrição: "Se censuras o teu filho, é melhor dentro de casa."; (provérbio ovimbundo, Castro, 1948:44). O padre Valente (1964:126), corroborado por outros angolanistas, afirma que "em geral a mãe bundo curva-se à vontade, ao capricho do filho, e tem como falta o castigá-lo quando merece." ; prémio e castigo: "(Ora) favor, (ora) croque na cabeça." (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:11); "Quando uma criança chora para se lhe dar uma faca, deve-se lhe dar; em se ferindo, já não torna a pedi-la." (provérbio ambundo, Matta, 1891:107); características necessárias a um educador: "A ser muito doce, vêm os miúdos a deitar-te as mãos à careca." (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:338); "Quem ensina a andar a uma criança não se deve apressar (ou desesperar)." (provérbio ambundo, Matta, 1891:82).
O papel educacional do tio, tão marcante nas sociedades matrilineares, ? se bem que o pai não deixe "de ter grande interferência na educação dos filhos", nomeadamente nos Nhanecas-Humbes (Estermann, 1960:116) ? é objecto, nas narrativas, de um quase total olvido.
Sinal de novos tempos, ou os contadores a ignorarem o que detesta(r)em?...
Ramiro Monteiro (1994:119-120) escreve, referindo-se ao período anterior à independência: "Tal como noutras regiões de Angola, os pais [na comunidade etnolinguística ambó] estavam assumindo papel cada vez mais importante na educação dos filhos. [...] Neste aspecto, a transferência de tal responsabilidade dos tios maternos (pais sociais) para os pais biológicos estava a processar-se praticamente sem tensões. Compreende-se, de resto, que os tios maternos não manifestassem grande resistência, em virtude de a educação dos filhos, com as exigências da escolarização, acarretar encargos financeiros."

Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação de Leiria

Bibliografia referenciada
  • ALVES, Albino (1951) . Dicionário etimológico Bundo-Português (Ilustrado com muitos milhares de exemplos, entre os quais 2.000 provérbios indígenas), 2 vol.. Lisboa: Tipografia Silvas, Lda. e Centro Tip. Colonial, respect.
  • CASTRO JÚNIOR, Augusto C. S. (1948) . "Contos, lendas e provérbios ('Umbundo'-Concelho do Bié". Mensário Administrativo, nº 13, 1948:41-44.
  • ESTERMANN, Carlos (1960). Etnografia do Sudoeste de Angola. Grupo Nhaneca-Humbe, II vol., 2ª ed. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, Memórias, Série Antropológica e Etnológica nº 5.
  • MATTA, J. C. Cordeiro da (1891) . Philosophia popular em provérbios angolenses. Boston/New York.
  • MITTELBERGER, Charles (1991). A Sabedoria do Povo Cuanhama em provérbios e adivinhas. Cunene-Angola. Lisboa (?): Edição L.I.A.M.
  • MONTEIRO, Ramiro Ladeiro (1994) . Os Ambós de Angola antes da Independência. Lisboa: ISCSP/Universidade Técnica de Lisboa.
  • RIBAS, Óscar (1979) . Misoso - Literatura tradicional angolana, 1º vol., 2ª ed. (1ª ed., 1961). Luanda: I.N. - U.E.E.
  • ROLLAND, Francisco (1841) . Adágios, provérbios, rifões e anexins da Língua Portuguesa. Lisboa.
  • SILVA, António Joaquim da (1966) . Dicionário de Português-Nhaneka. Lisboa: Instituto de Investigação Científica de Angola (IICA).
  • SILVA, António Joaquim da (1989) . Provérbios em Nyaneka. Lisboa: Serviço da Cáritas Portuguesa.
  • VALENTE, José F. (1964) . Selecção de provérbios e adivinhas em Umbundo. Lisboa: Junta de Investigação do Ultramar.

Jornal a Página da Educação nº 85 - Novembro de 1999, pg. 21


  
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Edição:

N.º 85
Ano 8, Novembro 1999

Autoria:

Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação, Leiria
Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação, Leiria

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