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Pier Paolo Pasolini - A propósito do Natal

Para o Ricardo e a Cláudia.

"Tu passavas a vista pelo rude ou esplendor e era todo um teorema da pouquidão das pequenas rugas, estertores, milagres mesmos, ruídos e odores com som do corpo. Suas suavidades e amores sós ao olho inadmissível, vendo. Mexeste em tudo o que sagramos com uma só virtude - as mãos com barro e unhas de cavar"
Maria Velho da Costa "Em Honra e Lástima de Pedro e Paulo, Pasolini" in "Cravo", Novembro 75.

Pasolini antes de tudo um poeta. O seu tema dominante é por em causa a sua própria nação, "antes criador e gloriosa, hoje decadente e estéril". Pasolini é o poeta que, no pós-guerra, exprime melhor a decadência da sua Pátria.
A experiência de Pasolini é tudo menos teórica. Chega a Roma da sua Frioul natal com um pai militar na reserva que ele não ama e uma mãe que ama demasiado, foi professor do secundário e toma todas as manhãs o seu autocarro para uma escola da periferia onde ensina os seus "Ragazzi di vita", futuros heróis dos seus romances e filmes. Sentia-se humilhado por este vaivém entre a casa e a escola, tem muitas vezes a sensação que a sua própria vida não lhe pertence, que está definitivamente alienado, como um desses inumeráveis burocratas que encontra nos transportes que toma para chegar à escola. Numa das suas poesias de "A religião da minha época" mostra-se num eléctrico, a cabeça voltada para a janela como se retirar da multidão que se acotovela à sua volta. Olha a terrível paisagem da periferia de Roma com um desespero de escravo acorrentado e consola-se dizendo para si: "Eu penso".
E pensou e agiu. A propósito do filme "Fascista" de Nico Naldini escreveu em "L'Europeo" de 26/12/74:
"Estou profundamente convencido que o verdadeiro fascismo é o que os sociólogos muito gentilmente chamaram "sociedade de consumo", definição que parece inofensiva e puramente indicativa. Isso não é nada. Se se observar bem a realidade, e sobretudo se se souber ler os objectos, a paisagem, o urbanismo e acima de tudo os homens, vê-se que os resultados desta inconsciente sociedade de consumo são eles mesmos os resultados de uma ditadura, de um fascismo puro e simples. No filme de Naldini, vê-se que os jovens estavam enquadrados e em uniforme... Mas há uma diferença: naquele tempo, os jovens, mal despiam o uniforme e tomavam a estrada para casa, voltavam a ser os italianos de 50 ou 100 anos atrás. O fascismo fez deles realmente, fantoches, servidores, talvez em parte convictos, mas nunca lhes chegou ao fundo da alma, à sua maneira de ser. Pelo contrário o novo fascismo, a sociedade de consumo, transformou profundamente os jovens: ela tocou-os no que eles tinham de mais íntimo, deu-lhes outros sentimentos, outras maneiras de pensar, de viver, outros modos culturais. Já não se trata como na época mussoliniana, de uma arregimentação artificial, cenográfica, mas de uma arregimentação real, que roubou e modificou a sua alma. O que significa, em definitivo, que esta "civilização de consumo" é uma civilização ditatorial. Em suma, se a palavra "fascismo" significa violência do poder, a "sociedade de consumo" conseguiu realizar o fascismo".

"Tinham que te fazer ao menos o fim grandiloquente, feito diverso, trágico legível, porque isto está tudo ainda muito ao seu princípio. Tinha que não saber o que fazias.
Pudera eu o grande plano disso, punha-te um sorriso sem cupidez ou malícia alguma debaixo da cabeça esmagada pela necessária violência, a tua, a grosseira e finíssima inocência que há-de virar montanhas, pequenezes, a ardente câmara lenta".
Maria Velho da Costa (obra citada).

Paulo Teixeira de Sousa
Escola Especializada de Ensino Artístico Soares dos Reis / Porto

Nota: Não perder a exposição de fotografias de Aurélio Paz dos Reis - o pioneiro do cinema português - na Cadeia da Relação.


  
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Edição:

N.º 76
Ano 8, Janeiro 1999

Autoria:

Paulo Teixeira de Sousa
Escola Secundária Especializada de Ensino Artístico de Soares dos Reis, Porto
Paulo Teixeira de Sousa
Escola Secundária Especializada de Ensino Artístico de Soares dos Reis, Porto

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