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Despropósitos a pretexto do tempo dos assassinos

Notas e traços de espectadores 

Dois dias antes da abertura da 77ª edição da Feira do Livro do Porto e da 30ª edição do FITEI, Festival de Teatro de Expressão Ibérica, subiu à cena no Auditório da Fundação de Serralves, numa única noite, "Il tempo degli assassini", a primeira peça de Pippo Delbono. em representações desde 1986.
Que dizer a propósito? Que as "sonoridades linguísticas" e a "precisão da expressão corporal dos actores" aliam-se a um verso roubado a Rimbaud, à memória dos poetas malditos, ao próprio percurso profissional de Pippo Delbono (Liguria, Itália, 1959) e também aos afectos sul-americanos do actor argentino Pepe Robledo que contracena com Delbono? Que cartas comoventes, de lugares onde o Poder não poupa humilhação, ouvimos Pepe Robledo ler.
Sublinhar a confessada influência de Pina Bausch, com quem Pippo Delbono trabalhou, mas também, num trabalho que marca os anos 80 (o que justifica a sua inclusão no rescaldo da exposição sobre a década, que marcou o início do ano em Serralves), a do teatro do absurdo, a de certo teatro chinês e até a de Brecht, parece pouco. Esta harmonia poética que chega a ser naïf, de tanto ser doce, e incómoda de tanto ser amarga, é um deslumbramento de imenso, para utilizar um célebre verso de Ungaretti,.
Confesso que Delbono até me fez lembrar Jack Nicholson, o que Milos Forman dirigiu num "Voando sobre um ninho de cucos" que lhe valeu o óscar para melhor actor em 1975. Diga-se, a despropósito, que a haver óscares para teatro seria difícil atribuir o de melhor actor a Pippo Delbono sem o repartir com Pepe Robledo.
Estes caminhos experimentais (será teatro? será dança? interrogam-se os actores num papel de espectadores) fazem do teatro feito "coisa viva, única, irrepetível", nas palavras do próprio Pippo, um rito e uma experiência que chega constantemente ao limite, sem negar que, muitas vezes, as coisas mais simples são as mais extraordinárias.
Disponível, neste tempo sabático que atravesso, para fruir o que o Porto me oferece, adquiri dois bilhetes para este espectáculo sem saber quem me acompanharia a Serralves. Sobre a hora, convidei a minha filha, de 17 anos, aluna do Secundário que também frequenta aulas de teatro e de ballet, agora apenas na vertente contemporânea. Ao princípio senti que o convite tinha sido aceite em nome de uma ausência de alternativa para essa mesma noite, mas no fim registei, com muito agrado, uma opinião inesperadamente diferente, para mim e para ela: a de que tinha sido um espectáculo memorável, imperdível.
Daí também este texto a despropósito e sem utilidades imediatas (com uma única representação já é tarde para sugerir esta ida ao Teatro), sendo certo que nunca é tarde para relacionar, neste "tempo de assassinos", o teatro com a vida que passa e esta com a poesia, com a música e com a dança. Há dias, numa carta enviada a uma magistrada a quem escrevo, dizia que há poemas que valem por muitos acórdãos, mesmo tendo em vista a hermenêutica do Direito.
Hoje posso acrescentar ao rol destes despropósitos, simples e extraordinários, esta peça de teatro do "Il Tempo Degli Assassini", onde dois grandes actores se bastam num palco cujo maior luxo são duas cadeiras, sem esquecer o texto, reescrito em cena. Testemunho do irreprimível impulso desta nota de espectador e do desenho que a acompanha, desenho que a minha filha esboçou num gesto idêntico ao de outras seduções.
Viva o bom teatro.


  
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Edição:

N.º 168
Ano 16, Junho 2007

Autoria:

Júlio Roldão
Jornalista do Jornal de Notícias
Júlio Roldão
Jornalista do Jornal de Notícias

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