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Voam dois Mirós da ARCO e vê-se tecnologias no lixo

Numa sexta-feira 13, em Madrid

Na véspera do dia dos namorados, uma sexta-feira 13, Filipe de Bourbon e noiva, a celebrada jornalista Letizia Ortiz Rocasolano, foram namorar para a ARCO, sob a vigilância do rei Juan Carlos, senhor pai dele, e estiveram, os três, na galeria alemã Orangerie Reinz, de Colónia. Talvez se tenham cruzado com o ladrão das litografias de Miró... Ou talvez não.
Que o roubo aconteceu no dia da visita real e naquela galeria de Colónia é incontestável... Mas o desvio destas duas litografías de Joan Miró, avaliadas em 7000 euros cada, durante a 23.a edição da ARCO de Madrid, quase nem justifica notícia. Muito mais de 14 000 euros custaria o espaço dedicado à divulgação daquele ocorrência se comprado aos preços das tabelas de publicidade.
Como referia o jornalista do Le Monde que acompanhou a ARCO, os ladrões de Madrid preferem a arte espanhola. E as galerias alemãs, digo eu. É que a peça de cerâmica de Picasso, roubada em 2003, também pertencia a um ?marchant? alemão, à galeria Pudelko. Esperemos que, para variar, em 2005 não roubem uma obra da escultora Ana Efe a uma galeria de Lisboa.
Como ficará um ?marchant? a quem os ladrões de arte (que ainda beneficiam de uma certa auréola romântica) roubam um Picasso ou dois Mirós? Tão atordoados como um jornalista português, feito menino numa loja de brinquedos, com tanta arte para fruir? As galerias nem às paredes dos stands se confessam. As galerias, verdadeiros mediadores de arte, nem se queixam.
Só a Comisssão de Compras do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia (o que alberga a ?Guernica? de Picasso) comprou, na ARCO 2004, obras no valor de 600 000 euros. De Salvador Dali, de Giorgio Morandi, de Victor Brauner, de Francisco Bores, entre outros.
Na lista das galerias que forneceram arte ao Museu da Rainha Sofia não figura a Orangerie Reinz, mas nem por isso os ?marchants? se lamuriaram. Sem sombra de pecado, lá vão dizendo que venderam menos mal, numa feira que recebeu mais de 200 000 pessoas em apenas cinco dias.
Dizem que um Oscar Dominguez foi vendido por 270 000 euros, que um Louise Bourgeois voou por 235 000 e que um Barceló de 120 000 também teve comprador. Isto sem esquecer uma encomenda de um Miró (na galeria Gmurzynska) apalavrado por 3,5 milhões de euros
O mercado espanhol de arte, que se revela na ARCO, mostra que a Espanha vive um bom momento económico, tão bom que assiste ao incremento das colecções privadas a ponto deste sector assegurar um volume de negócios superior ao gerado pelos museus e pelas entidades públicas.
Esta realidade atrai galerias de peso, nomeadamente da Alemanha e da França, que em Madrid se mostram como pilares insubstituíveis  na gestão, promoção e representação dos artistas, como sublinhou Rosina Gomez-Baeza, directora da feira, citada pelo diário ?El Mundo?. ?Marchants?, coleccionadores e gente que gosta de ver arte.
Num canto da feira, em caixotes de lixo metálicos para onde alguém terá atirado aparelhos de televisão e computadores, ainda vivos (leia-se, ainda operacionais), as notícias do dia jorravam com as cores da CNN, da Euronews e da BBC... A torrente de informação que desse lixo brotava era tão torrrencial quanto a da arte disponível na ARCO.
Especialmente a quem ali chegou, republicanamente, com uma manhã bem prenha de cor e luz, no cumprimento de uma das muitas peregrinações escolares a Madrid, por alturas da ARCO, para se comover, a correr, com a ?Guernica? de Picasso, ao vivo, e levar um soco no estômago com ?Os jornalistas? de Hannah Hoch, um quadro de 1925 temporariamente em exposição no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia.


  
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Edição:

N.º 132
Ano 13, Março 2004

Autoria:

João Rita
Jornalista, Porto
João Rita
Jornalista, Porto

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