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Os conformistas (Berlusconi, o Festival de Cinema de Veneza e outras questões...)
Orson Welles disse uma vez que todos os italianos são actores, excepto os actores. A mesma piada tem sido glosada ultimamente em relação aos políticos da direita e extrema-direita do governo chefiado por Silvio Berlusconi. Na linha de fogo das batalhas políticas que se travam hoje em dia em Itália encontram-se a televisão e o cinema, que têm sido bombardeadas pelo governo tentando forçar mudanças na sua estratégia e direcção. Estas mudanças têm a ver com a falta de uma agenda política para o desenvolvimento das artes e, ainda mais importante, com o conflito de interesses inerente às posições pessoais do próprio Berlusconi.
As recentes reformas vão para além das normais substituições de ministros que ocorrem sempre que há um novo governo - e em Itália foram quase 50 no ultimo meio século. No coração do conflito estão as preocupações do domínio quase completo de Berlusconi sobre os "media " italianos. Entre as suas empresas estão os três da Mediaset, a mais poderosa cadeia de televisão; Medusa , a empresa de produção e distribuição de cinema com mais sucesso em Itália ; Blockbuster Video ; vários das maiores editoras; dúzias de jornais e revistas e vários portais da internet. E desde a subida ao poder de Berlusconi em Maio de 2001, a cadeia do Estado RAI ficou também sob o seu controle.
Durante a campanha eleitoral Berlusconi prometeu resolver o conflito de interesses entre si, enquanto chefe do governo, e a indústria de televisão durante os 100 primeiros dias da sua presidência . Até hoje, o sua única atitude foi distribuir a propriedade do seu império pela sua mulher e filho. Em Fevereiro um projecto de lei foi aprovado no parlamento pela maioria governamental proibindo administradores mas não donos de empresas de comunicação social de ascender a cargos públicos- a única empresa da qual Berlusconi resignou foi o A.C. Milan . Os deputados da oposição recusaram-se a votar considerando o referido projecto uma farsa.
De acordo com Giovana Melandri, ministra da cultura do anterior governo, a lei de Berlusconi "não é uma lei que resolve os conflitos de interesses. È uma lei que os estabelece, "Não há conflito e eu continuarei a defender os meus interesses." se não fosse tão triste , até teria piada".
Entretanto o anterior presidente da RAI Roberto Zaccaria tem vindo a sofrer repetidos ataques de Berlusconi por ter alegadamente usado a RAI para atacar o presidente e a sua coligação .Zaccaria resignou em meados de Fevereiro, três meses antes do seu final, depois da qual os partidos da oposição recusaram quase todos os nomeados para o lugar alegando que estariam demasiado próximos das empresas do chefe do governo e comparando o monopólio de Berlusconi com o do Milosovic na Sérvia e de Puttin na Rússia. A "soap opera" à volta das nomeações para a RAI , como Berlusconi lhe chamou , provocaram a manifestações e sessões de "desobediência civil" em frente aos escritórios da RAI por toda a Itália, com o a presença e apoio de várias personalidades da cultura e do cinema italianos como Nanni Moretti e Roberto Benigni , que foram sempre abertamente críticos de Berlusconi no passado. O homenm que foi finalmente escolhido para presidente da RAI, Antonio Baldassare, ex - presidente do Tribunal Constitucional , prometeu imediatamente por fim à "política de favoritismo" reinante no passado. Baldassare cortou formalmente os seus laços com Forza Italia , assim como Agostino Sacca, actual director da RAI 1.
A situação no cinema está igualmente tumultuosa. Nos últimos seis meses os dirigentes da Cinecittá Holding - uma companhia pública que detém parte da propriedade dos estúdios Cinecittá e integralmente da companhia produtora e distribuidora Istituto Luce - Istituto Luce, a Escola Nacional de Cinema, Italia Cinema - companhia promotora do cinema italiano no estrangeiro- e o Festival de cinema de Veneza, também resignaram ou foram afastados compulsivamente e substituídos por gente com pouca ou nenhuma experiência em cinema ou televisão. Em Novembro de 2001, meses antes do seu contrato expirar, Angelo Guglielmi , na altura presidente do Istituto Luce , disse que tinha sido abordado pelo Ministro da Cultura Giuliano Urbani . " Urbani disse-me que o país os tinha eleito para governar e eles iam manter a palavra . Percebi na altura que me iam substituir por alguém do seu partido".
Na Escola Nacional de Cinema que inclui uma companhia de produção, uma editora e a Biblioteca Nacional do Filme , o professor de cinema e seu director Lino Micciché foi substituído em Abril por Francesco Alberoni, professor de Sociologia sem alguma ligação ao cinema, mais conhecido pelos seus programas de TV sobre sexualidade nos anos 90. Micciché criou durante o seu mandato dois novos cursos, o de animação e o de documentário, a produção de documentários passou de 0 a 12 filmes, começou a publicação dos 15 volumes da História do Cinema Italiano e aumentou em 15000 títulos o espólio da biblioteca. "Ninguém criticou o meu trabalho", disse." Urbani até disse que eu tinha sido um bom director no mesmo dia em que soube pelos jornais que tinha sido demitido! Substituíram-me porque sou de esquerda , não há outra razão. Não é certamente porque tenham uma política diferente para a escola."
Mas os media foram surpreendidos por aquilo que Melandri chamou "a grotesca pantomina que está a despir o Festival de Cinema de Veneza de todo o seu prestígio e respeito". "O Festival é um dos seis departamentos da Bienal das artes ,cujo presidente Paolo Baratta foi substituído em Dezembro último quatro meses antes do final do seu mandato, por Franco Bernabe , antigo director de uma central de energia e da Telecom Italia, numa tentativa de um maior controlo administrativo. Quando Baratta saiu, os membros da direcção da Bienal, cujo único poder real é nomear o director, também se demitiram.
A direcção do Festival de Cinema foi oferecida sucessivamente a Martin Scorcese, Quentin Tarentino, que recusaram, e Marina Cicogna ... uma produtora de cinema desde 1970 e amiga do Conde Volpi, fundador do Festival , mas que foi desmentido pelo Ministro da Cultura...
Com a saga sem resolução em meados de Março, cinco meses antes do Festival a Associação dos Produtores ameaçou boicotar o evento se não fosse encontrado um director dentro de uma semana. Os nomes seguintes a aparecer foram os Pier Luigi Celli ex-director da RAI - que defendeu a sua opção dizendo que ia muitas vezes ao cinema com a sua mulher e filhos -, e Piera Detassis editor da revista de Cinema de Berlusconi "Ciak". Mas dois dias depois, quer Celli, quer Detassis recusaram , dizendo que era " impossível trabalhar nas condições oferecidas".
Finalmente, nos finais de Março, foi encontrado um director temporário. Moritz De Hadeln, que dirigiu o Festival de Berlim durante 21 anos, dando tempo a que a direcção do Festival ou o governo arranjem um director permanente.
Entretanto o governo começou a mostrar um pequeno sinal de política coerente para a indústria do entretenimento. O deputado Sgarbi que esperava o lugar de Ministro da Cultura mas que foi considerado demasiado controverso, e que fala normalmente como se estivesse no poder, quer que o cinema seja completamente privatizado e criticou abertamente o sector do cinema descrevendo realizadores como Moretti como "inúteis". " Para mim, quanto menos dinheiro gastarmos, melhor", disse. " Penso que o cinema e o teatro não são essenciais à humanidade. Além disso, nos Estados Unidos o Estado não financia os filmes. Mas aqui paga-os porque ninguém vai ver filmes italianos, eles cheiram mal".
O que é certo é que o governo de Berlusconi não é amigo do cinema , e que o cinema italiano vai passar por grandes dificuldades. Mais perigoso, contudo, é o potencial do total poder do governo sobre os media, que pode coarctar a criatividade e a liberdade democrática e estabelecer o que tem sido chamado " ditadura branda da mediocridade". Neste momento em Itália os intelectuais dividem-se em dois grupos: uns, como Marco Muller, ex-director do Festival de Cinema de Locarno- produtor de filmes premiados como "No Man's Land" e "Blackboards"- ,têm uma posição neutral. " A maioria das pessoas não têm informação ou provas para fazer juízos correctos," diz. "Antes de gritar de indignação, vamos ver o que eles vão fazer". Outros, como Moretti, temem que serão precisas quatro gerações para ultrapassar os danos culturais e políticos trazidos por Berlusconi.

P.S. Palavra de Honra que quando pensei este artigo estava apenas a falar em Itália mas que coincidências "las hay las hay"...

  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 113
Ano 11, Junho 2002

Autoria:

Paulo Teixeira de Sousa
Escola Secundária Especializada de Ensino Artístico de Soares dos Reis, Porto
Paulo Teixeira de Sousa
Escola Secundária Especializada de Ensino Artístico de Soares dos Reis, Porto

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