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Memórias e Destinos

A memória dos homens é curta. Torna-se indispensável o exercício permanente de recuperação do passado. Reabri a gaveta onde guardo tudo o que antigos alunos me deram: recados, fotografias, ensinamentos. Deparei com alguns registos esquecidos desde... 1976: 'A... todas as manhãs chega cansado de duas horas de trabalho e cheira a aguardente. Antes de vir para a escola, R... foi ao lavrador buscar leite, levou os irmãos mais pequenos ao infantário, fez recados à 'D.Alice', arrumou a casa toda. O C... falta quase todas as tardes à escola. O pai quer que ele vá distribuir por toda a vila as folhas de notícia de falecimentos. Deve também carregar os materiais para o funeral de alguém que tenha falecida na véspera'.

Reencontrei outras memórias, alguns rascunhos de área-escola com que alguns professores nos dão a conhecer a opinião dos alunos sobre a escola dos seus pais e avós, dos porquês de nem todos terem ido à escola em outros tempos:

'Os pais tiravam os filhos das escolas para eles irem trabalhar, alguns pais não se importavam com os filhos e o Governo também não se importava com o Ensino (...) Não havia possibilidades como há agora(...) Antigamente, ia-se fazer exame longe, porque aqui não havia condições para nada'.

'Os deveres eram mais difíceis. Era só ditados, cópias, contas e outras coisas ruins. E os alunos tinham que decorar muito.' 'Os professores não ouviam os alunos, as escolas não tinham condições como têm agora, eram pobres, era só uma sala e uma retrete.' 'Havia menos livros e eram mais difíceis e sem desenhos. Os de agora têm mais figuras, para ajudar a aprender melhor. E antigamente eu até ouvi dizer que os livros eram lousas.'

'No tempo da minha avó, eram só quatro horas de escola. Os professores batiam muito, que até tinham uma régua na secretária, que se chamava palmatória.' 'Não havia escolas para ensinar todos. Ninguém era obrigado a ir à escola e as pessoas não iam à escola e ficavam sem saber ler nem escrever.' 'As escolas agora preparam os alunos para serem pessoas. Os professores não batem, têm mais paciência e só castigam quando a gente merece.'

Haverá nesta análise um acentuado exagero. Os 'bons e os maus' da infância encontram correspondência nos contrastes maniqueístas entre uma escola 'antiga' e uma outra dita 'moderna' que, por acaso, até nem serão assim tão diferentes. O que me parece necessário relevar é que, em linguagem de gente, de um modo simples e objectivo, estas crianças dizem mais em poucas linhas do que diriam certos especialistas da Educação em muitas linhas de emproada retórica.

O tempo amareleceu as folhas dos cadernos onde as crianças deixaram pedaços de vida. Aos nove anos, o Fernando disse o que queria ser quando fosse grande, escreveu projectos de futuro para sempre destruídos num estúpido acidente de viação. Outros não chegaram a adultos por se deixarem prender nas teias que a droga tece. Houve quem abandonasse precocemente a escola e optasse pelas lições que a escola da vida oferece. Alguns, que recordo como crianças para quem, há vinte anos, se desenhava um futuro auspicioso, perderam-se por atalhos e dizem-me agora quererem 'mudar de vida'.

Há vinte anos, escutava decisões e pedidos de conselhos. Compreendia a angústia dos pais, mas temia as consequências dos seus actos:

'O senhor professor que me diz? Eu acho que J... já tem idade para ir com a tia para as feiras. Se o meto no ciclo, só me apanha vícios e más companhias'. 'Ela aqui já não anda a fazer nada. E olhe que do que ela gosta mesmo é de costura. O senhor fecha os olhos... e eu não me importo que me cortem no abono. Assim, sei que ela está vigiada e já vai ganhando algum para casa'. 'Já anda há oito meses na confecção do C..., ele ainda não lhe pagou, mas diz que se continuar assim, lhe dá dez contos por mês daqui a pouco'. Não lhe pagam mais nada e, se disser alguma coisa, vem parar à rua. Faz sábados e, às vezes, até domingos, quando há uma encomenda urgente. À noite, também trabalha quando lho pedem (...)'

Por aqui se vê que também nas escolas se constroem destinos.

 

José Pacheco



  
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Edição:

N.º 1
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Autoria:

José Pacheco
Escola da Ponte, Vila das Aves
José Pacheco
Escola da Ponte, Vila das Aves

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