Página  >  Edições  >  N.º 96  >  Desperdícios

Desperdícios

Ainda com os pés ligeiramente mais crescidos do que os sapatos por via de uma Marcha Mundial, diga-se que foi o calor e não o andamento propriamente dito o responsável pelo aumento das bases de sustentação, regresso à cadeira de sindicalista que, de resto, me acompanha em permanência, dizia que com a marcha ainda a fazer-se sentir fisicamente encontro na cadeira de outra sindicalista, leia-se cidadã que se senta na minha frente, a revolta incontida transportada no saco de uma viagem que a trouxera de Moçambique. Tu sabes, perguntava-me, tu sabes o que é notícia de todos os jornais daquele país, o que faz falar todas as bocas e assusta todos os corações? Que não, não sabia exactamente. Pois são as ajudas da comunidade internacional. O que era suposto ser sobrevivência para alguns, muitos, jaz apodrecendo em armazéns desabitados de seres humanos e tomados de assalto por culturas de bactérias e outras coisas que, paradoxalmente, deveriam ser combatidas pelos bens em causa.
Para quando está adiada a solidariedade? Para quando a organização do mundo? Se há entropias que enriquecem a construção da paz, não há gestos soltos e, muito menos, discursos avulso que resistam à falta de verdadeira cooperação.
Aceita-se que quem tem um filho a morrer de subnutrição desvie um dicionário, por exemplo, para o trocar por leite. Já não se desculpa que guerrinhas medíocres impeçam tentativas de distribuição de riquezas essenciais, vitais. E as areias destas engrenagens não são lançadas apenas pelos senhores que "dão baixa" no caderno de encargos, e "tranquilizam" as suas consciências fruindo, se calhar de benefícios fiscais. Os correios, melhor, os carteiros é que não têm carta profissional, não aprenderam na cartilha dos direitos humanos. Mal feito! Muito mal feito! Não será tão mal sentido assim se se cresceu completamente fora da dignidade devida ao ser humano.
Por que foi feita a referência à Marcha, debaixo do título eleito? É que a dita, muito para além de ser das mulheres, é contra a pobreza e contra a violência. E é de pobrezas e de violências que se alimentam muitos desperdícios; obviamente, porque as riquezas não são justamente distribuídas e a paz não é de cultura obrigatória, sem ingenuidades...
Uma das facetas da pobreza em que radicam tantas discriminações e exclusões é o analfabetismo que ainda, no limiar do vigésimo primeiro século, atinge a dimensão assustadora de 880 milhões de pessoas, isto é, 20% da população mundial! Há cerca de 130 milhões de crianças que não vão à escola e 150 milhões que não concluem os estudos. E, já que se fala também de mulheres, não é de ignorar que, dos 880 milhões referidos atrás, dois terços são mulheres e, entre os menores não escolarizados, 60% são raparigas.
A propósito do relatório 2000 do fundo das Nações Unidas para a População, há quem considere que a situação de igualdade de oportunidades em questões de educação, saúde ou emprego beneficiaria não "a outra metade do céu" (alusão ao sol e à lua), mas o mundo no seu todo.

Iracema Santos Clara
Escola E.B. 2/3 Dr. Pires de Lima


  
Ficha do Artigo
Imprimir Abrir como PDF

Edição:

N.º 96
Ano 9, Novembro 2000

Autoria:

Iracema Santos Clara
Escola E.B. 2/3 Dr. Pires de Lima, Porto
Iracema Santos Clara
Escola E.B. 2/3 Dr. Pires de Lima, Porto

Partilhar nas redes sociais:

|


Publicidade


Voltar ao Topo