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O tenebroso mundo liberal

Haverá um dia em que o sistema capitalista implodirá pela sua própria natureza, ou seja, por aquilo que o faz mover: o lucro sem qualquer tipo de contemplação humana nem respeito pelo factor individual. O neo-liberalismo pensa o mundo no colectivo, paradoxo que só o é na aparência, pois o indivíduo só existe enquanto "homo economicus", ser comensurável e passível de constituir justificação moral para subtrair ao Estado o seu papel social, retirando os dividendos inevitáveis decorrentes das privatizações.
Como doutrina que concebe o mundo genericamente, o neo-liberalismo é factor de grande sofrimento para as pessoas enquanto indivíduos, com problemas e aspirações concretas. Sob a bandeira demagógica dum falso bem-comum, os governos neo-liberais, como o caso do governo português actual, manobram habilmente as opiniões públicas para levar a cabo políticas estritamente economicistas, servindo interesses parciais em nome de paradigmas de justiça e equidistância sociais, encontrados ao sabor da agenda das medidas políticas, sempre com o fito de antagonizar e hostilizar a consciência social contra aqueles que irão sofrer, como pessoas e indivíduos, as consequências das suas políticas macro-económicas, cegas, parciais e injustificáveis sob os pontos de vista intelectual e moral.
Porque o neo-liberalismo é, sob a capa dum snobismo intelectual, estruturalmente estulto como todas as formas de insensibilidade, concretizando-se apenas em função de prévias minagens de terreno, demagógicas, susceptíveis de arrepiar caminho para que as medidas mais injustas surjam como panaceias para todos os males sociais, ou melhor dizendo, o governo liberal age como o lobo com pele de cordeiro.
Nesta perspectiva, haverá um tempo em que nem os defensores do regime, escritores, pensadores, economistas, e todo um grupo devidamente recrutado por aqueles que querem criar franjas de marginalidade social, os chamados supra-numerários, poderão defender o que não tem remédio, pelo acentuar das diferenças de riqueza e, sobretudo, por se virar contra o liberalismo a própria demagogia que os seus defensores se apoiam para suscitar nas pessoas aquilo que de pior há nelas.
O que interessa é o lucro e a mais-valia. Alcançar objectivos independentemente dos meios que se utilizam. Este é o lema dos liberais. A filosofia liberal irrompe por todos os lados, no trabalho, na educação, no recanto privado da casa, impõe os seus gostos, modelos de vida, moral, valores, não admite discussão e conta com poderosos defensores em áreas estratégicas do poder: imprensa, governo, bancos, grandes empresas. Tem igualmente uma característica particularmente perigosa e que todos já se aperceberam: é sufocante, não admite críticas que passem pelos seus valores alicerçantes (se é que tem bases que o apoiem...), assume-se como doutrinador e detentor da verdade única, constitui-se como receita e panaceia para os males do mundo.
No fundo, o neo-liberalismo configura o neofascismo do século XXI, remetendo para a marginalização todos os que se lhe opõem, mesmo que de uma forma passiva. Nesse aspecto é pior que o fascismo técnico de Salazar que só exigia silêncio. Mesmo que ensurdecedor. Quem não vive como o liberalismo pretende, segundo as suas normas socialmente darwinistas, sufoca e cai na miséria, na discriminação e na exclusão social.      Voltamos aos tempos da pobreza salazarista, uma mentalidade que evoca a pior faceta da natureza humana e culpa o desventurado pela sua falta de sorte, o pobre por ser pobre, o fraco por ser fraco, o doente por ser doente; eles são-no porque querem. O neo-libeleralismo afronta com a sua arrogância tudo e todos com o monopólio do seu intocável saber. Sobre tudo tem opiniões, mesmo sobre aquilo que não faz a mínima ideia. Os professores, médicos, enfermeiros, operários metalúrgicos, nada sabem da sua profissão: os grandes cientistas ao serviço da causa liberal pensam por eles, mesmo que nunca estivessem numa sala de aula, num bloco de operações, numa enfermaria ou numa siderurgia.
O que importa são objectivos meramente comensuráveis, resultados traduzidos em percentagens, taxas, euros. A pessoa humana tem o valor dum indivíduo que não pode pensar por ele, a não ser que siga à risca o código liberal, qual código da Vinci descodificado numa máquina orwelliana de fazer ideias, sonhos e até projectar a própria liberdade. O liberalismo consegue metamorfosear a mais bela poesia numa conta de somar, num deve e haver de uma qualquer empresa.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 158
Ano 15, Julho 2006

Autoria:

Paulo Frederico F. Gonçalves
Professor, Porto
Paulo Frederico F. Gonçalves
Professor, Porto

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