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Quem ganha o Meriva?

Fábricas de Espanha e da Polónia em ?saudável competição? para saber quem fica com a produção de um carro da General Motors. A globalização ao vivo.

Vai acesa a rivalidade dentro da General Motors entre a fábrica de Saragoça (Figueruelas) e a Opel Polska, de Gliwice, na Polónia, para saber quem fica com a fabricação da segunda geração do carro Meriva.
Por razões óbvias, a balança pende para o lado da Polónia. Em Gliwice, os salários são de 400 euros, face aos 1300, em média, da fábrica espanhola, e cada operário tem um tempo de trabalho efectivo de 7h.35 minutos, em comparação com 7h.02 minutos na fábrica de Saragoça. Os polacos trabalham 231 dias por ano (222 em Saragoça), e gozam 22 dias de férias (27 na GM Espanha). Com esses trunfos ganhou a fábrica polaca a produção do carro Zéfir, levando ao encerramento da fábrica de Bochum, na Alemanha.
Em Saragoça começou um jogo em que a direcção da empresa fala nebulosamente da necessidade de encontrar ?compensações? para a ?desvantagem dos custos laborais espanhóis face aos do Leste?. Ora, ?compensações? capazes de competir com os baixos salários e a maior jornada de trabalho dos polacos, quando na fábrica de Saragoça já vigora o horário flexível ? só pode ser uma redução dos salários, a exemplo do que já aconteceu na SEAT en Barcelona.
Políticos, empresários e chefes sindicais de Saragoça querem acima de tudo evitar uma possível reacção ?irresponsável? dos trabalhadores. A greve, em caso nenhum. Porque uma empresa dócil é um dos factores decisivos para a opção da GM. Se for posta em cima da mesa uma proposta de redução de salários ou de corte nas pausas, os figurões do comité de empresa vão tentar convencer os trabalhadores de que o melhor é aceitar sem protesto, para ?evitar males maiores? ? uma redução drástica da produção ou mesmo o encerramento.
E da parte polaca? Slawomir Ciebiera, presidente do comité de empresa de Gliwice, do sindicato Solidarnosc (que dispõe ali de uma maioria esmagadora), não tem dúvida em acenar com a vantagem competitiva dos baixos custos laborais dos seus camaradas e argumenta que o afluxo de investimentos e a criação de empregos na Polónia são semelhantes ao que ?em tempos aconteceu em Espanha?; ?o exemplo de Espanha é para nós uma referencia?, comenta com humor. Só confessa uma preocupação: ?a concorrência dos operários chineses?. De facto, depois que a GM anunciou uma grande reestruturação na Europa que deu lugar a 10.000 despedimentos na Alemanha, ninguém assegura que, daqui a algum tempo também as ?condições atractivas? da Polónia não sejam cilindradas pelas da China...
Por mim, penso que talvez isto leve alguns dos operários da GM a questionar, não os sindicalistas ou a direcção da GM, mas este sistema de produção, o capitalismo. Talvez alguns dos mais de sete mil que há na fábrica de Saragoça despertem do sonho das hipotecas que lhes permitiu entrar no ansiado paraíso do consumo. Talvez agora descubram que os iludiram com a absurda crença na durabilidade do emprego, que os levou a viver acima das suas posses, enterrando-os até ao pescoço. E talvez alguns deitem um olhar ao bárbaro mundo que estão deixando aos filhos, manchado de sangue, de exploração e de destruição da natureza. E concluam que, por ter fracassado uma tentativa comunista, não impede que se volte à luta para liquidar o capitalismo, que afunda o mundo neste caos sangrento. Há que tentar de novo, usando a experiência adquirida. Não há outra saída. Ou isso, ou um mundo de senhores e escravos.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 151
Ano 14, Dezembro 2005

Autoria:

João António Cavaco Medeiros
Economista/Professor do Ensino Secundário
João António Cavaco Medeiros
Economista/Professor do Ensino Secundário

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