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Crónica de um desinvestimento anunciado...

PROFESSOR CONTRATADO

A história que vou contar não é original, mas infelizmente não perdeu actualidade. Ao que tudo indica repetir-se-á para muitos e muitos professores, por muitos e muitos anos... Dada a proximidade do concurso de professores, apeteceu-me compartilhá-la, para que não caia no esquecimento.

Era uma vez um professor, daqueles que, para o bem e para o mal, podem leccionar ao 1º e 2º Ciclos do Ensino Básico. Até aqui tem sido dos únicos colegas de turma que se tem conseguido manter a leccionar Educação Física, mas todos os anos, por esta altura, coloca-se a mesma pergunta: e agora professor? Concorrer a nível nacional afastando-se da família? Um filho de dois anos pesa na decisão! Vincular ao 1º Ciclo sem qualquer motivação e sem que se sinta preparado, mesmo que formalmente habilitado? Arriscar a fase das contratações prolongando indefinidamente uma situação precária e provisória? Parece que este ano foram estes os candidatos que ficaram mais perto de casa! Desistir do ensino? É sempre uma opção!
O ano passado não ficou no Quadro de Zona Pedagógica por um dia. Ficava a cinco horas de casa, mas pelo menos ganhava um vínculo! E o filho? E a mulher? E os filhos que gostaria de ter e que, entre outros projectos, adia ano após ano?
Acabou por ficar a 116 quilómetros de casa. Podia ser pior! Pelo menos ficara colocado, e no 2º Ciclo! A auto-estrada encurta a distância e... afinal podia ir e vir todos os dias! Ia gastar um dinheirão, mas apesar de tudo compensava!
Quando se dirigiu à escola ficou bem impressionado. Pelo menos foi bem recebido! Mas havia um pequeno problema: tinha sido colocado num lugar que não existia! E agora professor?
Por sorte, a escola tinha sido constituída agrupamento e propôs-lhe que desse apoio às escolas do 1º ciclo. Lá estava ele no 1ºCiclo, mas pelo menos ia ensinar Educação Física! O problema é que a proposta teria de ser aprovada pelo DGAE, que entretanto tentava resolver inúmeras situações semelhantes. Seguiram-se mais algumas semanas de angústia, agravadas pelo conhecimento de colegas que haviam sido colocados em horários incompletos perto de casa, tendo-lhes sido completados de imediato; suavizadas pelo conhecimento de vagas que ficaram por preencher bem perto de casa.
Como sempre acontece, os boatos começam a circular, as informações contradizem-se e o veredicto tarda em chegar! Cansado de esperar, resolveu ir ao DGAE onde lhe alimentaram a esperança de vir a ser reconduzido para os lugares existentes na sua área de residência. Dias depois, vem deferida a proposta feita pela escola. Pelo menos a situação estava resolvida E agora professor?.
Gasta quase o seu salário em 232 quilómetros diários, portagens, fora a alimentação e o desgaste do carro. Anda de escola em escola, com o seu próprio carro. Dá uma hora por semana de Educação Física a cada turma do 1º Ciclo e do Pré-escolar. Dá aulas em espaços improvisados (o mais curioso é um Ateneu, onde os habitantes assistem às suas aulas enquanto tomam café), improvisa materiais e actividades sem grande expectativa de que venham a dar frutos. E agora professor?
Que motivações para continuar a ser professor? A de estar a ?comprar? tempo de serviço e a de proporcionar alguma actividade física àquelas crianças que mal conhece! Pelo menos dorme em casa!
Não posso deixar de pensar em Huberman e na sua análise do ciclo de vida profissional dos professores (1). Haverá melhor exemplo de como o prolongamento da fase exploratória pode levar ao questionamento e ao desinvestimento amargo e precoce?
Entretanto, novos concursos se avizinham, desta vez com a agravante de não se conhecerem ainda os moldes em que decorrerão. E agora professor? Diz-se muita coisa, como sempre! Certezas, apenas a de que neste ano lectivo houve muitas falhas! A grande dúvida, a de saber se as alterações previstas sobreviverão aos problemas que a pequena amostra de alterações nos trouxe.

(1) HUBERMAN, Michael (1992), ?O Ciclo de vida Profissional dos Professores? in António Nóvoa (Org.), Vidas de Professores,  Porto: Porto Editora.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 130
Ano 13, Janeiro 2004

Autoria:

Susana Faria
Escola Superior de Educação de Leiria
Susana Faria
Escola Superior de Educação de Leiria

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