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Estudantes finlandeses: a chave do sucesso
Os estudantes finlandeses têm vindo a revelar capacidades no âmbito da leitura muito superiores aos alunos de qualquer outro país, o que tem levado muita gente a apontar o sistema educativo finlandês como um exemplo a seguir.
Na verdade, o que os estudos internacionais de literacia têm vindo continuamente a revelar é que o número de maus leitores na Finlândia é excepcionalmente baixo. Comparativamente com os resultados dos estudantes portugueses, as diferenças são enormes, conforme se comprova pela leitura do quadro seguinte:

Distribuição dos alunos por níveis de literacia (PISA 2003)



Abaixo do nível 1


Nível 1


Nível 2


Nível 3


Nível 4


Nível 5


Finlândia


1%


4%


15%


32%


33%


15%


Portugal


8%


14%


26%


30%


18%


4%



A questão que se coloca, então, é saber quais são os factores que levam a que os estudantes finlandeses apresentem resultados tão positivos ou, visto numa outra perspectiva, por que razão apresentam tão baixos índices de resultados negativos.
A partir da análise dos resultados do estudo PISA (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes), a primeira razão encontra-se no princípio de igualdade e no esforço para reduzir os baixos resultados em que se tem apoiado a estratégia do sistema educativo finlandês na procura de resultados de qualidade. Ou seja, enquanto na Finlândia a diferença entre os jovens com melhores e piores resultados é relativamente pequena (5% dos jovens situam-se no nível 1 ou abaixo desse nível), em Portugal essa diferença é muito significativa (22% dos alunos nesses dois níveis). Além disso, enquanto na Finlândia só 5% da diferença de resultados entre os estudantes se explica pelo melhor ou pior funcionamento das escolas, em Portugal não só se verifica uma grande variação de escola para escola, como de região para região: no PISA 2000, apenas a região de Lisboa e Vale do Tejo atingiu a média da OCDE, estando as restantes 50 ou mais pontos abaixo. Estas profundas desigualdades regionais significam que um aluno que estuda no Alentejo ou na Região Autónoma da Madeira não tem as mesmas oportunidades de aprendizagem que um colega seu que estuda em Lisboa. E as escolas, em vez de atenuarem as disparidades regionais e sociais, tendem a acentuá-las.
O segundo factor que ajuda a explicar o bom desempenho dos estudantes finlandeses nos testes de literacia assenta, por um lado, no seu compromisso com a leitura e o interesse pela mesma (41% dos alunos finlandeses tem a leitura como um dos passatempos preferidos, valor que sobe para 60% no caso das alunas) e, por outro lado, o ambiente familiar (a comunicação cultural, os produtos culturais à sua disposição e o estatuto socioeconómico dos pais).
Também no caso dos estudantes portugueses, os factores que mais contribuem para o bom desempenho nos testes de literacia têm a ver com a leitura, mais precisamente com a velocidade de leitura, e os bens culturais da família. Logo, dificilmente se conseguirá melhorar o desempenho dos jovens portugueses sem alterar profundamente a sua atitude para com os livros e a leitura.
Finalmente, a terceira razão que pode ajudar a perceber a mais-valia do sistema educativo finlandês tem a ver com os professores e o reconhecimento da função docente. Na cultura finlandesa, a profissão docente tem sido uma das profissões mais valorizadas na sociedade e, consequentemente, foram muitos os recursos mobilizados para a formação dos professores. Reconhecidos como verdadeiros profissionais, foi-lhes concedida uma ampla independência pedagógica, extensível às escolas, com vasta autonomia na hora de organizar o seu trabalho, dentro dos limites flexíveis do currículo nacional.
Já em Portugal, o passado recente demonstra inequivocamente um percurso claramente contrário ao exemplo finlandês. O descrédito da profissão docente dificilmente poderia ser maior e quanto à formação de professores, inicial e contínua, revela uma gritante falta de qualidade e de objectividade. Com os resultados que estão à vista de todos!

  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 169
Ano 16, Julho 2007

Autoria:

Artur Dagge
Biblioteca da Escola Básica 2,3 D. Miguel de Almeida, Abrantes
Artur Dagge
Biblioteca da Escola Básica 2,3 D. Miguel de Almeida, Abrantes

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