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Outros tempos na escola

O tempo livre das crianças e dos jovens deve ser qualificadamente preenchido. É preciso igualmente mudar as condições de trabalho dos professores. Muitas escolas precisam de ver melhorados os seus equipamentos e espaço.

Nos dias de hoje, assistimos ao intrigante paradoxo de, por um lado, a sociedade pretender responsabilizar a escola e os professores por praticamente todos os dramas sociais, fragilizando o seu prestígio social e diminuindo os seus poderes e, por outro, atribuindo-lhes cada vez mais funções e responsabilidades.
A escola e os professores não podem ser forçados a ?retrair-se? cada vez mais.
Para enfrentar este desafio, parece-nos essencial assegurar, na linha de pensamento de António Nóvoa, três requisitos: 1º) que não se prolongue por mais tempo o paradoxo de exigir cada vez mais aos professores e às escolas, dando-lhes cada vez menos condições e prestígio; 2º) que as escolas compreendam a importância de comunicar e se relacionar com o exterior e de prestar contas públicas do seu trabalho; 3º) que a sociedade seja chamada a um papel de parceria participante, activo e vinculante, na organização e direcção dos projectos educativos e curriculares das escolas.
Importa igualmente perceber que a lógica do sucesso escolar passa por salas suficientes para o estudo, por computadores, por clubes e actividades de enriquecimento e complemento curricular, pelas bibliotecas escolares, pelos espaços adequados para os professores organizarem e prepararem as suas aulas e demais actividades escolares. Não basta pensar que a lógica da exclusão social, se combate na escola pela ocupação plena dos tempos escolares dos alunos. O tempo livre das crianças e dos jovens deve ser qualificadamente preenchido. É preciso igualmente mudar as condições de trabalho dos professores. Muitas escolas precisam de ver melhorados os seus equipamentos e espaço.
É ainda importante compreender e reconhecer que o sucesso escolar dos alunos - indicador que o sistema educativo funciona ? passa inequivocamente por uma vertente essencial ? a motivação e as condições de trabalho de alunos e professores. 
Ultimamente o quotidiano das escolas e dos professores tem sofrido alguma perturbação pelas dificuldades organizacionais sentidas na adopção de algumas das medidas avançadas pelo Ministério da Educação.
Julgamos que a maioria, senão a totalidade dos professores, não rejeita um horário semanal com maior número de horas passadas na escola. A questão que se coloca actualmente é que a gestão dos recursos docentes nas escolas, a partir do momento em que administrativamente se tornou obrigatório atribuir aos professores mais horas (componente não lectiva) na escola, deveria potenciar ganhos concretos que se podiam obter com o maior número de horas passadas na escola. Tal realidade parece ser mera ficção, pura ilusão.
Quem está nas escolas são os professores, por isso são eles e os responsáveis pela escola que melhor poderão compreender as reais necessidades de mudança.
Reconhecemos que a ocupação útil e ao serviço dos alunos é fundamental. Com recursos docentes é certo. Para e na organização de actividades lectivas (aulas curriculares, aulas de apoio, salas de estudo, actividades de enriquecimento curricular ? clubes, actividades desportivas).
Mas quando falamos de prolongamento de horário (no pré-escolar e no 1º ciclo até às 17,30 horas), torna-se essencial compreender que a criação e o estabelecimento de redes de parcerias educativas, envolvendo as forças e os movimentos sociais locais e a comunidade escolar, poderá ajudar a dar coerência e a criar um ambiente educativo mais estimulante para os alunos e a minimizar os constrangimentos, as dificuldades e, em muitos casos, a insuficiência de recursos com que se deparam a maioria das escolas.
Precisamos de melhor escola e não de mais escola. 
E melhor escola passa inequivocamente, por exemplo, por parcerias educativas, por projectos educativos locais, por uma maior articulação no e do trabalho docente, mais condições de apoio diferenciado, estruturado, planificado e produtivo no acompanhamento dos alunos, dinâmicas mais envolventes, participadas e reflexivas na definição e construção dos projectos curriculares, melhor gestão dos recursos docentes visando os projectos e os campos de acção educativa a priorizar a partir da auto-avaliação de cada escola.
Este tipo de trabalho pedagógico e profissional, deve ser constantemente (re)construído, reinterpretado, permanentemente reflectido, avaliado. É nesse sentido e para essa finalidade essencial que pensamos que é preciso mais tempo de e na escola, por parte dos professores.


  
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Edição:

N.º 152
Ano 15, Janeiro 2006

Autoria:

Fernando Elias
Presidente do Conselho Executivo Agrupamento Vertical de Escolas de Colmeias
Fernando Elias
Presidente do Conselho Executivo Agrupamento Vertical de Escolas de Colmeias

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