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O Batalha reabriu as portas à cidade do Porto, depois de três anos de recuperação. A 9 de dezembro de 2022, o Batalha Centro de Cinema mostrou-se à população e apresentou-se como um espaço renovado que, além de exibir cinema, “é um sítio onde se pensa, onde se conversa, onde se estuda, onde se aprende, através do cinema”, como descreveu Joana Canas Marques, programadora de Famílias, Cinema ao Redor e Escolas do Batalha.
O projeto de reabilitação do Cinema Batalha foi liderado pelos arquitetos Alexandre Alves Costa e Sérgio Fernandez, que queriam manter o novo espaço o mais parecido possível com o que o edifício histórico era antes. A grande descoberta foram os frescos de Júlio Pomar, da década de 40 do século XX, que, antes cobertas com camadas de tinta, embelezam agora as paredes. Mas uma visita ao Batalha Centro de Cinema permite (re) conhecer a sala principal, a Sala 2, a biblioteca, a filmoteca ou a cafetaria e bar, que recuperam o espaço antigo do salão de chá, onde nos anos 70 foi criada a Sala Bebé. O Batalha renasce com a missão de “promover o conhecimento e a fruição cultural através do cinema e da imagem em movimento”, conforme se lê no site do centro de cinema, apresentando um programa que inclui retrospetivas, ciclos temáticos e ligações entre o cinema e outras artes, bem como vários projetos educativos e formativos que visam estimular a cinefilia. O Batalha faz uma aposta forte no programa ‘Escolas’, que tem no cinema a base de uma relação dinâmica com a comunidade escolar. “O nosso projeto Escolas tem uma importância muito grande para o projeto do Batalha; assim foi definido pela direção artística de Guilherme Blanc. Quisemos que fosse um programa que acolhesse as diferentes escolas da cidade e que as servisse de forma abrangente e igualitária”, explica Joana Canas Marques, assinalando o caráter gratuito das sessões de cinema escolares. Tendo em conta a importância da criação de público, o Batalha acaba por vir dar resposta à falta de uma oferta regular de cinema pensado para as escolas na cidade. “Essa oferta existia de forma pontual com alguns festivais de cinema”, como o IndieJúnior ou Porto/Post/Doc, por exemplo. “Mas não existia uma oferta regular e, portanto, é uma responsabilidade muito grande para nós”, ressalva a programadora.
Espaço para as escolas descobrirem o cinema
“A nossa ideia foi definir quatro temas que fossem importantes para a comunidade escolar e para os públicos, nesta fase, pensando de uma forma contemporânea; que questões é que quem está a crescer, quem se está a formar, tem. E criar um programa em torno disso que desse para todas as idades, da Pré-Escolar ao Ensino Secundário. É, portanto, um programa muito abrangente e muito diferenciado, consoante as faixas etárias e os temas em questão”, adianta Joana Canas Marques. As sessões estão então organizadas em quatro temáticas (Ecologia, Amizade, Identidade e Diáspora), que as escolas abordam consoante os seus currículos. “Agora que estamos a chegar ao fim destes seis meses de Batalha, podemos dizer, por exemplo, que há escolas que vieram a dois ou três temas. E é muito curioso perceber o envolvimento das escolas”, afirma a responsável. “As nossas sessões têm sempre uma apresentação no início e uma pequena conversa no fim, independentemente da faixa etária – é claro que a duração desta apresentação depende da faixa etária... Mas nota-se muito quando há alunos ou turmas que vêm pela segunda vez; já vêm a saber que vão ver o filme e que, no fim, vão poder dizer o que pensaram sobre o filme, que ligações é que estabeleceram entre o filme e as suas vidas, as suas experiências, as suas aprendizagens ou até com outras coisas que estejam a estudar e a ler. É muito curioso ver a proximidade que já existe com algumas escolas.” Além da exibição de cinema, o programa dedicado às escolas conta com um projeto de proximidade, que pretende concretizar um trabalho contínuo com alunos do 1o Ciclo do Ensino Básico de uma escola próxima, exibindo filmes e promovendo jogos e oficinas. A primeira escola envolvida no projeto é a do Campo 24 de Agosto, no Bonfim. “No fundo, isso tem-se traduzido numa vinda mais recorrente às nossas sessões de cinema e até a um trabalho com a própria associação de pais.” A aproximação às escolas começou a ser feita há cerca de um ano, com a apresentação geral do programa a diretores de escolas e a professores. E quando as inscrições abriram, a adesão foi grande. “Era exatamente isso que nós queríamos, que as escolas do município percebessem que o Batalha era um espaço onde podiam vir descobrir o cinema.”
Programação própria para as famílias
O mesmo acontece com as famílias, para as quais o Batalha tem também um programa próprio. “É curioso ver como há crianças que vêm em contexto escolar e que depois regressam em contexto de famílias”, refere Joana Canas Marques, sublinhando a importância de, nessas idades, as crianças irem ao cinema em diferentes contextos. Nas sessões para famílias, há também uma pequena apresentação e uma mediação, embora obviamente diferente das sessões para as escolas. Acima de tudo, o “ato de se estar em conjunto a ver um filme, que é o que faz a experiência do cinema em sala, é muito importante e cria uma noção de comunidade, mas também de cidadania. De saber ouvir o outro, saber falar, criar empatia com outras opiniões, absorver a arte e as expressões artísticas de uma forma que também ajudam a pensar a vida”. A programação pretende ainda mostrar diferentes olhares e regiões. “O nosso programa é muito rico do ponto de vista de diferenciação geográfica, e isso é intencional, mas também de diferença de expressão. Ou seja, temos desde filmes de artista, que não entram nos padrões daquilo que se pensa que se vai encontrar numa sala de cinema, até filmes de animação, de ficção, documentário. Isso também é curioso, perceber como os nossos espectadores, no contexto escolar, reagem a diferentes expressões de cinema”, sustenta Joana Canas Marques, alertando para o facto de muitas das crianças que vão com as escolas ao Batalha estarem a ir ao cinema pela primeira vez. Dentro do programa ‘Escolas’, destaque ainda para o projeto que envolve os professores – um grupo de apreciação fílmica dirigido a docentes de vários graus de ensino, no qual se promove o debate e a troca de experiências – e para o ‘Big Show’, um encontro dedicado à exibição de filmes finalistas de licenciatura, que serão propostos no final de cada ano letivo por diversos estabelecimentos de ensino: Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Escola Superior de Media Artes e Design, Escola Superior Artística do Porto, Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa e Universidade Lusófona. Os filmes a exibir serão posteriormente selecionados por um comité convidado para o efeito.
A relação afetiva com os portuenses
Além da exibição de películas, o Batalha tem exposições regulares, com uma curadoria distinta, e uma série de projetos e de atividades que se inserem no programa ‘Cinema ao Redor’. Existem três grupos de cinefilia: Supernova, com jovens dos 16 aos 22 anos, é um espaço de conversa sobre os filmes que os participantes veem no Batalha; Porto, Texas, composto pelo público em geral, que se encontra e troca impressões e acaba por ter um caráter social (os participantes “criaram uma ligação e vão em conjunto ao cinema, dentro e fora do Batalha”); e o Clube de Leitura, que faz a ligação entre a literatura e o cinema. O Batalha realiza ainda, na última terça-feira de cada mês, quizzes sobre a sétima arte, que são interessantes “do ponto de vista da sociabilidade e do lado de diversão e de encontro; o lado lúdico, que é bastante importante”. O centro de cinema promove também cursos, como o de Crítica de Cinema, que estava a decorrer aquando da visita da PÁGINA, e oficinas para as famílias, que acontecem nas pausas letivas. O Batalha Centro de Cinema está de portas abertas para a cidade e é de acesso livre, promovendo o envolvimento da população, que guarda muito carinho e memórias do edifício histórico. “Há, de facto, uma relação afetiva que os cidadãos do Porto têm com o edifício, que é muito bonita. Nós queremos cuidar desse imaginário e trazer de volta as pessoas, para que sintam outra vez que essa relação com o edifício se mantém; que agora tem uma nova fase, mas que o edifício continua a ser para eles”, frisa Joana Canas Marques. Os frescos de Júlio Pomar, agora revelados, “causam sempre um grande impacto”. Tal como o espaço da antiga Sala Bebé, envolvido na recuperação da cafeteria e do bar. “Os nossos visitantes mais antigos recordam-se, de facto, de verem o espaço da cafeteria assim e ficam bastante emocionados”. Outra nota positiva apontada pelos visitantes prende-se com o facto de a sala principal ainda remeter para as memórias antigas. Apesar das novas cadeiras, do conforto e das questões da acessibilidade, que levaram a algumas mudanças no espaço, os visitantes “sentem que estão na mesma sala”. Ou seja, os portuenses estão de regresso ao seu Batalha, que, renovado, quis respeitar essa memória da população. E o balanço dos primeiros meses de reabertura é “muito positivo”, refere a responsável. “Temos tido uma adesão muito forte e interessante da parte do público”, que já começa a ir com alguma regularidade, “que já introduziram o Batalha nas suas rotinas e já o sentem como um espaço seu”. No que toca aos programas ‘Escolas’ e ‘Famílias’, destaque para a “familiaridade” que já existe com o espaço. “Acho que tem sido um balanço muito positivo”, conclui Joana Canas Marques.
Maria João Leite
Excerto de imagem da autoria de Adriano Rangel
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