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A música tem um papel fundamental na nossa vida

Muito cedo demonstrou vontade de conduzir uma orquestra. Descreve-se como uma pessoa extrovertida, sensível e de afetos, e essa forma de estar na vida reflete-se na música – que nos ajuda a ser mais felizes, a pensar e a transformar coisas feias em bonitas. Como artista, assume a função de levar felicidade a todos. Maestrina, mulher, mãe. Joana Carneiro abriu as portas de casa para receber a PÁGINA e falou do seu percurso, das suas referências, da música – essa, que nos pode salvar. É maestrina titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos, maestrina convidada da Orquestra Gulbenkian, diretora artística do Estágio Gulbenkian para Orquestra e tem em mãos inúmeros projetos nacionais e internacionais.

Decidiu muito cedo que queria ser maestrina. Como se toma uma decisão dessas aos nove anos?
Bom, não foi bem uma decisão. Foi um desejo que eu demonstrei de fazer o mesmo que via outras pessoas fazerem. Eu tocava na orquestra da escola, cantava no coro, ia a muitos concertos e tinha na minha imaginação essa figura. E houve uma atração, qualquer coisa que me transportou para essas pessoas e, pela primeira vez, aos nove anos disse que gostaria de o fazer. Tem simplesmente a ver com o facto de os meus pais privilegiarem a educação musical, não só formal, mas também em família, indo a concertos e em casa, onde sempre nos encontrámos na música..

Teve apoio imediato da família?
Imediato e ao longo da vida até hoje. Mas durante a minha adolescência, esse sonho foi sendo alimentado não só pela formação musical que tive, mas também porque me iam sempre renovando esse estímulo para que eu seguisse a carreira, se quisesse. E depois, foi só aos 18 anos, quando dirigi uma orquestra pela primeira vez, que realmente percebi que talvez fosse possível fazê-lo. Não só era um sonho, mas também era possível realizá-lo.

Como poderia descrever o seu percurso?
Fiz o chamado curso do Conservatório. O meu instrumento principal foi a viola de arco, o segundo instrumento o piano. Aos 18 anos, completei este curso na Escola de Música de Nossa Senhora do Cabo, que no fundo corresponde ao liceu. E depois fiz uma licenciatura em Direção de Orquestra. Portanto, tive um percurso académico relativamente simples. Fiz primeiro a licenciatura em Portugal, na Academia Nacional Superior de Orquestra, e depois fui para os Estados Unidos, continuar os estudos na Universidade de Northwestern e depois na de Michigan. Encontrei o meu primeiro emprego em Los Angeles e foi por essa razão que depois fui parar a Los Angeles. Mas tive muita sorte, porque, ao longo deste percurso, antes de terminar uma etapa já tinha a próxima etapa preparada. Antes de acabar os estudos em Portugal já tinha sido aceite numa escola no estrangeiro para continuar os estudos e quando mudei de escola também foi tudo muito progressivo. E ao mesmo tempo que fiz estudos de pós-graduação comecei a ser convidada para dirigir profissionalmente. Portanto, o percurso académico e o percurso profissional cruzaram-se durante uns tempos e depois, naturalmente, segui só o percurso profissional.

Esta é uma profissão que exige muito estudo...
A maior parte do trabalho do maestro é de estudo, em casa. O tempo com a orquestra é relativamente limitado. Normalmente, uma semana antes dos concertos trabalhamos com a orquestra, mas temos de passar muito mais tempo, muito mais horas do que essa semana em contacto com a orquestra, para aprender o texto.

Há uma marca distinta da Joana Carneiro?
Não sei, nunca pensei nisso. Não, acho que todos os maestros tentam é saber ao máximo o texto e tentar reproduzi-lo da forma mais verdadeira possível. Ou seja, ir ao encontro, o mais possível, daquilo que está na página. E depois é evidente que, sendo eu a dizer esse texto, vai ser diferente do que se for outra pessoa. E daí nasce a interpretação, porque sou eu a dizê-lo e outra pessoa não. Mas é sempre agarrada a essa verdade que é o texto. Pensamos muito assim. Há sempre muita liberdade para nos expressarmos, mas não há uma marca pessoal que eu tenha.

Nem a dirigir?
Não, acho que não. Acho que sou uma pessoa extrovertida e acho que o demonstro na minha forma de dirigir. Sou uma pessoa muito de afetos, muito sensível e acho que essa forma extrovertida e afetuosa de estar na vida acaba por se reproduzir também na música. Há maestros que são menos assim, outros que são mais. Eu, se calhar, pertenço ao grupo dos que são mais fisicamente exuberantes. Não quer dizer que seja melhor ou pior, é uma característica que tenho. Há outras pessoas que são mais comedidas, mais discretas na forma de dirigir. Cada um tem o seu estilo, a sua forma de ser. Simplesmente, é muito difícil separar a pessoa que está na orquestra da pessoa que eu sou. E na minha vida sou assim, também.

Como é pertencer a um pequeno grupo de maestrinas em todo o mundo?
É uma honra ter solicitações, de várias orquestras, tanto em Portugal como no estrangeiro. É um privilégio saber que tenho trabalho, que trabalho com grupos de músicos que são extraordinários, que desenvolvo projetos muito interessantes ao nível da música que se faz hoje, da música contemporânea, com os artistas que estão hoje entre nós a ajudar-nos a pensar como é este mundo, como é esta forma de pensar hoje. Portanto, é um grande privilégio fazer parte desse grupo de homens e de mulheres que têm acesso a estes ingredientes – ingredientes no sentido de reportório – e também a grandes agrupamentos musicais. É uma sensação de privilégio. No campo das mulheres, muito embora seja bom saber que faço parte desse grupo, é pena que não existam mais que o estejam a fazer, principalmente ao nível internacional, ao nível global.

Por ser mulher, sentiu mais dificuldades para chegar onde chegou? Acha que carrega uma maior expectativa?
Não. Por ser mulher, não. Ao longo da minha carreira não senti que alguma vez fui discriminada, no sentido de me vedarem oportunidades, por ser mulher. Agora que sou mãe, muito embora a esmagadora maioria das organizações musicais ache que isso é fantástico – e eu viajo muito com os meus filhos –, foi quando senti, pela primeira vez, desconforto. Não em relação a ser mulher, mas à maternidade. A discriminação acho que não é, no meu caso, por ser mulher, mas por ser mãe. Isso comecei a sentir. Felizmente existem excelentes organizações musicais pelo mundo fora para as quais isso nem é uma questão e que, pelo contrário, sabendo que eu tenho muitos filhos e que o meu objetivo é viajar com eles, me ajudam em tudo o que podem para que eu possa ter as melhores condições para fazer a minha profissão. Isso é um exemplo. Mas devo dizer com alguma tristeza que senti esse desconforto só depois de ser mãe.

E como é que se lida com isso?
Não se lida bem. Ainda estou muito no princípio dessa minha fase. Como disse, felizmente tenho muito trabalho e muito trabalho muito bom, muito interessante, tanto em Portugal como no estrangeiro. Um grande exemplo é, sem dúvida, o Teatro Nacional de São Carlos, onde trabalho. Estive dois anos muito ausente, fiz alguns concertos. Mas, sendo maestrina principal da Orquestra Sinfónica Portuguesa, senti uma generosidade enorme, tanto dos músicos, como da instituição, do Conselho de Administração, nestes últimos dois anos. E um estímulo. Lá está, tentaram criar todas as condições para que eu pudesse ter esse momento. Tive quatro filhos em 15 meses e, de facto, houve aqui uma generosidade, uma abertura e uma compreensão que são um exemplo para qualquer instituição a nível mundial. Mas há outras instituições. Ainda agora estive na Suécia, a trabalhar com a Ópera de Estocolmo; estive lá com a minha família durante cerca de três meses e tudo fizeram para que não só eu tivesse condições físicas, para que os meus filhos tivessem todo o conforto, mas também, em termos de horários, foi tudo muito organizado para que eu pudesse amamentar o meu filho sem nunca perder a qualidade que o espetáculo merecia. Os horários eram combinados conforme aquilo que era necessário para a música, mas também em diálogo comigo para que tudo fosse possível fazer. Estou a nomear duas instituições que me têm sensibilizado imenso e há muitas outras pelo mundo fora. Engravidei há três anos e este foi o primeiro ano que voltei a trabalhar mais a tempo inteiro. E o Teatro Nacional de São Carlos e os exemplos que vou conhecendo pelo mundo fora – estamos a falar de instituições ao mais alto nível – devem ser exemplos de uma sociedade que reconhece que a maternidade e a paternidade são essenciais para o crescimento e para a evolução de quem somos. E que, em vez de causar desconforto, deveria era causar conforto e deveria ser alimentado e abraçado, como estas instituições têm feito. Eu digo isto porque noutras não senti o mesmo.

Ainda há um caminho a percorrer nesse sentido...
Sem dúvida. Acho que ainda é muito cedo para eu sequer falar muito no assunto; não sou especialista nesta matéria, tenho a minha experiência, mas acho que há um longo caminho a percorrer por parte de algumas instituições. E não falo de Portugal, porque em Portugal nunca senti nada disso. Pelo contrário. Em Portugal, sempre senti o contrário. Mas há um caminho a percorrer em alguns lugares nesse sentido, sem dúvida.

A música pode salvar e trazer felicidade

Como descreveria a relação entre maestro e orquestra? Podemos comparar, por exemplo, com uma relação professor-aluno?
Não, creio que não. Pode ter algumas características semelhantes, mas uma relação professor-aluno não é uma relação de colegas, enquanto que uma relação de maestro-músicos de orquestra é uma relação basicamente de colegas de trabalho. Trabalhamos todos para um fim comum. Existe uma hierarquia natural na orquestra: cada naipe tem o seu chefe – dos primeiros violinos, dos segundos violinos, das violas, etc. – e, depois, a orquestra tem um maestro, que tem acesso a toda a informação; a partitura tem todas as partes, e ele tenta transformar um todo que é mais ou menos heterogéneo num todo mais homogéneo e que vá ao encontro daquilo que são as ideias do compositor. Portanto, eu não sinto que a relação seja de professor-aluno; é mais de alguém que tenta guiar, que tenta transformar, em grupo, a partir de um som que ouve, para ir ao encontro do som ideal que imaginou sozinho, em casa, antes de chegar à orquestra.

A pergunta era nessa perspetiva de liderança, de alguém que orienta, que mostra o caminho...
E existe essa relação. Nesse sentido é verdade. Mas eu digo isso porque a forma de relação entre o maestro e a orquestra tem mudado muito ao longo dos anos. Fiz esta distinção porque existem vários tipos de liderança e talvez o maestro de há 100 anos coubesse mais num estilo de liderança autocrática. Hoje não. Sendo um líder, a orquestra espera do líder que saiba exatamente aquilo que quer para a orquestra naquele momento e, se for o diretor artístico ou o maestro principal, que seja um líder na programação e nos valores musicais que a orquestra deverá criar e desenvolver. Mas existe uma relação muito diferente, e mais próxima, digamos assim, entre músicos e maestros, do que há 50 ou 100 anos, com certeza.

Que figuras de referência tem no seu percurso?
Dos maestros que estão entre nós, sem dúvida, o maestro Esa-Pekka Salonen, de quem fui assistente na Orquestra Filarmónica de Los Angeles. É uma das minhas maiores referências, não só como maestro: é um grande compositor, também, e um líder artístico que me inspirou muito. Los Angeles foi um momento muito especial da minha vida. Embora já não fosse um tempo de estudo, academicamente, foi a minha última grande escola, no sentido em que fazia parte do meu contrato sentar-me e ser assistente dos maestros que estavam a dirigir aquela grande orquestra. Tinha os meus concertos, mas a maior parte do meu trabalho era estar junto de grandes maestros, aprender com eles, fazer aquilo que fosse necessário, ouvir, ajudar se os maestros precisassem que eu lhes desse algum feedback daquilo que se estava a passar. E durante quatro anos assisti a concertos e ensaios que me marcaram muito. Na altura, o maestro titular era Salonen, que ainda hoje considero o meu mentor, e ensinou-me muito acerca de programar, do papel da orquestra no século XXI, como é que uma orquestra pode intervir na comunidade, como é que uma orquestra pode ligar-se aos artistas da sua comunidade e estimular a produção artística do sítio onde está. Foi muito, muito importante para mim conhecê-lo. Muitas vezes falo com ele, vamo-nos cruzando de vez em quando, embora agora seja mais difícil. Diria que ele é uma das minhas grandes referências da atualidade. Mas existem muitos outros. Por exemplo, Christian Thielemann é um maestro que tenho visto muito; Zubin Mehta é um maestro com uma forma física de se relacionar com a orquestra, para além da sua sabedoria, com o qual eu me identifico muito. Há tantos... Dos que já não estão entre nós, Leonard Bernstein, sem dúvida, foi uma grande referência para mim. E Carlo Maria Giulini. Diria que são duas das grandes referências para mim.

E como é que uma orquestra pode intervir na comunidade?
Essa é uma questão muito importante. Uma orquestra pode intervir na comunidade, por exemplo, estimulando a produção artística contemporânea. Esse é um papel fundamental de qualquer instituição cultural. Por exemplo, eu trabalho com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, que faz não apenas concertos sinfónicos, como ópera. E por isso o teatro, naturalmente, associa-se a artistas, desde figurinistas a encenadores e a músicos, que nos ajudam a pensar como as óperas são criadas ou recriadas hoje em dia. Outra forma, é participar na educação musical das crianças, dos jovens, dos adultos. E para isso é muito importante ter um projeto educativo muito sólido. Era bom que todas as crianças tivessem acesso à música, ao ensino musical. Não sendo isso possível, ou mesmo que fosse, é muito importante que nós cheguemos ao maior número possível de jovens, para que saibam o que é isto da cultura, da cultura musical. É fundamental. Mas existem inúmeras formas de uma orquestra, uma instituição musical, participar no crescimento da felicidade de uma comunidade e no crescimento intelectual, filosófico e sociológico de qualquer comunidade em que esteja.

Sente que as escolas valorizam a educação musical?
Cada vez mais. Acho que tem havido uma evolução enorme. Mas é evidente que só ficaríamos felizes se soubéssemos que todas as crianças têm acesso a música, a um ensino da música ou educação pelas artes que depois torne possível virem às nossas salas. Penso que isso é muito importante. Mas tem havido um crescimento não só ao nível das escolas, mesmo das públicas. Cada vez mais crianças têm acesso ao ensino da música formal, as escolas profissionais têm um papel fundamental na criação de grandes músicos portugueses, as escolas superiores de música têm muita qualidade, os nossos conservatórios têm uma enorme qualidade... Digo isto porque nós temos músicos que vingam lá fora e que vão com a educação musical de Portugal. Temos muito de que nos orgulhar, mas não podemos descansar; instituições públicas e privadas temos de continuar a ajudar neste pilar essencial na formação de qualquer ser humano. A música cria disciplina, ajuda a imaginação das crianças, ajuda as crianças a interagirem umas com as outras... O facto de construírem algo em conjunto, ajuda muito o raciocínio. Tudo isto está amplamente estudado, portanto, todos temos um papel a cumprir neste sentido.

E o que é que a música pode fazer pelas pessoas? Pode salvá-las?
A mim já me salvou muitas vezes. Todos nós temos momentos muito difíceis e momentos muito bons nas nossas vidas e eu acho que a arte nos acompanha quase sempre. Independentemente de ser música orquestral, clássica ou não. Mesmo sem ter conhecimento formal da música, a música faz sempre parte de momentos-chave da nossa vida. Se imaginarmos um filme sem música... Em Los Angeles, fazia-se uma coisa muita engraçada: havia concertos com orquestra e, às vezes, iam lá realizadores mostrar os filmes – o George Lucas e o Steven Spielberg foram mostrar a “Guerra das Estrelas” e o “Indiana Jones”. Primeiro, mostravam-se partes do filme sem música e depois com a orquestra a tocar... A música faz parte da nossa vida. É impossível imaginar o dia a dia sem ouvir qualquer som que expresse um sentimento, portanto, música – um som não é necessariamente música. A música tem o papel fundamental de acompanhar a nossa vida, de nos ajudar a ser mais felizes, de nos ajudar a pensar, a elevar para um plano que às vezes é difícil na nossa vida rotineira. A música tem a capacidade de nos fazer pensar sobre as coisas, de, às vezes, transformar coisas muito feias em coisas belas. Quantos acontecimentos na história, momentos destrutivos como o ‘11 de Setembro’, foram depois pensados através da música? Isso é uma forma de criar beleza a partir de momentos horríveis da nossa história. Durante a II Guerra Mundial, alguns compositores escreveram peças maravilhosas num sofrimento profundo... Portanto, eu creio que a música nos pode salvar, que nos pode ajudar a refletir, a melhorar muito quem somos e, sobretudo, que nos pode trazer felicidade. É esse o meu papel como artista – levar felicidade e capacidade de introspeção ao maior número de pessoas.

Maria João Leite (entrevista)
Jorge Caria (fotografia)

AGENDA PREENCHIDA
Na altura da entrevista, Joana Carneiro estava a acabar a temporada do Teatro Nacional de São Carlos e em vésperas do Festival Ao Largo, onde iria dirigir o concerto de abertura. A nível internacional, esteve no Canadá, em junho, a trabalhar com a National Arts Center Orchestra. Logo depois, voou para a China, para um concerto comemorativo do 10 de Junho, com a Orquestra Sinfónica de Pequim e a soprano Elisabete Matos.
Entretanto, em agosto, vai participar no Festival de Música de Edimburgo, “este ano dedicado ao compositor James MacMillan, de quem gosto muito”, e num outro, na Noruega, “onde vou fazer dois concertos de [Edvard] Grieg”.
“Antes disso, no fim de julho e princípio de agosto, vou estar mais uma vez com a orquestra do Estágio Gulbenkian, uma orquestra com jovens até aos 26 anos, portugueses ou que estudam em Portugal. São duas semanas muito bonitas, de trabalho intenso, em Aveiro. Este ano, trabalhamos a Nona Sinfonia de Mahler, que depois levamos pelo país fora.”


  
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