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Avaliação contínua ou aprendizagem contínua?

PEDAGOGIA

Nas universidades e no ensino superior em geral, está muito em voga a reivindicação, mesmo por parte dos estudantes, da avaliação contínua, ultimamente também designada de avaliação distribuída. Há também responsáveis políticos e sindicais que aparecem a defender esta solução pedagógica.
Entendo a ideia: pressionar os estudantes para que façam um acompanhamento regular das matérias tendo os testes como elemento motivador que, para dar a ilusão de continuidade são feitos com elevada frequência. Desta forma os alunos são obrigados a acompanhar a matéria que vai sendo dada.
Alguns colegas realizaram experiências pedagógicas, em que utilizaram como método de avaliação a avaliação contínua, de cujo êxito eu não duvido. Como tenho vindo a defender, a principal preocupação pedagógica dos tempos actuais deverá passar por encontrar estratégias que ?obriguem? os estudantes a trabalhar as matérias. A avaliação contínua pode, portanto, ser uma delas.
Parece-me, no entanto, uma perspectiva distorcida ao colocar o acento tónico na avaliação, uma vez que o problema fulcral a resolver é o problema da aprendizagem.
Pode levantar também problemas de implementação prática. O aluno poderá ter dificuldade em distribuir os tempos de estudo se não houver uma adequada calendarização dos mini-testes. Uma frequência elevada de testes poderá criar dificuldades de organização e constituir uma sobrecarga de trabalho que não permita aos alunos uma resposta eficaz.
Na perspectiva dessa filosofia ser implementada em todas as disciplinas, a pressão sobre os estudantes poderá ser excessiva, muitos poderão não aguentar e acabar por desistir.
No entanto, o principal óbice que vejo na avaliação contínua é o efeito perverso de desorganizar o funcionamento das outras cadeiras. No período anterior aos mini-testes, que são a concretização da ?continuidade? da avaliação, os alunos faltam muito às aulas das outras disciplinas. Estão a estudar para o mini-teste.
Sendo a avaliação fundamental para o bom funcionamento duma disciplina (ninguém se preocupa muito com uma matéria que se sabe que não vai ser avaliada), não devemos, no entanto, colocá-la no centro das nossas preocupações.
Por outro lado, creio que qualquer avaliação não deverá dispensar uma prova final global. Acho que é importante haver um momento em que o estudante faz a síntese do que aprendeu. Se a avaliação se limitou a um certo número de mini-testes, corre-se o risco de a matéria ficar na sua cabeça em compartimentos estanques e que perca a noção do conjunto. Penso que uma visão global é essencial para a assimilação correcta e eficiente dum qualquer campo de conhecimento.
O que, na minha opinião, é correcto reivindicar é a aprendizagem contínua. A aprendizagem é que é o objectivo central do ensino. A avaliação deve ser um momento sem angústias em que os alunos, naturalmente, verificam e dão testemunho do que aprenderam ao longo do semestre ou do ano. Não terá a carga que tem neste momento, se os estudantes tiverem feito uma aprendizagem continuada ao longo do período de aulas.
A solução que proponho, parece-me proporcionar exactamente uma aprendizagem contínua. E na véspera dos exames, basta que o aluno faça uma pequena revisão, para enfrentar as provas sem grandes angústias. Estarei a ser demasiado optimista? É possível, mas toda a minha experiência de muitos anos a ensinar matemática, e vários testemunhos de colegas que usam princípios semelhantes, me convencem de que este princípio proporciona bons resultados.
Creio ser experiência de todos os docentes do ensino superior, e especialmente os que dão aulas aos primeiros anos, que o aluno que chega do secundário, além de carências graves a todos os níveis das matérias que devia ter aprendido, traz também uma grande falta de hábitos de trabalho. A sua atitude nas aulas é muito parecida com a de um espectador. A única diferença é que vai tirando, sem grande convicção, umas notas do que vai sendo mostrado ou escrito no quadro, mas ao qual presta muito pouca atenção. A escrita que vai fazendo não chega a ser interiorizada, sofre um fenómeno de reflexão para a ponta do lápis e quase não deixa rasto.
O que proponho então, como já expus em várias ocasiões (ver ?Gazeta de Matemática? nº 148 da Sociedade Portuguesa de Matemática) é a promoção do trabalho dos estudantes na sala de aula, especialmente nas aulas práticas. Desta forma consegue-se uma aprendizagem contínua e melhorar os hábitos de trabalho dos estudantes. Possivelmente será necessário repensar os tempos relativos de aulas teóricas e práticas?
Assim, no início da aula prática, o docente, estabelece o plano de trabalho para ser realizado pelos alunos. Poderá exemplificar para dar o pontapé de saída, mas a parte maior do trabalho deve ser feito pelos estudantes. O docente vai acompanhando o decorrer da realização das tarefas, incentivando e estimulando.
Esta forma de proceder tem inúmeras vantagens, que poderão resumir-se no seguinte:
            - O aluno tem um contacto íntimo com a matéria quando ainda estará presente a explicação teórica.
            - Desta forma não deixa atrasar a matéria até se tornar difícil de recuperar.
            - A familiarização precoce com a matéria retira-lhe a carga negativa de dificuldade.
            - O aluno, enquanto realiza as suas tarefas acompanhado cria hábitos de trabalho.
Esta forma de promover o trabalho dos alunos não interfere com o desenrolar das outras disciplinas, pois se ocupa estritamente o tempo da aula, e não exerce sobre o aluno uma pressão demasiado grande, deixando-lhe a possibilidade de gerir o tempo livre, para trabalhos de casa ou estudo suplementar.

Conclusão: No ensino formal de preparação das competências básicas pré-universitárias e universitárias, a avaliação desempenha certamente um papel importante. A escola deve ter um meio que lhe permita medir da forma mais rigorosa possível, se os seus alunos atingiram o patamar mínimo de conhecimentos para que lhes possa ser reconhecido um certo número de competências, com que eles se vão apresentar no mercado de trabalho. Embora possa haver uma certa contingência na realização de exames, não conheço melhor forma de produzir uma avaliação ao mesmo tempo específica e global. Ocorre dizer o mesmo da democracia: não é um bom sistema de governo, mas ainda não foi inventado um melhor.
A razão pela qual a maioria dos estudantes não aprende, não é porque sejam pouco inteligentes. É porque não trabalham as matérias. E como não trazem hábitos de trabalho, nem em casa nem noutro sítio (talvez nas explicações, em algumas), parece-me que o mais eficiente será fazê-los trabalhar nas aulas. Encontrar as estratégias que os levem a envolver necessariamente a sua massa cinzenta na realização de trabalho em cada disciplina. E eles gostam de trabalhar desta forma. Trabalhando as matérias ao longo do período escolar, reduz-se ao mínimo a angústia do exame no final do período.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 144
Ano 14, Abril 2005

Autoria:

Prof João Carvalho
Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais Faculdade de Engenharia da Univ. do Porto
Prof João Carvalho
Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais Faculdade de Engenharia da Univ. do Porto

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