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A metafísica dos amuletos

Quando se lê, na revista "Focus", que existem, em Portugal, 321 bruxos de porta aberta e que num breve período de vinte anos um português oriundo de Moçambique já conseguiu reunir, à volta de uma nova Igreja de inspiração cristã, dois milhões de crentes distribuídos por diversos países da Europa, África e América, designadamente nos  de língua oficial  portuguesa; quando se vê, na televisão, que, para ter sorte, o actual Primeiro-Ministo de Portugal usa uma certa puseira como talismã e o seu antecessor usou a mesma gravata para assistir aos jogos de futebol em que participava a equipa nacional no Euro-2004; que o respectivo seleccionador  tinha trazido do Brasil uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio  (introduzida pelos primeiros emigrantes italianos), e não outra, como a negrinha Nossa Senhora da Aparecida, por exemplo, que é a patrona do Brasil); enquanto o primeiro responsável pela Federação se recolhia no balneário, para não dar azar aos jogos - logo ocorre aquela reflexão de George Steiner ("Errata:Revisões de Uma Vida"), a propósito da necessidade que o ser humano tem de sentir (pensar) que não está "desacompanhado" nem  votado a uma existência  aleatória na imponderável imensidão de uma qualquer galáxia:  "Há ainda na psique humana imenso espaço para o infantilismo, a irracionalidade, o pânico e ataques de culpa. No Ocidente científico-tecnológico há milhões de pessoas que conduzem os seus negócios quotidianos com base na astrologia. Não saem da cama no dia treze do mês sem recorrerem a alguma forma de exorcismo. Acreditam que os gatos pretos são vagamente infernais e tremem quando ouvem as trovoadas. Encontramo-nos ainda no jardim infantil da potencial evolução."          Isto não é "literatura": há anos,  conhecemos um director de departamento que regou com gasolina e chegou um fósforo a um gato preto que lhe procurara dengosamente o colo, quando estava sentado à secretária, justificando: "O porco-sujo mandou-o vir ter comigo!"; na mesma época,  um chefe político-militar nunca se separava de um amuleto (pau ou osso deformados pelo uso) para se "defender" dos azares, afirmando, convicto: "Com "este" nada me toca"!"; e  ainda hoje há muita gente que  diz quando há trovoada: "Valha-nos Santa Bárbara!", não se senta à mesa com treze convivas,   não passa debaixo de um escadote e põe um raminho de flores de giesta em cada porta e janela da sua casa, na noite do primeiro dia de Maio, para não entrar  o diabo e o "mau olhado".            Seja qual for a variante das crenças no sobrenatural,  desde o momento em que o primeiro "homo sapiens sapiens" olhou para o céu e em derredor  e perguntou "quem me pôs aqui",  "porquê" e "para quê" e o primeiro "homo philosophicus" concluiu que quanto mais se sabe mais longe fica o que ainda falta  saber (no rasto do Big Bang  ou do Criador Incriado), os mais acérrimos  crentes de que a Razão é a única luz que não se apagará têm de aceitar, compassivamente, que as "perplexidades"  (o termo é de Maimónides) da mente humana tanto se exprimem através de uma pulseira, ícone ou gravata, como dos mukixis de Angola, das carrancas de Pernambuco ou dos orixás da Bahia   E por três espécies de "razões": a de Wittgenstein, "quando filosofamos, temos que mergulhar no caos primordial  e que nos faz sentir nele como em nossa casa"; a de Eça de Queirós (por extrapolação de uma passagem da sua crónica sobre o "Francesismo"), "a alma de um povo define-se bem a si mesma pelos heróis [crenças, deuses e mitos] que ela escolhe para amar e cercar de lenda."; a de Eduardo Prado, que Eça efabula, numa crónica intitulada "Espiritismo", a propósito de uma visita dos dois amigos, em Paris, a um Centro Espírita, onde conheceram um destacado membro da confraria:   "A minha alma, segundo afirma aquele homem diabólico, jaz enterrada sob densas camadas de materialidade. Acredito. Mas ela está lá muito quieta, muito confortável, muito feliz. Para que hei-de eu desbastar, adelgaçar, e furar essas abóbadas de matéria, para que a minha alma se escape para as regiões tormentosas e aterradoras da espiritualidade? É uma coisa perigosa, uma alma assim solta pelos ares, em companhia de espíritos... (...) Nada! A minha rica almazinha continuará cá dentro muito quieta. E o mais que farei, para a entreter, é carregar nas doses de Descartes e de Espinosa."     Nesse momento, Eça, que começara a visita por conjecturar que os "centros sérios do sobrenatural" se instalavam, hoje, em escritório com tabuleta à porta, campainha e capacho" e que "todas as religiões nascentes se alojam burguêsmente" - não respondeu  que sim nem que não.