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É mais do que uma simples explicação: os estudantes voluntários da Universidade do Porto propõem-se a apoiar alunos mais jovens nos seus estudos, minimizando dificuldades de aprendizagem, e a ajudar na construção dos respetivos projetos de vida. Representam a figura de um ‘irmão mais velho’ e acompanham-nos ao longo de um ano letivo.
A Universidade do Porto conta com o projeto Voluntariado Estudantil, que leva estudantes das suas faculdades a ajudarem alunos mais jovens nas escolas básicas. O projeto teve início no ano letivo 2007/2008, integrado no programa Porto de Futuro, promovido pelo Pelouro da Educação da Câmara Municipal do Porto, tendo como metas combater o abandono e o insucesso escolar no Ensino Básico, minimizar as dificuldades de aprendizagem dos alunos do 2.º Ciclo e facilitar a sua integração na escola. O projeto vai mais além do que dar simples explicações da matéria. Passa também pelo apoio a alunos “que estão em risco de quebra de vínculo com a escola, por negativas ou por faltas”, que podem encontrar nos voluntários universitários “um modelo de referência” ou “a figura de um irmão mais velho”, alguém que lhes transmite a confiança necessária para que possam acreditar que “são capazes de concluir os estudos” – explica Clara Martins, responsável pelo projeto na Universidade do Porto. Desta forma, ao longo de um ano letivo, os voluntários incrementam atitudes de autoconfiança nos mais jovens, promovem a sua identificação com os estudos e contribuem, de alguma forma, para minimizar as dificuldades de aprendizagem. “Aquilo que se pretende é que os voluntários apoiem estes alunos, orientando-os no estudo e nas tarefas escolares, e facilitem a apropriação, pelo aluno apoiado, de estratégias básicas de construção das aprendizagens. Porque são meninos que, na sua maioria, não sabem estudar, por exemplo; e os voluntários vão ter também esse papel. No fundo, este projeto não é mais uma iniciativa de apoio ao estudo, mas extravasa um bocadinho esse papel, apostando em cultivar o interesse pela escola, na prossecução dos estudos... Ajudá-los um pouco a descobrir o seu caminho e a construir o seu projeto individual.” Numa fase inicial, o projeto-piloto arrancou em três instituições portuenses de Ensino Superior: Universidade do Porto, Instituto Politécnico do Porto e Universidade Católica Portuguesa. Avançou numa única escola (Escola Básica de Miragaia) e, dado o sucesso da iniciativa, foi-se alargando a outras escolas da cidade e repetindo anualmente – só a pandemia a suspendeu, em 2020. A vontade de ajudar os jovens alunos é muita, uma motivação que acaba por ser transversal a todos os voluntários, que, por seu lado, têm neste projeto uma forma de capacitação, de desenvolvimento de competências, de partilha do seu conhecimento. Do lado dos estudantes mais jovens, após este acompanhamento, nota-se que “vão mais à escola” e que há uma redução do absentismo, dos níveis negativos na avaliação e das participações disciplinares – “também temos esse feedback, o que é muito positivo”.
“Tive uma experiência tão boa que quero que outros também a tenham”
Rui Pedro Oliveira tem 19 anos e está no segundo ano de História, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Anos antes, ele próprio usufruiu deste programa, tendo sido acompanhado por um estudante universitário. Quando viu a divulgação da iniciativa, sentiu que tinha de fazer parte. Afinal, “eu fui ajudado por este projeto”. Conta que, na altura, teve o apoio de uma voluntária – “ajudou-me imenso na parte do Inglês” – apenas no primeiro período, por causa de mudanças de horários. O acompanhamento no resto do ano letivo foi assegurado por voluntários que estavam a apoiar outros alunos, mas que, frisa, o ajudaram muito no estudo para os exames do 9.º ano. “Tive uma experiência tão boa, que quero que outros também a tenham.” Não é a primeira vez que faz voluntariado. Além deste projeto, Rui Pedro Oliveira já ajudou em eventos, já participou em iniciativas de recolha de alimentos, entre outras atividades. Porque ajudar é a sua grande motivação. “Eu gosto de ajudar, adoro ajudar. Neste caso, adoro ensinar, digamos”. E é neste capítulo que também retira algo para a sua vida, uma vez que quer ser professor e este projeto vai ajudá-lo a ter alguma experiência. “Não é uma experiência de turma, é com um só aluno, mas vai ajudar imenso. Vai ajudar-me a ser professor.” Quando entrou na faculdade, a ideia era outra, mas, no que toca a vontades, ‘perdeu-se’ um futuro guia turístico e ‘ganhou-se’ um futuro professor. O que o move é a vontade de ensinar, de estar em contacto com jovens e até de mudar a ideia que se tem de a História ser uma das disciplinas menos amadas, tornando-a mais divertida e mais interessante. Considera a profissão docente atrativa e assegura que “o gosto pela profissão” ultrapassa os obstáculos... O trabalho no voluntariado tinha começado há muito pouco tempo, aquando da conversa com a PÁGINA. Mas Rui Pedro Oliveira conta que ajudou o aluno mais jovem no que podia na preparação para os testes que se iam realizar nessa altura. Mesmo ainda estando no início, sublinha que está a adorar a experiência e que esta é para continuar. “Enquanto puder, enquanto tiver disponibilidade, ajudo”, conclui.
“Poder fazer uma diferença, por pequena que seja”
Embora seja a primeira vez que envereda por uma iniciativa deste género, fazer voluntariado não é uma estreia para Ana Álvares. “Sinto-me útil e tenho acesso a fazer coisas diversificadas, com pessoas diferentes. E eu gosto desse tipo de dinâmicas que se estabelecem e penso que isso é positivo, tanto para mim, de uma forma geral, como para as atividades nas quais me envolvo”, diz. Tem 42 anos e está a fazer mestrado de Ciências da Educação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. E porquê participar neste projeto? “Desde logo, porque acho que tenho condições de ajudar uma criança, no fundo, de poder apoiá-la em termos da aprendizagem e também de partilha. Esse é um ponto. O segundo ponto é que me interessa, enquanto estudante de Ciências da Educação, saber um pouco como isto é feito nas escolas, que tipo de resposta as escolas têm e entrar um bocadinho no ambiente das escolas, de uma forma muito ligeira e informal. São estas duas razões”, explica. A experiência ainda está a começar. Na altura em que Ana Álvares falou à PÁGINA, tinha estado apenas duas vezes com o aluno mais jovem; ainda assim, foi uma “interação agradável”, tendo-se sentido “bem acolhida”. Neste arranque, falaram, no global, sobre as dificuldades que o aluno sentia, “as disciplinas em que tinha mais facilidades e mais dificuldades” e também sobre os seus hábitos de estudo. “Para mim, o benefício tem muito a ver com isto, com o momento presente, com estas interações, com esta possibilidade de poder fazer uma diferença, por pequena que seja. Se for positiva...” Sentiu empatia mútua e dinamismo. Por isso, as expectativas são muitas. “Espero que possamos, ao longo do ano, aproveitar o momento em que estamos juntos e que isso também se possa refletir, de algum modo, nas aprendizagens do jovem com o qual estou a fazer a tutoria”, sublinha Ana Álvares.
Projeto em ação em sete escolas
Neste ano letivo, o Voluntariado Estudantil da Universidade do Porto está em sete escolas da cidade: Carolina Michaëlis, Irene Lisboa, Rodrigues de Freitas, Miragaia, Augusto Gil, Pires de Lima e Eugénio de Andrade. As escolas indicam as suas necessidades e o número de alunos para acompanhamento vai variando. Entretanto, a Universidade do Porto divulga o projeto e, depois de uma triagem e entrevista na escola, “porque há alguns passos que têm de ser dados até irem para o terreno”, são escolhidos os voluntários, que acabam por rondar as seis ou sete dezenas. O feedback das partes envolvidas tem sido positivo. “A nível qualitativo, vamos tendo sempre feedback, quer dos coordenadores do projeto nas escolas, e dos diretores de turma também, quer dos próprios meninos, porque é-lhes sempre pedido o seu testemunho. E o feedback tem sido muito positivo. A nível quantitativo, tentamos monitorizar e avaliar o projeto com algumas características, digamos assim, na melhoria da relação do aluno com a escola, com a sua aprendizagem. E aqui pedimos para nos dizerem em que nível se encontram, numa escala, e os resultados costumam ser positivos, sem dúvida. Não quer dizer que num ano ou outro possa acontecer que meninos desistam do projeto e não o levem até ao fim, mas na sua maioria isso não acontece. Os resultados têm sido muito satisfatórios para ambas as partes, quer para os voluntários, quer para os meninos”, refere Clara Martins. Para participar no projeto não é necessário ser especialista numa área específica, pelo que qualquer estudante da Universidade do Porto, de qualquer área de estudo, se pode voluntariar. “Precisamente porque aquilo que se pretende é algo mais do que um simples voluntário que está ali a dar explicações na área A ou B. Portanto, são todos bem-vindos e temos um leque muito alargado de candidatos ao projeto.”
Maria João Leite (reportagem) DR/Notícias U.Porto (fotografia)
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