Página  >  Reportagens  >  Museu do Holocausto do Porto: lembrar para não voltar a acontecer

Museu do Holocausto do Porto: lembrar para não voltar a acontecer

O verde abre e encerra o Museu do Holocausto do Porto, simbolizando a vida antes e após a catástrofe. Pelo meio, o caminho é escuro, negro como o episódio da história que o museu conta e que é preciso lembrar para que não volte a acontecer.

Abriu no Porto, no início de abril, aquele que é o primeiro Museu do Holocausto na Península Ibérica. O percurso propriamente dito começa junto à imagem da entrada do campo de concentração de Auschwitz/Birkenau, um dos seis campos de extermínio por cujos portões passaram milhões de pessoas. Segue-se uma recriação das camaratas, que acolhiam à noite os corpos prisioneiros. E, no final desse corredor que nos traz sensações de aperto, vê-se um memorial, onde se recordam os cerca de seis milhões de judeus mortos no Holocausto.
“É importante não esquecer estas pessoas. Não é o número em si, é cada uma destas pessoas, que tinham as suas vidas, as suas profissões, a sua produção artística literária, as suas relações sociais e humanas. E tudo isso desapareceu”, refere o curador do museu, sobre o memorial.
Para Hugo Vaz, o museu pode ser dividido de duas formas. “Na sua forma simbólica, temos um espaço verdejante, quer no início, quer no fim do museu, que representa a vida antes e após o holocausto; todo o resto do espaço é negro, desprovido de vida. E podemos dividir os espaços por sala: começamos com a entrada de Auschwitz/Birkenau, porque é um ‘ex libris’ desta industrialização da morte e que, no fundo, é o ponto de partida para a perceção de todo o resto do museu”, explica, acrescentando que o espaço começa “pela solução final, pelo fim”, para que os visitantes se questionem como foi possível chegar ali. Esse caminho, essa narrativa histórica cronológica só é contada nas salas seguintes. Um novo corredor vai relatando a história que termina nesta tragédia humana. Através de texto, vídeo e imagens, recorda episódios que compõem este caminho. Por outro lado, o museu exibe centenas de fichas de entre os cerca de 50 mil refugiados judeus que passaram pela cidade do Porto. Segundo as fichas existentes nos arquivos da sinagoga do Porto, refugiados de várias nacionalidades – na grande maioria, polacos – chegaram à cidade portuense entre 1940-1941, oriundos, sobretudo, da Bélgica, França e Luxemburgo. Sonhavam ir para os Estados Unidos, mas, na impossibilidade, para um outro qualquer destino longe da Europa, conta o museu.
“Portugal foi um país neutro, ou não beligerante, durante a II Guerra Mundial, mas foi usado, segundo a maioria dos académicos, por 50 mil judeus refugiados como plataforma de saída da Europa. E o Porto também fez parte dessa plataforma”, afirma Hugo Vaz, justificando a ligação deste episódio histórico à cidade. Além disso, o espaço é tutelado pela Comunidade Judaica do Porto, por elementos que, de alguma forma, foram tocados pela tragédia, através dos pais ou avós.
Até que se chega à última sala, um espaço polivalente, que pode acolher exposições temporárias, mostras de vídeo e de cinema, conferências, entre outros encontros expectavelmente relacionados com a temática. Um espaço que faz deste museu “um organismo vivo”, que possa dar sempre algo de novo aos visitantes.
No momento em que a PÁGINA visitou o espaço, um vídeo dava voz ao testemunho dos sobreviventes. “É importantíssimo recolher estas histórias na primeira pessoa, enquanto é tempo.”

“É preciso não esquecer que isto foi ontem”

O Museu do Holocausto tem várias missões a cumprir. Além de prestar homenagem às vítimas, pretende informar aqueles que não conhecem bem o tema, refrescar a memória dos que o conhecem, mas, sobretudo, “não deixar esquecer, para não se voltar a repetir”, como frisa Hugo Vaz, “nem contra judeus, nem contra qualquer outro grupo”. E acrescenta: “É preciso não esquecer que isto foi
ontem. É preciso não esquecer que isto começa num país que era uma potência à época, numa Europa dita civilizada e, portanto, pode voltar a acontecer.”
Em 2019, Portugal tornou-se membro da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. “No ano passado, o Governo definiu as linhas orientadoras do Programa Nacional Nunca Esquecer [em torno da Memória do Holocausto] e, no fundo, lança o repto à sociedade”, sustenta o curador. Foi neste contexto que o museu começou a ser criado, para não serem esquecidos os anos de devastação humana por que passaram milhões de pessoas. “Nunca sentiremos aquilo que as pessoas, à época e naqueles espaços, sentiram. Isso um museu nunca pode oferecer, não consegue oferecer.” Mas é importante não esquecer a existência desses sentimentos, das suas “vidas de humilhação e de degredo absoluto”, adianta, lembrando que o ódio que levou ao Holocausto “ainda está vivo” e é importante combatê-lo.
O Museu do Holocausto do Porto era para ter sido inaugurado a 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, mas a pandemia trocou todas as voltas, levando a que só abrisse no dia 5 de abril. Segundo Hugo Vaz, o feedback tem sido “bastante positivo”.

Maria João Leite (reportagem)
Ana Alvim (fotografia)


  
Ficha do Artigo

 
Imprimir Abrir como PDF

Partilhar nas redes sociais:

|


Publicidade


Voltar ao Topo