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Das ruínas do Real Teatro de São João nasceu o Teatro Nacional São João (TNSJ), erguido pela vontade das gentes da cidade. “É por isso que gostamos tanto de dizer que este não é um Teatro Nacional ‘no’ Porto, mas um Teatro Nacional ‘do’ Porto”, explica Pedro Sobrado. Cem anos passaram desde a construção do novo edifício.
O Real Teatro de São João foi oficialmente inaugurado a 13 de maio de 1798. Durante anos, apresentou espetáculos e transmitiu emoções até ao incêndio que deflagrou na noite de 11 de abril de 1908 e que destruiu o edifício projetado pelo arquiteto italiano Vicenzo Mazzoneschi. Dos escombros haveria de nascer um monumento nacional, uma nova sala de espetáculos projetada pelo arquiteto José Marques da Silva (remodelada, anos mais tarde, pela mão do arquiteto João Carreira). Um novo espaço de cultura e teatro, também cinema, inaugurado a 7 de março de 1920. O edifício centenário, que por alguns anos chegou a chamar-se São João Cine, ganhou novo fôlego na reta final do século XX, foi adquirido pelo Estado e assumido como Teatro Nacional São João, a partir de 28 de novembro de 1992. Em todo este percurso, aqui brevemente resumido, há muitos episódios marcantes. Pedro Sobrado, presidente do Conselho de Administração do TNSJ desde 2018, começa por destacar à PÁGINA o trágico incêndio que destruiu o Real Teatro e que foi a base de uma nova história. “O Teatro São João do arquiteto Marques da Silva ergue-se sobre os escombros desse primeiro edifício. Destaco este acontecimento funesto porque o atual São João é sucessor e continuador do primitivo São João: a implementação geográfica é a mesma e o edifício de Marques da Silva presta homenagem ao anterior, de várias formas, a começar no facto de reciclar as pedras da muralha fernandina que já tinham sido usadas na construção do primeiro teatro. Gosto muito desta história porque nenhum projeto de teatro começa do nada. No teatro, somos sempre sucessores e continuadores; construímos sobre os fundamentos lançados por aqueles que nos precederam...” Pedro Sobrado realça, também, a reconstrução do São João, entre 1908 e 1920, e a vontade dos portuenses. “É importante não esquecer que tanto o Real Theatro como o segundo São João foram erguidos por iniciativa das elites do Porto e da sua população, não resultam de investimento do Estado. Foi necessário emitir dezenas de milhar de ações de 20 escudos para financiar a reconstrução do São João! É por isso que gostamos tanto de dizer que este não é um Teatro Nacional ‘no’ Porto, mas um Teatro Nacional ‘do’ Porto. A construção do segundo edifício foi, aliás, bastante atribulada: a Primeira República, com o seu cortejo de golpes, tumultos, pancadarias; as carências de materiais durante a Primeira Guerra Mundial; a epidemia do tifo...” Entre os inúmeros episódios da viagem entre passado e presente, há ainda dois que merecem menção: “Destacaria a recuperação e modernização do edifício em 1994-95, após a sua aquisição pelo Estado. O São João estava em franca decadência infraestrutural, num estado de quase abandono. Foi o arquiteto João Carreira que deu ao São João o rosto que ele hoje tem. E é inescapável mencionar a nomeação de Ricardo Pais para a direção do teatro, em 1995. Deve-se a essa personalidade magnética a instalação no São João de um projeto moderno e arejado de Teatro Nacional. Sob a sua direção, o São João afirmou-se quase instantaneamente como um projeto artístico vibrante e uma estrutura de produção teatral de excelência”, destaca o presidente do Conselho de Administração do TNSJ.
“O teatro é um sobrevivente” Para assinalar os 100 anos do novo edifício, o TNSJ preparou um programa de comemorações extenso. Mas o ano 2020 também tinha uma cena preparada e apresentou no palco mundial uma pandemia, que a todos afetou profundamente. O TNSJ não foi exceção. “Programámos uma celebração, e foi-nos exigido um ato de resistência”, refere Pedro Sobrado, acrescentando: “Mas isso é talvez a melhor forma de prestar homenagem ou fazer justiça a um teatro que foi erguido – duas vezes – numa praça chamada Batalha.” Comemorações e espetáculos suspensos, salas desertas, o mundo fechado em casa. Em tempos difíceis pediu-se reinvenção e o TNSJ recorreu às tecnologias para levar o teatro ao público e apresentar espetáculos online. “A pandemia teve esse efeito colateral, chamar-nos a atenção para as virtualidades dos meios digitais. Não se fez teatro sempre da mesma maneira e, ao longo dos séculos, o teatro soube sempre reinventar-se e encontrar novas formas de ‘entrega’. O teatro é um sobrevivente”, frisa Pedro Sobrado. Mas ressalva: “Isso não pode dar-nos a ilusão de que há teatro sem teatros, ou de que há experiência teatral sem a copresença física, somática, de quem faz e de quem vê. Não há. O teatro reivindica pessoas diante de pessoas.” E, entretanto, as pessoas voltaram ao teatro. Com todas as medidas de saúde e segurança implementadas, o feedback do público tem sido positivo, abrindo expectativas para o futuro. “Que o São João seja um teatro com muitas ideias de teatro dentro”, formula Pedro Sobrado. Assim esperam todos os amantes da cultura e da cidade.
Maria João Leite
©João Tuna
ORA DIGA LÁ... PEDRO SOBRADO
Este é o ano do centenário do TNSJ. Mas é também o ano em que a pandemia da covid-19 apanhou o mundo de surpresa. Qual o impacto da pandemia no TNSJ e de que forma se reinventaram em tempos de quarentena? A pandemia representou um duro revés nos nossos planos para o centenário. Não se realizaram três dezenas de espetáculos, várias iniciativas foram consideravelmente afetadas, perdemos receitas importantes... Programámos uma celebração, e foi-nos exigido um ato de resistência. Mas isso é talvez a melhor forma de prestar homenagem ou fazer justiça a um teatro que foi erguido – duas vezes – numa praça chamada Batalha. Recordo que foi erguido não pelo Estado, mas pela própria cidade e as suas gentes. As circunstâncias pandémicas que hoje vivemos ‘rimam’, de resto, com as circunstâncias que antecederam a inauguração deste segundo São João. A gripe pneumónica é de 1918, 1919... Entre março e julho, o São João esteve com as portas encerradas, mas não esteve parado. Transmitimos vários espetáculos online, mobilizando o luxuoso arquivo videográfico do TNSJ, e os projetos educativos em curso foram reconfigurados para que pudessem realizar-se através de plataformas digitais. Os Clubes de Teatro, por exemplo, continuaram a operar durante o período de confinamento. Através dos canais digitais, promovemos ensaios abertos, leituras de peças, uma oficina de clown, uma algo inesperada «Antígona» em stop motion... No contexto da suspensão generalizada da atividade artística, decidimos ainda chamar 12 atores que participaram em produções do São João nos últimos 10-15 anos, para pensarem connosco e desenvolverem um dicionário videográfico de teatro: «Bambolina! Um Glossário Intempestivo de Teatro». Neste glossário cabem termos técnicos, conceitos de estética teatral, histórias, personagens, jargão. Em suma: neste período crítico, não voltámos as costas ao público e despendemos os melhores esforços para apoiar as companhias e os artistas, viabilizando e, sempre que necessário, reforçando os projetos artísticos a desenvolver.
A solução digital é um recurso para manter? O futuro vai passar também pelos espetáculos online? Sim, a pandemia teve esse efeito colateral: chamar-nos a atenção para as virtualidades dos meios digitais. Não se fez teatro sempre da mesma maneira e, ao longo dos séculos, o teatro soube sempre reinventar-se e encontrar novas formas de ‘entrega’. O teatro é um sobrevivente: resistiu ao advento de tecnologias como o cinema e a televisão, resistiu a proscrições várias... O teatro nunca acaba. Esta experiência vem agora obrigar-nos a sermos mais sistemáticos e consequentes ao nível das transmissões online, dos registos videográficos, das formas de exploração digital de materiais dramáticos ou performativos. Em todo o caso, isso não pode dar-nos a ilusão de que há teatro sem teatros, ou de que há experiência teatral sem a copresença física, somática, de quem faz e de quem vê. Não há. O teatro reivindica pessoas diante de pessoas. Essa dimensão ancestral do teatro é atualizada todos os dias quando o pano sobe – mesmo quando já não há pano de boca!
Neste ‘novo normal’, que medidas foram implementadas? Implementámos um plano de contingência e um protocolo de segurança e higiene que começou por nos parecer rígido e exigente, mas que foi rapidamente assimilado pelas nossas equipas, nomeadamente pela equipa de palco e pela equipa de frente de casa e acolhimento público. Essas regras e procedimentos parecem-nos hoje já velhos hábitos. Entre as principais medidas, contam-se a desinfeção das salas e espaços comuns antes e depois dos espetáculos; a adoção de um sistema de nebulização dos espaços que faz uso de um desinfetante especificamente certificado para a covid-19; a redução considerável da lotação das salas (200 no Teatro São João e 100 no Teatro Carlos Alberto); a realização de testes de diagnóstico às equipas artísticas antes do início da fase de ensaios presenciais; e o estabelecimento de circuitos nos edifícios que evitam o cruzamento de pessoas em corredores e escadas... Estamos em condições de afirmar que o São João é um lugar seguro – antes de mais, para nós próprios e para as equipas. Seguro, também, para os artistas que recebemos e com quem trabalhamos e, por fim, para os espectadores. A pandemia abateu-se violentamente sobre o teatro. Criámos as condições para que seja agora o teatro a cair sobre a pandemia, pondo-nos a questionar de novo a forma como vemos o destino dos homens e das mulheres.
O público voltou ao teatro? Como tem sido o feedback? Está a exceder as nossas expectativas, devo dizer. O primeiro espetáculo da nova temporada – «O Burguês Fidalgo», da companhia Palmilha Dentada – esteve em cena três semanas e esgotou. Alcançámos 100% de taxa de ocupação da sala. O mesmo sucedeu com o novo espetáculo da Circolando, no Carlos Alberto. Estamos, claro, a falar de lotações consideravelmente reduzidas, mas mesmo a «Castro» – que está em cena no São João, com uma lotação bastante superior – está a ter uma recetividade notável. O público não estava com medo de regressar ao teatro. Pelo contrário, estava com saudades. O público sentia ansiedade, mas, afinal, era uma ansiedade boa.
Relativamente às comemorações do centenário, o que destaca da programação (do que já se realizou e do que ainda falta cumprir)? Destacaria o facto de o último trimestre do ano ser marcado por três novos espetáculos de três diretores artísticos do São João: Ricardo Pais, que pensou e imaginou este teatro nacional em meados dos anos 90; Nuno Carinhas, que lhe sucedeu em 2009 e se manteve até 2019; e Nuno Cardoso, que era um ‘companheiro de estrada’ porque já tinha estado connosco como programador do Carlos Alberto. São três criadores cénicos muito diferentes, mas igualmente instigantes. Destacaria, ainda, a estreia nacional de um espetáculo de Frank Castorf, o histórico diretor da Volksbühne de Berlim, que conta com a participação de Jeanne Balibar, uma diva do teatro e do cinema franceses. Finalmente, destaco a exposição Teatro São João, 100 Anos, com que queremos colmatar uma grave lacuna na memória histórica deste monumento nacional. Deverá ser inaugurada ainda este ano e mobilizará não apenas documentos e informação histórica, mas também testemunhos e memórias daqueles que viveram este teatro nas suas várias encarnações, nomeadamente como cinema.
Que projetos e expectativas tem para o futuro? Temos uma obra pela frente – a reabilitação do interior do teatro e a renovação do parque tecnológico, o que nos obrigará a encerrar portas entre abril e setembro de 2021, mantendo com atividade pública apenas o Teatro Carlos Alberto e o Mosteiro de São Bento da Vitória. Mas a principal obra é a que está em curso e que prosseguirá após a intervenção de restauro e beneficiação. Falo da obra artística, do projeto teatral. A minha expectativa é que este São João nunca se esqueça de que é primacialmente um palco, uma casa de criação artística, que exorbita o seu talento e aprofunda os ofícios do fazer teatral. Este reconhecimento deve começar na própria administração! O que nos move e motiva não são as questões administrativas ou jurídicas, mas artísticas e teatrais. O aparato jurídico-administrativo tem de estar ao serviço de uma coisa maior, caso contrário é uma sementeira no deserto. Espero que o nosso ‘elenco quase residente’, como tanto gostamos de dizer, se consolide; que o projeto internacional do São João, que retomámos recentemente, adquira fôlego e expressão; e que a implantação do São João na região Norte e no país seja consistentemente reforçada. Espero, ainda, que o São João seja um teatro com muitas ideias de teatro dentro, graças à parceria, simultaneamente generosa e exigente, com companhias de teatro e outros artistas.
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