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Alunos do Secundário criaram a SandSpace

A pandemia paralisou muitos setores de atividade, mas não bloqueou a imaginação de quatro alunos do 12.º ano do curso técnico-profissional de Programação, da Escola Básica e Secundária Dr. Serafim Leite, em São João da Madeira. Em tempos de quarentena, e a propósito das férias de verão, criaram a SandSpace, uma aplicação que informa sobre a ocupação das praias e que já foi reconhecida internacionalmente.

A inspiração surgiu quando Bruno Dylan, Diogo Resende, Jorge Correia e Nuno Castro falavam das férias e das potenciais idas condicionadas à praia, dadas as restrições que o país impunha em tempos de incerteza. “Nós somos de zonas distintas e para irmos à praia temos de combinar um dia. Basicamente, não queríamos estar a desperdiçar tempo, ir para a praia e termos de voltar para trás. Então, estivemos a analisar as notícias, o que estava a acontecer e o que ia acontecer, e pensamos numa ideia que nos ajudasse, mas que também ajudasse toda a gente”, explicou Nuno Castro à PÁGINA.
Dividiram-se em dois grupos e trabalharam à distância: dois na aplicação, propriamente dita, e os outros dois na pesquisa de informação sobre as praias. “Como somos todos da mesma turma, esse trabalho já não era assim tão complicado de fazer. Já nos conhecemos bem e conseguimos trabalhar bem em conjunto”, frisou Jorge Correia.
Assim, surgiu a ideia de criar a aplicação SandSpace, que tem 865 praias referenciadas e conta com a ajuda dos utilizadores. O utilizador pode consultar a aplicação e também marcar a ocupação das praias. “Antes de sair de casa pode ver se a praia a que quer ir está cheia ou vazia. Ao chegar à praia também pode marcar a informação, para ajudar os outros. Com a parceria que temos com a InfoPraia, a aplicação já tem algumas praias marcadas por eles, que são as praias concessionadas e que só são aceites nessa aplicação”, explicou Diogo Resende, acrescentando que a aplicação teve “um bom feedback”. No início de agosto, a App já contava com mais de dez mil downloads.

O lado positivo da pandemia
Apesar de todas as restrições, a quarentena foi também tempo de oportunidades e, portanto, nem tudo foi mau. Esta é a visão de Bruno Dylan. “Muita gente vê a pandemia só pelo lado mau. É normal termos uma visão um pouco pessimista desta pandemia, mas também teve coisas boas. Por exemplo, nós conseguimos avançar bastante na nossa prova de aptidão profissional. Temos a certeza que, se não fosse a pandemia, que nos permitiu trabalhar diariamente no nosso projeto, não conseguiríamos fazer um projeto tão bom e ter a nota que tivemos”, que foi 20 valores.
E, muito provavelmente, não existiria a SandSpace... “Se calhar, não seria um projeto que ficaria assim tão bem, ou se calhar nem sequer seria feito, porque não teríamos tanto tempo. Teríamos de estar a estagiar numa empresa, oito horas por dia, não íamos ter disponibilidade para criar uma aplicação assim e nem sequer íamos ter esta ideia de querer ajudar os outros devido à pandemia. Por isso, nem tudo foi mau”, adiantou Bruno Dylan.
Com a aplicação, vieram também novos conhecimentos, porque, mesmo dentro de uma linguagem técnica familiar, “não conhecíamos tudo o que usamos”, referiu Nuno Castro. Afinaram a forma de trabalhar à distância e aspetos da área de modelo de negócio. “Aprendemos um pouco de tudo, também por causa dos concursos em que participamos. A professora Fátima ajudou-nos nessa parte de como comunicar com empresas, como comunicar com jornalistas... Aprendemos um pouco de tudo.”
A aprendizagem de todos os envolvidos foi “muito além da componente técnica”, reforçou a professora Fátima Pais, que aceitou desde o início ajudar na coordenação do projeto, “que é o que compete a um professor”. E as dificuldades não foram muitas.

O maior desafio
Fátima Pais é diretora de curso e professora destes alunos há três anos. Já se conheciam, não havia restrições no acesso à tecnologia e até o facto de não ser um projeto presencial contribuiu para uma maior rentabilidade do tempo, uma vez que moram distantes uns dos outros. “Eles são super trabalhadores e super empenhados. Portanto, o processo de coordenação em si não foi complicado. De todo.”
O maior desafio foi a articulação com outras entidades, “mas tivemos a sorte de encontrar alguém na Agência Portuguesa do Ambiente que falava a mesma linguagem que nós e que se dispôs a trabalhar connosco”, relatou Fátima Pais, que sentiu por parte daquela agência “um interesse genuíno, institucional, em trabalhar connosco”.
A parceria com a InfoPraia permitiu aumentar o número de praias registadas na aplicação. A pesquisa de praias é uma tarefa complicada e é uma das grandes dificuldades em tornar a aplicação mais global, embora a plataforma esteja preparada para isso. Para torná-la mais funcional e precisa seria necessário realizar parcerias internacionais. Além disso, “a aplicação depende muito dos utilizadores, porque é baseada na sua perceção. E aqui em Portugal nós tivemos uma atenção dos ‘media’ que nos permitiu chegar aos dez mil downloads... Num país estrangeiro seria difícil termos esta abrangência”, completou Fátima Pais.
No entanto, uma boa parte do mundo já ouviu falar da SandSpace. Entre outros concursos, os alunos candidataram-se ao Apps for Good internacional, organizado pelo Reino Unido, onde ganharam o Prémio do Público. “Para nós foi muito gratificante. O público português mobilizou-se e votou massivamente”, havendo votos também de outros países, distintos e distantes, “desde a Nigéria à Nova Zelândia”, sublinhou a professora. “Foi algo que nos encheu de orgulho, sem dúvida.” A aplicação é ainda candidata noutros três concursos: Jovens Cientistas, Jovens Empreendedores e Apps for Good Portugal.

Gratificante para todos
Aquando desta entrevista, também à distância de um clique, os quatro estudantes iam concorrer ao curso de Engenharia Informática. Aquando do fecho desta edição, os resultados das candidaturas ao Ensino Superior ainda não eram conhecidos, mas os resultados das provas de acesso que realizaram variam entre 14 e 18 valores, números para juntar às médias de 17 e 18 de fim de curso.
No ano de estreia deste recurso, todos tentaram entrar na universidade pela via do Ensino Profissional – Nuno Castro também tentou através do Ensino Regular. “Este ano é muito difícil de prever, não há histórico. E apareceu numa altura terrível, porque foi no meio da defesa dos projetos de aptidão profissional deles e a meio tiveram a preparação para um exame que ninguém sabia como ia ser. Aliás, este processo foi muito atrapalhado, da parte da tutela. As escolas e os miúdos, acima de tudo, tiveram de fazer um esforço absolutamente brutal. E fizeram-no. Acho que com sucesso”, considerou Fátima Pais.
Da experiência da criação da aplicação e do reconhecimento internacional retiram-se vários benefícios, em termos sociais e educativos. “Os benefícios para a escola foram brutais, porque deu visibilidade ao trabalho dos alunos e à qualidade do trabalho da escola. E, logo depois, tivemos a felicidade de ser a primeira escola pública nos rankings a nível nacional. Vale o que vale, mas foi uma catadupa de boas notícias para a escola. E acredito que este projeto pode ser inspirador para outros alunos, para acreditarem que é possível fazer coisas. Às vezes, para mudar o mundo, não é preciso fazer uma revolução; se todos fizermos um bocadinho, contribuímos para a mudança”, argumentou Fátima Pais.
Receberam a notícia, ficaram um pouco em choque, mas “é sempre bastante bom recebermos o reconhecimento da comunidade”, considerou Bruno Dylan. A “fama dos cinco minutos” levou-os a serem procurados para entrevistas, o que no início foi um pouco “estranho”. Mas “claro que ficamos contentes por esse reconhecimento. Só nos ajuda, daqui para a frente”, adiantou Diogo Resende; “é gratificante para todos”, complementou Jorge Correia.

Maria João Leite


  
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