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Corria o mês de março, quando o país se trancou em casa. Escolas e empresas fecharam portas e miúdos e graúdos mergulharam no ensino à distância e no teletrabalho. As casas transformaram-se em salas de aula e escritórios e a vida pessoal teve de se conciliar com a profissional. Após algumas semanas, a Fenprof questionou os docentes sobre a experiência do novo regime de ensino: desgaste dos professores e agravamento das desigualdades entre alunos são ideias dominantes nas respostas ao inquérito.
O terreno era novo e fértil em incertezas, mas também cheio de aprendizagens e descobertas. Para perceber como correu a experiência doméstica do ensino à distância, a PÁGINA falou com três famílias, em duas das quais os encarregados de educação são também professores. “Ser professor do Ensino Superior e pai de dois alunos do Básico e Secundário teve alguns momentos caricatos. As minhas aulas foram todas previamente gravadas, para serem vistas pelos meus alunos no horário normal; por isso, a hora em que as gravava (à tarde) nunca coincidia com a hora a que os meus filhos tinham as suas aulas (de manhã). Mas, vivendo numa casa pequena, foi preciso alguma ginástica, além de vários auscultadores, para cada um poder ouvir e dar as suas aulas sem interferir demasiado com os outros”, conta José Sá Reis. Como docente, de uma forma geral, e tendo em conta a forma inesperada como tudo aconteceu, a experiência do ensino à distância foi positiva. Mas, embora reconheça potencialidades neste regime de ensino, a verdade é que para José Sá Reis não há nada como as aulas presenciais. “A conclusão que tirei destes meses é que muito dificilmente o ensino à distância pode ser um sucedâneo capaz do ensino presencial. Mas atenção: uma coisa é um curso pensado para ser dado à distância, em que a modulação, a duração ou os materiais de apoio são preparados para esse fim e que pode usar uma série de potencialidades que o digital oferece; outra coisa, muito diferente, é pedir a docentes que prepararam aulas para serem dadas em sala que as transformem em sessões online igualmente apelativas. Para isso, ninguém estava preparado.” José Sá Reis tem dois filhos: Filipe tem 18 anos e durante a quarentena frequentava o 12.º ano; Clara tem 10 anos e estava no último ano do 1.º Ciclo. “A minha filha até se esforçava por levar as coisas a sério, mas, na verdade, penso que encarou aqueles momentos no Teams mais como o recreio que lhe tiraram em março do que verdadeiras aulas. Já o meu filho pareceu-me sempre algo indiferente, para não dizer desmotivado, perante as aulas à distância. O facto é que os exames acabaram por lhe correr bastante bem. Logo se verá se foi ou não suficiente.” Filipe tinha como objetivo subir a média de candidatura ao Ensino Superior, ter boas notas no 12.º ano e uma boa prestação nos exames nacionais, para alargar o leque de cursos à escolha. Mas o ano letivo foi atípico: o segundo período terminou mais cedo e no terceiro período teve aulas online e realizou diversos trabalhos. “Esta interrupção inesperada fez com que os professores tivessem menos elementos de avaliação para decidir as notas da disciplina”, aponta Filipe, explicando que, em algumas disciplinas, os alunos realizaram apenas um teste. “Isto prejudicou alguns alunos que tiveram uma nota menos positiva no primeiro teste do segundo período e contavam com um segundo teste para subir a nota.” O ensino foi realizado através da plataforma Microsoft Teams. O regime à distância foi uma novidade para todos, que naturalmente levou a abordagens diferentes por parte dos professores. Segundo Filipe, uns optaram por dar a matéria nas aulas e testar a aquisição do conhecimento através de trabalhos, tirando as dúvidas por mensagem e em particular, enquanto outros preferiram que os alunos estudassem a matéria fora das aulas, para nessa altura poderem tirar dúvidas e realizar exercícios. “Preferi a primeira abordagem. Sendo do curso científico-tecnológico, senti dificuldade em algumas disciplinas, uma vez que são mais baseadas na experiência prática e na demonstração e resolução de exercícios”, algo que não é fácil realizar à distância. Mas houve matérias, mais teóricas, bem absorvidas; também havia menos ruído e distrações do que numa sala de aula. “Os aspetos que mais me surpreenderam foram a cooperação, o esforço e a compreensão, tanto dos professores como dos alunos. Penso que todos se esforçaram para que se tirasse maior proveito das aulas online, apesar de termos os meios reduzidos, e todos se disponibilizaram para ajudar sempre que aparecia algum problema técnico”, destaca Filipe, que, para este ano letivo, espera estarem reunidas condições para a realização de aulas presenciais; se não em todas, pelo menos nas disciplinas com uma componente prática, porque nas teóricas “não há tanta dificuldade em ouvir e tirar apontamentos da matéria através do computador”.
Vida pessoal versus vida profissional O balanço que Mónica Cardoso faz da experiência do ensino à distância é positivo. Mas essa avaliação é feita tendo em conta a função de professora, porque ser mãe de uma aluna do 3.º Ciclo e docente do 1o Ciclo não foi uma combinação fácil durante este período. “Os alunos mostraram-se resilientes, motivados e muito responsáveis, tendo em conta a faixa etária. Mas sem o apoio dos encarregados de educação, tal ‘sucesso’ não seria possível. Eles foram fundamentais, orientando os filhos na organização e na realização das tarefas diárias, na pontualidade e na participação responsável nas videochamadas”, explica Mónica Cardoso, referindo, no entanto, um “cansaço mental e físico muito grande”, dado o permanente contacto e os poucos momentos de pausa. “Havia sempre tarefas para corrigir e enviar, aulas para planear...” As exigências eram muitas e foi necessário esforço. Faltou tempo. E no duelo entre vida pessoal e vida profissional, a primeira saiu um pouco prejudicada. “A conciliação entre ser mãe e professora foi muito difícil de gerir, pois as aulas online e o trabalho inerente à sua planificação ocupava muito tempo. O trabalho ficou em primeiro lugar e a família em segundo, lamentavelmente. Felizmente, a minha filha é muito responsável e autónoma. A ajuda que lhe dei foi pontual, em apenas alguns trabalhos.” Eva tem 14 anos e frequentava o 8o ano de escolaridade, quando tudo mudou. De repente, o ensino passou a ser à distância e isso, no geral, foi difícil. “Senti que me distraía com mais facilidade”, começa por dizer. “Em determinadas disciplinas percebi que a aprendizagem das matérias presencialmente ou online não fazia grande diferença. Mas a Matemática e Físico-Química senti mais dificuldade, pois preciso do professor ao meu lado, para tirar dúvidas a qualquer momento, orientando o meu estudo”, explica Eva, acrescentando que “a avaliação online não é tão justa, porque temos recursos que podemos utilizar quando estamos a fazer fichas de avaliação, melhorando significativamente as notas”. No ano letivo que se iniciou, Eva deseja “que o ensino presencial não seja interrompido”, pois na escola “aprendo melhor, estou mais concentrada e, principalmente, junto dos meus amigos”. Também Mónica Cardoso prefere as aulas presenciais, não só porque “o afeto, o toque, o carinho, as brincadeiras e as brigas são muito importantes para a formação da personalidade e a obtenção de regras de convívio social” dos mais pequenos, mas também porque “há mais tempo para tudo: aprender e consolidar novas matérias, brincar, participar em projetos escolares... Enfim, para sermos felizes!”
Gestão de horários e responsabilidades Foi a meio de março que Sílvia Teixeira levou o trabalho para casa. Às tarefas do dia a dia, o tratar da casa e das refeições, que passaram a ser em maior número, juntaram-se os serviços administrativos e os momentos de apoio ao filho, que nessa altura frequentava o segundo ano do 1.º Ciclo. “No início, foi muito complicada a gestão de horários e das nossas responsabilidades, minhas e do meu filho.” Havia a ‘sorte’ de mãe, pai e filho terem um computador para cada um, mas o espaço era partilhado: a sala de estar e de jantar serviu de sala de aula e de escritório para a família. Assim, de perto, Sílvia acompanhou o filho no ensino à distância, “porque ainda estava no segundo ano e precisava de acompanhamento diário”.Pedro fazia as tarefas que a professora enviava e depois pedia à mãe para corrigir, tirando as dúvidas. Sílvia Teixeira foi assumindo, sempre que necessário, o lugar da professora de que o filho sentiu tanta falta. “Não gostei de estar sem a minha professora e os seus provérbios”, refere Pedro, que também não gostava de quando ficava sem nada para fazer. Mas, por outro lado, acha que o ensino à distância foi “uma boa estratégia”, destacando como fatores positivos a Escola Virtual e o plano de aula que a professora delineou. Entretanto, neste ano letivo, Pedro gosta de uma das novas medidas da escola que frequenta: as mochilas entraram no primeiro dia e são para ficar na escola, onde os alunos têm a oportunidade de fazer os trabalhos de casa, nos momentos de apoio ao estudo. “Mas não gosto de não poder levar lanche...” Ainda assim, regressar à escola deixou o Pedro “muito feliz”. Relativamente a este ano letivo, Sílvia Teixeira sente alguma ansiedade e medo de que os mais pequenos regressem ao ensino à distância. “Eles estão contentes por regressar à escola. Precisavam do convívio com os amigos e do próprio ambiente escolar, pois estar em casa durante tanto tempo afetou-os física e emocionalmente. Agora, para não voltarmos à situação de confinamento e ensino à distância, a maior responsabilidade é nossa, como adultos que somos, tendo cautela e implementando as medidas preventivas necessárias.”
AS PALAVRAS DOS PROFESSORES
Ainda se desconhecia que futuro estava reservado para o país e que consequências esse futuro iria ter na educação. Decorria o mês de maio, algumas semanas após o início do confinamento e da experiência do ensino à distância, quando a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) questionou os docentes sobre esse regime de ensino. Responderam ao questionário – Ensino à Distância: as perceções e a(s) palavra(s) dos professores – 3.548 docentes [respostas válidas], dos quais 96,1% lecionavam no setor público – a maioria (59%) no 3º Ciclo do Ensino Básico (CEB) e Ensino Secundário; 18% no 2ºCEB; 16% no 1ºCEB e 7% na Educação Pré-Escolar (EPE). “As respostas dos professores não deixam dúvidas, com a opinião maioritária a resumir-se numa afirmação que se poderá tornar icónica: o ensino não é isto, nem nada que se pareça!”, escreve Mário Nogueira, secretário-geral da organização sindical, na sinopse do inquérito, divulgado no JF-Jornal da Fenprof de julho. Sublinha, também, a solidariedade dos professores com os alunos, ao colocarem ao seu serviço “as casas, o computador, a internet, o telemóvel e, até, a sua privacidade”. Mário Nogueira destaca ainda dois tópicos relativos à experiência de ensino não presencial: “a desigualdade entre alunos, que se agravou, em alguns casos, perigosamente”, fruto da falta de apoios e de questões de ordem social que se agravaram (lembrando os dois milhões de trabalhadores que ficaram em layoff ou no desemprego) e o “desgaste dos professores”, decorrente da necessidade de adaptação a um novo modelo de atividade ou da dificuldade de acompanhar todos os alunos, atendendo as necessidades específicas de cada um.
Desigualdades agravaram-se Sobre a forma como trabalharam com os alunos, os professores responderam que utilizaram as plataformas digitais (89,3%) e o email (85,2%): as plataformas para trabalhar em grupo e o email para envio de documentos e trabalhos. “A utilização do suporte papel (15,4%) destinou-se, sobretudo, a garantir o contacto com os alunos que não tinham computador e/ou acesso à internet”, refere a Fenprof na apresentação dos resultados, que revelam ainda a utilização do telefone (9,6%) e das redes sociais (6,6%). Ainda assim, com estes recursos, a maioria dos professores (54,8%) sentia não chegar a todos os alunos. E o terceiro período já ia a meio. Seguindo as orientações do Ministério da Educação, e “apesar da situação desigual dos alunos no acesso e acompanhamento das atividades letivas à distância”, a maioria dos docentes (70,50%) lecionou novos conteúdos, mas só 47,8% afirmou que iria avaliar a nova matéria. Sobre a perceção dos docentes relativamente à adequação das medidas de apoio disponibilizadas aos alunos, 43,9% consideraram ser adequadas, 15,3% que não são adequadas e uma boa parte (40,8%) desconhecia essas medidas. “Apesar do esforço”, o questionário confirma que as desigualdades se agravaram, na opinião de 93,5% dos professores. A grande maioria (92,9%) considerou, também, que no ano letivo que agora se iniciou seria necessário “agir de forma a superar os défices do [ano letivo] que ainda não terminou, pois, por maior que seja o empenhamento de cada um, o resultado final ficará sempre aquém do pretendido para condições normais”. A maioria dos professores (65,1%) considera que o grau de exigência do ensino à distância é superior ao presencial, “principalmente pela necessidade de, após as sessões síncronas, estabelecer contactos individualizados que terão de ser através do email ou do telefone”. Para a maioria dos docentes da EPE e dos 1º/2º CEB, as emissões do Estudo Em Casa (RTP-Memória) foram um recurso positivo – “aliás, referem[-no] como único apoio positivo que o Ministério da Educação lhes fez chegar”. Para 8% dos docentes, o recurso televisivo foi muito bom, para 43,9% foi bom, para 40,5% foi insuficiente e 7,6% não tinham opinião sobre o assunto. A maior parte dos que consideraram o #EstudoEmCasa insuficiente, “fizeram-no, principalmente, pela falta de informação prévia adequada sobre os conteúdos de cada emissão”, o que dificultava a preparação da atividade com os alunos, de forma a aproveitar melhor o recurso. De referir, ainda, que a maioria dos professores considerou positivo o apoio prestado pelas escolas (86,5%) e pelos pais e encarregados de educação (91,5%); considerou negativo o apoio do Ministério da Educação (58,9%); e desconhecia ou não tinha opinião sobre o apoio prestado pelas câmaras municipais (60,3%) e juntas de freguesia (67,2%).
“ENSINO NÃO É ISTO, NEM NADA QUE SE PAREÇA”
O inquérito promovido pela Fenprof incluía questões de resposta aberta, para os professores expressarem o que sentiam. Foram registados mais de dez mil comentários (sob anonimato), que refletem a desmotivação e o elevado cansaço dos docentes, bem como o agravamento das desigualdades entre alunos.
(des)motivação “Gosto de ser professora, de estar na escola e olhar os meus alunos nos olhos e de perceber com um olhar as angústias e os receios, as dificuldades e os constrangimentos. Tenho uma opinião muito desfavorável em relação a tudo isto, não porque sou retrógrada ou antiquada, mas apenas porque houve uma pressa muito grande em ‘montar’ este espetáculo digital sem ter em atenção que não vamos chegar a todos os alunos. Na minha opinião, solução que não chega a todos não é solução.” “Sinto muita dificuldade em trabalhar à distância. Não sei como chegar a alguns alunos que não dão resposta aos trabalhos solicitados e não têm meios (internet, smartphone, computador). As aulas síncronas são insuficientes, pois os alunos estão constantemente a colocar dúvidas fora delas. Eles sentem-se perdidos e eu também. Dar conteúdos novos sem conseguir chegar a todos é injusto e desigual.” “Os elogios aos docentes feitos agora são despropositados, hipócritas, cínicos. A classe docente deu sempre o seu melhor, em todas as circunstâncias.”
(des)igualdade “Se os meios digitais são essenciais no âmbito do ensino à distância, onde estão os apoios para que todos os alunos possam estar online?” “A equidade, que já não era atingível, agora é uma completa miragem.” “Preocupa-me que os alunos mais desfavorecidos se sintam ainda mais desfavorecidos.” “Os alunos com dificuldades de aprendizagem vão ser mais prejudicados, pois alguns só trabalham na presença do professor.” “O ensino à distância não está em sintonia com uma escola inclusiva.” “Só o ensino presencial permite instruir, mas também formar cidadãos, diluir as desigualdades sociais, como inscreve a Constituição.”
(recursos) “Todos os recursos utilizados por mim foram comprados/pagos por mim: computador, internet e telefone. Nunca ninguém me perguntou se eu queria ou podia utilizar o meu computador e/ou telefone...” “Não tinha conhecimento, nem preparação necessária para lidar com muitas das ferramentas digitais. Por outro lado, também não tinha o equipamento digital apropriado. Tinha um computador obsoleto, totalmente incapaz de fazer frente às novas exigências. Ninguém me ajudou nesse aspeto.”
(cansaço) “Houve uma sobrecarga tremenda para os professores, que vão terminar o ano letivo completamente esgotados e que comprometem o seu ambiente familiar para poderem cumprir os seus compromissos profissionais.” “O trabalho docente triplicou. Os alunos procuram-nos a toda a hora e todos os dias recebo pedidos de esclarecimento e trabalhos enviados às 23 ou 24 horas... Deixaram de existir fins-de-semana e as jornadas de trabalho chegam frequentemente às 12 e 14 horas por dia.” “É insuportável estar em teletrabalho, sozinha, com três filhos e acompanhá-los nas tarefas escolares com dois portáteis. Como professoras cai-nos tudo em cima.” “Estando em teletrabalho, com o marido e com crianças, é impossível responder a todas as solicitações das escolas (minha e dos filhos, que também somos pessoas).”
Maria João Leite
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