Página  >  Reportagens  >  Livre Trânsito: Abertura ao mundo e a novas aprendizagens

Livre Trânsito: Abertura ao mundo e a novas aprendizagens

Tom viajou em outubro para o Camboja e Caché e JP partiram para São Tomé. Dani foi a Marrocos, Zacarias perdeu-se por Amesterdão, Kiko já visitou Nova Iorque e Danilo foi à Bulgária, enquanto Miro esteve no Uzbequistão e Milton passou por vários países dos Balcãs. Falamos de libertos, bonecos articulados que representam reclusos do Estabelecimento Prisional do Porto, no âmbito do projeto Livre Trânsito.

China, Suazilândia, Moçambique, Cuba, África do Sul, México, Croácia, Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Grécia, Palestina, Espanha e Finlândia são alguns dos países pelos quais os libertos já passaram. Os homens que estes bonecos representam estão privados de liberdade, mas as suas mentes viajam e abrem-se a novas aprendizagens, através deste projeto que surgiu em 2016, pelas mãos de Isabel Leal, professora do 1º Ciclo, do Agrupamento de Escolas de Matosinhos, que leciona no Estabelecimento Prisional do Porto, em Leça do Balio.
Os libertos foram criados inicialmente para um trabalho de final de ano, em que 15 bonecos articulados e saltitantes dançavam num filme de animação sobre os valores da União Europeia – o tema de trabalho desse ano. Isa foi o primeiro boneco a ser criado e representa a professora. Todos alinharam na proposta e foram fazendo os seus libertos com as caras alteradas e novos nomes à escolha. Os primeiros 15 bonecos articulados dançaram para o vídeo de animação Livre Dança. Hoje existem 53 libertos.
Terminado o trabalho, Isabel Leal não quis arrumar os libertos numa gaveta. E, inspirada no gnomo de louça que viaja no filme “O Fabuloso Destino de Amelie” e nas fotografias polaroid que o pai da protagonista vai recebendo de diferentes destinos, a professora lembrou-se – também a propósito de um ‘mochilão’ pela América Latina de uma colega de trabalho – de que eles podiam também viajar. E tudo começou com um liberto de braços abertos no Machu Picchu...

Fazer parte da viagem

As fotografias das viagens são partilhadas na página de Facebook ‘livre mente’. Os reclusos também vão sabendo pela professora por onde andam os seus libertos. “Eles acham muita piada, acham divertido, mas o impacto maior é quando as pessoas que os levaram vão lá”, revela Isabel Leal, explicando que, depois das aventuras, os companheiros de viagem vão à cadeia falar sobre a jornada e o destino, partilhando histórias e fazendo com que eles se sintam parte da experiência.
“Eles aí estão em foco, estão no centro das atenções e as pessoas brincam muito. Por exemplo, quando o Chico foi a Malta ‘provou’ uma cerveja. E, na apresentação, ele disse: ‘E era muito boa!’ Eles brincam com isso. A vida é um jogo, nós não temos de ser sempre sérios. Portanto, faz parte esta coisa de brincar”. Mesmo que tudo isto seja muito mais do que uma brincadeira, sublinha a professora, lembrando que o que acontece na viagem é “rentabilizado na sala de aula”, de forma a que seja “uma aprendizagem para todos: para eles, para os professores, para as pessoas que os levaram... Aqui toda a gente aprende; eu tenho aprendido imenso”.
Primeiro com as fotografias e depois com as apresentações, os alunos vão acompanhando as aventuras dos seus libertos. Nas aulas, as aprendizagens vão girando em torno da cidade ou do país que os libertos visitaram. Além de aprenderem coisas novas, esta é uma forma de começarem a sonhar. E até a demonstrar vontade de ir aqui ou ali... “As pessoas quando não conhecem não sonham, não sabem o que desejam. E quando começam a perceber que há um mundo todo a abrir-se, então já podem optar, já podem formular desejos.”
Isabel Leal dá o exemplo de um aluno do Ensino Secundário, que chegou a assistir às suas aulas e que pediu para também fazer um liberto. Gostava muito de filosofias orientais. “Se pudesse enviar o meu para um país do oriente...”, pediu. E a professora teve isso em conta. “Foi ao Japão com uma amiga minha.” Outro disse que gostava de ir a Nova Iorque e tudo indica que o Gui vai mesmo aos Estados Unidos. Há já, também, quem tenha manifestado vontade de percorrer pelos seus pés os caminhos do seu liberto. Um aluno do 5º ano quis fazer um boneco articulado e pediu à professora: “Mas não o mande para longe, que eu depois quero repetir a viagem que ele fez.” Ainda não aconteceu, visto ainda estar detido, “mas era interessante ele fazer; manifestou essa vontade, realmente não foi para muito longe e vamos ver o que acontecerá”, refere Isabel Leal.

Motivar para a aprendizagem

Um dos principais objetivos do projeto Livre Trânsito é motivar os alunos para a aprendizagem de vários saberes, como a Língua Portuguesa, leitura e escrita, Matemática, História, Geografia, Cidadania ou Ciências da Natureza. E tudo a partir das viagens dos libertos. O ‘P’ de pato dá lugar ao ‘P’ de pizza, quando se trata da iniciação à leitura. Um mapa na sala de aula permite aos alunos saberem onde se situam os países que os seus bonecos visitam. As despesas que fizeram no jantar ou a população de um determinado país são alguns dos desafios matemáticos que ajudam na leitura e escrita de números.
“Na educação de adultos não existem livros. Não temos esses materiais, temos de construir tudo. E já que o vamos fazer, vamos construir materiais que sejam significativos para eles. O mundo é um manancial de aprendizagens. Sobretudo porque eles são adultos, alguns já viajaram, outros têm esse desejo. A viagem é algo muito simbólico da liberdade”, considera Isabel Leal, frisando a importância das outras metas que o projeto tenta alcançar: a mudança de atitudes, a transformação das pessoas, a reinserção social.
O projeto funciona com as turmas de Isabel Leal e de Elsa Ferreira, do 1º Ciclo do Ensino Básico. O número de alunos das turmas vai variando ao longo do ano, dependendo das entradas e saídas da cadeia – afinal, “os alunos não cometem os crimes todos em outubro”... Além disso, nem todos os alunos estão ainda registados numa plataforma oficial, por falta de documentos, mas nem por isso deixam de frequentar as aulas. “Às vezes há pessoas que já têm o 1º Ciclo, o certificado do 4º ano, mas que não sabem ler nem escrever. E a cadeia aceita-os como alunos; é um direito de cidadania. E é de valorizar uma pessoa que quer aprender a ler e a escrever e que se inscreve”, sustenta a professora.

Da altura dos elefantes...

No Estabelecimento Prisional do Porto existem professores do Agrupamento de Escolas de Matosinhos e do Agrupamento de Escolas Gonçalo Zarco, que dão aulas do 1o Ciclo ao Ensino Secundário. “E eles também podem fazer a universidade”, destaca Isabel Leal. A frequência escolar não é obrigatória, mas muitos têm gosto de estar na escola e nas salas de aula. “Eles sentem que na escola vão evoluindo. Alguns começaram no 1º Ciclo e já estão no Secundário. Outros começaram no Secundário e já estão na universidade. E saem dali pessoas com mais bagagem, com outras ferramentas que podem ser úteis lá fora.”
Além de toda a aprendizagem que advém do projeto, Isabel Leal acredita que o Livre Trânsito lhes dá autoestima, liberdade de pensamento. “Quando as pessoas não conhecem, não aspiram a ter ou a fazer.” E frisa o impacto que o projeto tem nos alunos, “perceberem que alguém se preocupou com eles, que não o quis perder, que o quis apresentar a outras pessoas, que quis transformar a viagem numa viagem rica em termos de paisagens que vê”. E quando os seus companheiros apresentam as viagens, “eles sentem isso, que as pessoas se preocuparam”.
A professora recorda um dos alunos que, em tempos, andava com muitos problemas pessoais e que dizia que se sentia como uma formiguinha no meio de uma manada de elefantes. Depois da sessão de apresentação de uma viagem à Rússia, disse: “sentia-me uma formiguinha e agora sinto-me à altura deles, dos elefantes.”
Para participar no projeto e levar um liberto em viagem é necessário contactar Isabel Leal através da página de Facebook ‘livre mente’, combinar um encontro para que a professora possa conhecer os interessados e falar sobre o projeto. Enquanto houver entusiasmo por parte da docente e dos alunos, o Livre Trânsito vai manter-se em viagem. “Este projeto pode continuar sempre”, conclui Isabel Leal.

Maria João Leite (reportagem)
Ana Alvim (fotografia)


  
Ficha do Artigo

 
Imprimir Abrir como PDF

Partilhar nas redes sociais:

|


Publicidade


Voltar ao Topo