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Porto, 6 de novembro de 1919, onze horas da manhã. Nasceu Sophia de Mello Breyner Andresen, filha de Maria Amélia Burnay de Mello Breyner e de João Henrique Andresen. A notícia aqueceu aquele dia de inverno. A literatura ficaria mais rica e o mundo iria conhecer uma das mais consagradas poetas.
A poesia chegou-lhe quando era ainda muito nova. Aos três anos já sabia de cor a “Nau Catrineta”; aprendeu estes e outros versos mesmo sem saber ler, conheceu cedo Luís de Camões e Antero de Quental. Morava na Rua António Cardoso, mas a infância desfiou-se também na casa da avó, a reconhecida Casa Andresen (nome trazido pelo mar, da Dinamarca até aqui, pelo bisavô Jan). Espaço de família, de festa, de brincadeira, foi também um espaço de inspiração. Os jardins da Quinta do Campo Alegre – hoje Jardim Botânico do Porto – testemunharam o crescimento de Sophia. Ali colhia rosas na primavera e camélias no inverno. Ali partilhou a infância com o primo, que também se tornaria escritor, Ruben A. Na adolescência já escrevia poemas. Começou a escrever numa noite de primavera. O hábito da escrita permaneceu e acentuou-se nos anos seguintes, dando asas à felicidade que sentia, às letras que ordenavam ser formadas, às palavras que não se queriam calar. As flores, o mar, a casa. No palacete, que alberga hoje a Galeria da Biodiversidade, foi cumprido o desejo da escritora, manifestado no conto “Saga”, de colocar no átrio uma ossada de baleia que estava empacotada e arrumada na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. É o esqueleto de uma baleia azul. Imponente. Como todos estes lugares de Sophia, de onde vieram muitas das ideias e pensamentos mais tarde concretizados em papel.
Quando à noite desfolho e trinco as rosas É como se prendesse entre os meus dentes Todo o luar das noites transparentes, Todo o fulgor das tardes luminosas, O vento bailador das Primaveras, A doçura amarga dos poentes, E a exaltação de todas as esperas. [As Rosas, «Dia do Mar», 1947]
Não falta mar no mundo de Sophia. O verão tinha sabor ao sol e ao sal da praia da Granja. E da casa branca em frente ao mar enorme, de que fala num dos seus poemas, onde voltaria após o incerto e renasceria num mundo seu. Casa – também este um tema que não passa indiferente. Aquele lugar em Vila Nova de Gaia era um dos seus lugares sagrados. Fosse o Atlântico ou qualquer outro, o da Granja ou outro mais a sul, a este ou oeste, frio como o do norte ou morno como o algarvio, o mar estaria sempre presente. No cheiro de muitos dos seus versos, nas memórias dos dias quentes, na fluidez da alma. Foi na Granja que Sophia conheceu Francisco Sousa Tavares. Com ele dançou, partilhou o amor pela poesia e com ele casou em novembro de 1946. Das ondas do mar, nasceram versos e rimas, palavras alinhadas como as marés, na espuma, como linhas. O mar azul. Da cor do país que mais tarde viria a descobrir. Na Grécia emocionou-se com um mundo de cultura, história e beleza. De natureza e do Homem. Do divino. E do mar salgado. Sempre o mar.
I De todos os cantos do mundo Amo com um amor mais forte e mais profundo Aquela praia extasiada e nua, Onde me uni ao mar, ao vento e à lua. II Cheiro a terra as árvores e o vento Que a Primavera enche de perfumes Mas neles só quero e só procuro A selvagem exalação das ondas Subindo para os astros como um grito puro. [Mar, «Poesia», 1944]
Sophia foi para a capital estudar Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Era a cidade de Francisco e, depois da união, Sophia ficou a viver em Lisboa. Passada a nostalgia que sentia em relação ao seu lugar ao norte, adotou também a capital como casa. Foi lá que passou a viver e deu à luz cinco filhos: Maria, Isabel, Miguel, Sofia e Francisco. Era a eles que contava histórias inspiradas pelos seus lugares, os interiores e os físicos, os da infância, e foi por eles que começou a escrever contos para os mais pequenos. O primeiro de todos foi “A Menina do Mar” [1958], dezoito anos depois de ter editado os primeiros versos de uma bibliografia extensa [“Cadernos de Poesia”, 1940]. Além dos livros de poesia, seguiram-se outras histórias infantis, envolvendo fadas, florestas e jardins, cavaleiros, viagens, estátuas, magia, estrelas, o bem e o mal.
Iremos juntos sozinhos pela areia Embalados no dia Colhendo as algas roxas e os corais Que na praia deixou a maré cheia. As palavras que disseres e que eu disser Serão somente as palavras que há nas coisas Virás comigo desumanamente Como vêm as ondas com o vento. O belo dia liso como um linho Interminável será sem um defeito Cheio de imagens e conhecimento. [«No Tempo Dividido», 1954]
A vida não lhe passava indiferente – também a vida no sentido político e social. A angústia e a indignação perante a injustiça e o combate desigual estimularam a sua atitude participativa. Enfrentou o Estado Novo. Viu Francisco ser preso duas vezes. Foi vigiada pela PIDE, prestou declarações. Em 1957, tomou parte na campanha de Humberto Delgado e, até à Revolução dos Cravos, colaborou ativamente em vários movimentos de oposição ao regime. Foi um dos elementos fundadores da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. E chegou finalmente o dia da liberdade! E a poesia saiu à rua. Defendeu a cultura como sinónimo de liberdade. A cultura para todos. Esteve em luta. Foi política, deputada na Assembleia Constituinte, e foi interventiva. Até ao desencanto. Afastou-se da política partidária, mas sem nunca perder a alma inquieta.
Esta é a madrugada que eu esperava o dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo [25 de Abril, «O Nome das Coisas», 1977]
Há pessoas que permanecem no tempo, palavras que vão ecoar na eternidade, intenções que serão lembradas para sempre. Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar. Sophia partiu a 2 de julho de 2004, em Lisboa. A morte caminha no sossego do jardim. Deixou palavras com sabor a mar. Com sabor a casa, natureza, cidade, beleza, amor, liberdade. Uma obra reconhecida e premiada – foi a segunda mulher a receber o Prémio Camões, em 1999 –, admirada ainda hoje e pelos tempos do amanhã. Os restos físicos de Sophia descansam no Panteão Nacional, entre outras figuras marcantes do país. Todo o resto de Sophia descansa inquieta na mente de quem bebe a sua obra. Navega no infinito.
Inventei a dança para me disfarçar. Ébria de solidão eu quis viver. E cobri de gestos a nudez da minha alma Porque eu era semelhante às paisagens esperando E ninguém me podia entender. [«Coral», 1950]
Maria João Leite
(Poemas retirados do sítio da Biblioteca Nacional de Portugal dedicado a Sophia de Mello Breyner Andresen)
Imagem retirada da ediação 214 da revista A Página da Educação
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