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Agrupamento de Escolas de Vilela: Vamos começar a praticar ética?

Os valores já existiam em documentos dispersos e já estavam implementados no agrupamento, mas era necessário juntar tudo num documento único para que fosse mais fácil interiorizá-los por toda a comunidade educativa. Depois de um ano de trabalho, nasceu a Carta Ética do Agrupamento de Escolas de Vilela.

A Carta Ética engloba os valores e os padrões de conduta que caracterizam o agrupamento de Vilela (Paredes), mostram a sua identidade, sendo uma base de compromisso de todos os seus membros, docentes, alunos e pessoal não docente. É um manual de boas práticas, com princípios e deveres fundamentais, rumo a “uma escola cada vez mais humanista, reflexiva, acolhedora e inclusiva”, como se lê no documento.
O processo de reflexão contou com a colaboração ativa do Núcleo de Inovação Pedagógica, que conta com representantes de docentes dos vários níveis de ensino do agrupamento – do pré-escolar ao Ensino Secundário. O documento contou também com o apoio de um Conselho de Acompanhamento, constituído por Alberta Rangel (docente aposentada), Albino Pereira (diretor do agrupamento), António Nóvoa (reitor honorário da Universidade de Lisboa), Isabel Baptista (provedora de ética, da Universidade Católica, Porto), Joaquim Azevedo (Universidade Católica, Porto) e José Caride Gómez (Universidade de Santiago de Compostela).
Afirmar e desenvolver valores que sustentam a identidade institucional do agrupamento; afirmar e desenvolver comportamentos adequados de aprendizagem e de participação na vida escolar; afirmar e desenvolver uma cultura de rigor, inovação e excelência na intervenção educativa; afirmar e desenvolver práticas de trabalho comprometidas e colaborativas são os grandes objetivos da Carta Ética, aliados à promoção do desenvolvimento integral do aluno, “apostando na formação de cidadãos autónomos, críticos, empreendedores, solidários e preparados para intervir conscientemente num mundo em constante mudança”, e à afirmação de um agrupamento de referência, “que se distinga pela sua dinâmica e qualidade, onde se vençam desafios e se ultrapassem diferenças, promovendo a integração e participação da comunidade”, refere o documento.
O lançamento formal da Carta Ética, para professores e assistentes técnicos e operacionais, decorreu na celebração do Dia do Agrupamento, assinalado a 4 de julho. Os alunos conheceram a primeira edição do documento durante a semana PBL (Project Based Learning), que ocorreu no início do ano letivo. Todos os níveis de ensino exploraram o tema e os alunos desenvolveram trabalhos, para melhor interiorizarem os princípios. “Havia a  necessidade de dar a conhecer e de fazer as pessoas perceberem o que é isto, caso contrário, não se pode recorrer a um documento se não há esse conhecimento”, explicou Albino Pereira, diretor do agrupamento, lembrando que a implementação da Carta Ética “acontece todos os dias”.

Crescer como aluno e como pessoa

Nuno Almeida tem 15 anos. Ouviu falar da Carta Ética durante a semana PBL. “Achei uma ideia interessante, sendo que é um conjunto de orientações para o bem-estar da comunidade escolar”, explicou o estudante do 10º ano, considerando que todas as boas práticas abordadas no documento vão ajudá-lo na formação dos seus valores, como aluno e como pessoa.
“Antes de haver esta Carta Ética, os valores já eram obviamente implementados na escola por toda a comunidade, mas acho que com este documento começaram a ser falados e a comunidade começou a importar-se cada vez mais. Isto forma-nos também para o que nos espera lá fora, uma realidade completamente diferente, já que aqui estamos acolhidos por todos os professores e lá fora não estamos... Então, os valores são o que nos permite o respeito pelas outras pessoas, comunicar sem preconceitos e ter uma mente aberta que nos dá mais horizontes”, disse à PÁGINA, adiantando que o facto de estar impressa ajuda os alunos a terem “consciência” do que é a Carta Ética, “as orientações para uma comunidade boa e saudável”.
Também Mara Fernandes, de 12 anos, considera a Carta Ética muito importante, “porque devemos começar a aprender desde pequenos a ser cidadãos, para no futuro podermos ter um bom país”. A aluna do 7º ano lembra que este é um guia, “para nós sabermos como é que devemos ser para, futuramente, sermos bons cidadãos”. Embora esteja online, o documento existe em papel, conferindo mais responsabilidade a todos – afinal, não é só para alunos, mas para toda a comunidade educativa. “Temos todos de seguir estes valores”, destacou.

As emoções, as cores e os valores

Na Escola Básica de Vilela, para melhor entenderem o significado da Carta Ética, os alunos do pré-escolar e do 1º Ciclo trabalharam, durante a semana PBL, as emoções associadas a cores: a alegria associada ao amarelo, a raiva ao vermelho, o medo ao roxo, a tristeza ao azul e a aversão ao verde. As turmas aprenderam o significado dessas emoções, como as sentem e como podem lidar com elas, e criaram mascotes que podem simbolizar na turma “um reforço positivo ou uma forma de sair dessa emoção”, explicou à PÁGINA Quitéria Barbosa, coordenadora do estabelecimento.
“Se um aluno está na emoção da raiva, representada pelo vermelho, trabalhamos com a mascote a forma de sair da raiva, visualizando a cara com que fica quando está nessa emoção. Quando estamos na tristeza, no roxo, o polvo [a mascote] pode ter aqueles tentáculos todos, que representam a tristeza alargada, mas pode ser contrariado. A tristeza, assim como todos os sentimentos, devem ser vividos por todos nós. Nós temos de os sentir. A emoção é pele, o sentimento já é interior”, referiu Quitéria Barbosa.
Através das emoções e das cores, os alunos mais pequenos conseguiram entender os valores de que fala a Carta Ética, associando-os aos comportamentos que têm quando vivem determinados sentimentos. O documento, “precioso e único”, foi trabalhado ao pormenor, mas vai ser matéria de estudo ao longo de todo o ano.
Pedro Moura tem 6 anos, anda no 1º ano e gostou dos trabalhos que se fizeram, “porque assim aprendemos todas as emoções”. Letícia Gusmão, de 8 anos, anda no 3º ano e contou o que pensa da Carta Ética: “São os comportamentos que temos, os bons e os maus. Por exemplo, prestar atenção na aula ao que a professora está a falar é um comportamento bom; brigar com os colegas, com os amigos, no intervalo, não é.”
Na escola, há novelos, bonecos, desenhos, pinturas. Árvores desenhadas a giz, a marcador ou a impressões digitais, escritas com os valores da justiça, gratidão, amizade, união, paz, responsabilidade, em Português e em Inglês – expressões artísticas dos valores que compõem a Carta Ética. É num desses quadros, onde se lê um texto sobre o documento, que se lança a pergunta "Então, pessoal, vamos começar a praticar ética?" E pelo que se pôde constatar, os alunos já aceitaram o desafio.

Maria João Leite (reportagem)

Fragmento da imagem publicada na revista A Página da Educação 214

ORA DIGA LÁ...
Albino Pereira

Como decorreu este processo? Exigiu muita reflexão?
Tudo começou no Núcleo de Inovação Pedagógica, que é um grupo constituído por representantes de docentes de vários ciclos de ensino – no agrupamento temos desde a Educação Pré-escolar até, como costumo dizer, à educação pré-universitária, até ao final do 12º ano. Reunimos representantes dos vários ciclos, com as várias visões, e sentimos necessidade de passar para um documento aglutinador, que realmente fosse orientador, aquilo que são as práticas em termos de princípios, de valores, de procedimentos disciplinares. Tudo isso estava disperso por vários documentos, desde o Estatuto Ético e Disciplinar dos alunos ao Regulamento Interno, ao Projeto Educativo, ao Plano de Ação para a Promoção da Disciplina... Ficava uma coisa muito extensa e nós precisávamos de algo mais simples, que fosse facilmente interiorizado por todos os elementos da comunidade educativa.

E foi difícil condensar tudo?
Conseguir condensar algo tão complexo e extenso sem perder o sentido das coisas, foi bastante difícil. Deu muito trabalho. Trabalhámos um ano letivo em torno deste documento.

Qual o principal objetivo?
O nosso principal objetivo é haver uma identificação com aquilo que pretendemos que seja o caráter único deste agrupamento. Portanto, a identidade do agrupamento tem de estar acima de tudo. Nós pretendemos poder dizer, perante um comportamento menos assertivo, ‘nós aqui regemo-nos pela Carta Ética e, portanto, não aceitamos esse tipo de comportamento’.

O que destaca no documento?
Trazer aquilo que são os comportamentos éticos para o terreno, a responsabilização de cada um pelos seus próprios comportamentos e introduzir a palavra ‘ética’ no dia a dia. Acho que foi o mais importante para todos.

E qual foi o impacto na comunidade educativa?
Foi bastante significativo. Houve um envolvimento muito grande. Foram feitos trabalhos muito interessantes no início da semana PBL (Project Based Learning). E por todos, desde os meninos do pré-escolar até aos alunos do Ensino Secundário.


  
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