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A PÁGINA perguntou a filhas e filhos de professores sobre as suas experiências enquanto tal e o que pensam sobre a profissão docente e o seu reconhecimento. As primeiras respostas, no feminino.
1. Como é/foi serem filhas de professores nas diferentes etapas das vossas vidas? 2. A condição de filhas de professores traduz alguma (des)vantagem? 3. Durante o percurso escolar individual, que ‘custos’ e ‘benefícios’ sentiram por serem filhas de professores? Em que nível de ensino essas marcas foram mais decisivas? 4. Qual a influência (in)direta dos pais no vosso percurso escolar? 5. Enquanto alunas, o que mais valorizaram nos vossos professores? Empatia e relacionamento? Capacidade de ensinar ou de estimular a aprendizagem? Transmissão ou construção de conhecimentos? Confinamento aos programas ou alargamento de horizontes? 6. Em algum momento consideraram a possibilidade de virem a ser professoras? 7. Enquanto futuras mães, o que esperam dos professores dos vossos filhos? 8. Considerando a importância da profissão docente e da relação educador-educando, justifica-se uma eventual candidatura dessa relação a património imaterial da humanidade (UNESCO)?
Mariana Magalhães de Andrade*
1. Ser filho de professora nem sempre é fácil. As expectativas de desempenho escolar são sempre mais altas, quer por parte dos pais, quer da escola. Na escola primária, devemos ser os primeiros a aprender a ler, a dar menos erros, a saber a tabuada de cor, a escrever textos criativos. Na adolescência e juventude, devemos ser os mais responsáveis e os mais bem-comportados, os mais aplicados e os que mais respeitam os professores. Afinal, partilhamos o teto com um. Mas nem tudo é mau. Temos explicações privadas para os testes e ajuda extra nos trabalhos de casa. Temos uma enciclopédia ambulante que sabe responder a todas as perguntas e o significado das palavras mais rebuscadas. Temos uma super-heroína que depois de aturar vinte e tal crianças, muitas horas por dia, ainda tem tempo e carinho para nós. 2. A condição de filha de professora, no contexto escolar, traduz-se numa garantia de educação. Nunca percebi o porquê, mas durante todo o meu percurso escolar vi os meus professores serem mais exigentes comigo e com os meus colegas filhos de professores. Não considero isto uma desvantagem, muito pelo contrário. A verdade é que tive uma educação de qualidade, completada em casa. Mas há inúmeras desvantagens. Os professores trabalham demais em casa. Planificam aulas, corrigem testes, fazem relatórios, constroem materiais para os alunos. Estão sempre preocupados com os alunos que não aprendem. Estão sempre a estudar, sempre em formação. E têm reuniões infindáveis. A minha mãe esteve sempre presente nas alturas em que precisei, mas lembro-me da angústia que sentia quando se aproximavam os concursos e nunca sabia onde podia ser colocada. Depois que ficou em Quadro de Agrupamento pensei que as coisas iam melhorar, mas resolveu tirar mestrado e está sempre envolvida em projetos educativos e dinâmicas de formação. 3. Enquanto filha de uma professora do 1o Ciclo, as marcas foram mais decisivas durante os primeiros quatro anos de escolaridade. Tinha de ter uma caligrafia cuidada, ler com expressividade, saber a tabuada de cor e nada de contar pelos dedos. Cedo, tive de aprender a desenvolver o cálculo mental. Tive o grande benefício de ter uma professora em casa, capaz de me ajudar a resolver qualquer problema e a explicar-me qualquer dúvida na hora. Infelizmente, ou felizmente, talvez, nunca me escapuli de fazer os trabalhos de casa diariamente, nem de uma revisão geral na véspera de cada teste. Na altura, pensava-os como prejuízos, “que injustiça!”, mas claramente foram um grande benefício. A minha mãe educou-me para a autonomia e a responsabilidade. Nos outros níveis de ensino deixou de ser tão exigente comigo, mas seguia de perto o meu percurso escolar. 4. Os meus pais nunca me influenciaram a seguir uma área específica. Sempre me incentivaram a construir o meu próprio caminho, a ser aquilo que eu quisesse, o melhor que conseguisse. O meu pai é médico, mas nunca me pressionou para seguir medicina. A minha mãe nunca me pressionou ou sugeriu um percurso universitário específico. Claro que, indiretamente, ambos tiveram uma grande influência sobre mim. A minha mãe lia-me muitas histórias e, com ela, cedo descobri o prazer da leitura, da escrita e das expressões artísticas. Obrigou-me sempre a refletir sobre as minhas opções e a assumir as minhas responsabilidades. O meu pai desenvolveu em mim o gosto pela ciência e transmitiu-me a paixão pela história e pelos museus. 5. Enquanto aluna, considero que os melhores professores são os que nos ensinam a voar. É evidente que a empatia, a capacidade de ensinar e a construção de conhecimentos são fatores importantíssimos, mas o alargamento de horizontes e o aguçar do espírito crítico, para mim, ocupam o primeiro lugar. 6. Não. Honestamente, nunca pensei muito sobre o assunto, mas em nenhum momento foi uma profissão que me atraísse. Talvez por ouvir os desabafos da minha mãe, desgostosa por querer ensinar a quem não quer aprender, ou por assistir ao flagelo das avaliações, ou por achar um terror ter quase trinta crianças, ou pior, adolescentes, fechados numa sala, sob a minha responsabilidade. 7. Espero que os professores dos meus filhos sejam tão bons ou melhores do que os meus. Espero que os ensinem com dedicação e com carinho, que lhes incutam o gosto pela leitura e pela aprendizagem. Espero que tenham paciência e uma mão firme, prevenindo os comportamentos desviantes. Espero que estimulem a sua criatividade e que os ajudem a descobrir talentos escondidos para construírem o seu percurso de vida com liberdade e responsabilidade. Os meus filhos não terão uma mãe professora, mas terão uma avó pronta a ensinar e a educar com todo o afeto do mundo. 8. Sem dúvida que sim. Os professores moldam e educam os adultos do amanhã. Ensinam-nos, mesmo quando não querem aprender. Educam-nos, mesmo quando não querem ser educados e têm uma grande influência sobre eles, mesmo que não se apercebam. A educação é a única maneira de mudar o mundo a longo prazo, de alterar mentalidades e incutir novas ideias e ideais. E os professores ocupam um lugar de destaque no desenvolvimento cognitivo e emocional de todas as crianças. O seu trabalho devia ser mais valorizado. Deveriam ser reconhecidos e exaltados, nomeadamente através dessa candidatura.
*22 anos, estudante de Ciência Política na Universidade Fernando Pessoa, filha de professora do 1º Ciclo do Ensino Básico
Mafalda Costa Santos*
1. Na minha infância fui muito acompanhada, principalmente pela minha mãe, que dedicava diariamente tempo para acompanhar os meus estudos. Durante a adolescência já não senti tanto, pois os meus pais chegavam a casa exaustos e com trabalho da escola para fazer. Mais tarde, apenas me ajudavam na correção de trabalhos. 2. Senti vantagem pelas ajudas que tive fora da escola. Desvantagem por sentir que o trabalho dos meus pais vinha sempre para casa, onde devia ser eu a ter a atenção. 3. Beneficiei de mais manuais, fichas, material escolar e livros de literatura infantil em casa. No que toca a prejuízo sinto que passei mais tempo na escola do que qualquer outro aluno à espera dos meus pais, por precisarem de estar na escola deles a desempenhar tarefas. 4. Os meus pais contribuíram para o meu sucesso escolar ajudando-me com trabalhos e na preparação de testes ate ao 6o ano. Incentivaram também a aprendizagem do inglês fora da escola desde os 6 anos, inclusivamente quando já estava na faculdade. Tentaram sempre motivar-me a ter as melhores notas possíveis para poder escolher dentro de um maior leque de opções na candidatura ao Ensino Superior. 5. O que mais valorizei foi a empatia e a capacidade de estimular os alunos. 6. Nunca, porque sempre tive noção de que é uma classe desvalorizada. E cada vez mais é complicado dar aulas a alunos que apresentam tantos problemas de comportamento. 7. Espero que estejam bem preparados cientificamente e motivados. 8. Penso que sim. Reconhecendo e valorizando a profissão docente, investimos no futuro.
*18 anos, estudante de Engenharia Informática e Computação na Universidade do Porto, filha de professores do 1º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário
Joana Costa Santos*
1. Foi bom, essencialmente até ao 9º ano, porque no 1º Ciclo a minha mãe acompanhou as minhas aprendizagens e ajudou diariamente na elaboração dos trabalhos de casa. Além disso, insistia que eu dedicasse tempo para a leitura de livros e levava-me às bibliotecas municipais. Nos ciclos seguintes, a ajuda na preparação dos testes e no esclarecimento de dúvidas era uma tarefa repartida entre a minha mãe e o meu pai. 2. Na minha opinião, trouxe vantagens e desvantagens. Vantagens, porque tinha sempre uma ajuda garantida e mais facilidade de acesso a material escolar. Desvantagens, porque havia uma maior exigência, quer na escola, quer em casa, bem como dificuldades na conciliação dos horários dos meus pais em alguns dias da semana. 3. Senti maiores benefícios no 1º Ciclo pelo grande acompanhamento escolar que tive da minha mãe. 4. A ‘pressão’ que senti durante os 12 anos de escolaridade obrigatória por parte dos meus pais acabou por ser benéfica, embora na altura pensasse o contrário, para ter tido sucesso nos meus estudos. Embora me tivessem aconselhado os percursos com maior saída profissional, isso não foi obstáculo para a escolha que fiz. 5. Sempre considerei fundamental a relação de empatia entre os alunos e os professores para a passagem do conhecimento. No entanto, também mantenho na memória aqueles professores que tinham bom conhecimento científico e usavam técnicas de aprendizagem que motivavam a autonomia e o sentido de responsabilidade. 6. Sim, quando era mais pequena, coloquei essa hipótese. No entanto, considerando as condições de trabalho que os meus pais contavam e o que eu assistia na sala de aulas, com alunos desmotivados, com comportamentos inadmissíveis, fizeram com que reconsiderasse esse ‘sonho’. 7. Espero professores motivados, com melhores condições de trabalho e melhores salários e que exerçam a profissão com vocação e qualidade de ensino. E, ainda, escolas melhores e mais apetrechadas. 8. Ainda não tenho opinião formada sobre o assunto.
*30 anos, nutricionista, filha de professores do 1º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário
Maria Melo Correa*
1. Faz-nos ter uma maior perceção do trabalho dos professores, das exigências que a profissão implica e do tempo despendido na escola. Na infância, a perceção era que a profissão de professor permitia sair cedo e ir buscar-me à escola cedo. A perceção de agora é que o tempo de trabalho é muito maior do que há 20 anos. 2. Não considero que traga desvantagem, a não ser as horas de trabalho não letivo que, atualmente, são despendidas em trabalho na escola e em casa. Vantagem, sim, no sentido de haver uma preocupação em acompanhar o percurso escolar dos filhos e de ter uma maior perceção do ensino e de tudo o que está implicado no processo educativo. 3. Benefícios, acompanhamento escolar minucioso e respeito pelos professores. Prejuízos, nenhum. 4. A influência direta foi seguir a mesma profissão da minha mãe, por ter uma boa referência do seu trabalho e por conviver diariamente com essa experiência. 5. Sem dúvida, empatia e relacionamento com os alunos, motivação dos alunos e inovação nos métodos utilizados na construção do conhecimento. 6. Sim. Pela experiência e pelo convívio que tinha com a profissão. 7. Filhos dedicados e estudiosos, com um percurso escolar ambicioso. 8. Não. Por não se considerar uma herança cultural do país nem ter em si um saber-fazer intrínseco.
*28 anos, educadora de infância, tal como a mãe
Beatriz Guardado Mosa*
1. Como assim? É relativamente parecido com ser filho de qualquer outra pessoa. Só temos de nos habituar, ao longo do tempo, a ver os nossos pais trazerem muito trabalho para casa e deitarem-se tarde por causa de testes, de uma ata que tinha de ser perfeita ou de um anexo que não existe. Mas, para alegrar, temos em casa um ser muito mais compreensivo para os nossos problemas e, geralmente, uma pessoa muito mais culta, com bastante mais para nos ensinar. 2. Para já, os professores fartam-se de trabalhar e recebem migalhas. No meu caso, nunca me faltou nada, mas, por vezes, o tempo que a minha mãe podia ter passado comigo foi para trabalhar para a escola. Em termos de vantagens, posso dizer que se tem pais muito mais atentos, porque, de certa forma, entendem muito bem todos os nossos problemas na escola, porque esse é o meio deles. Além disso, bons professores são necessariamente pessoas cultas, e isso transmite-se. 3. Bem, tive sempre o enorme prejuízo de partilhar a minha mãe com todos os alunos dela [riso]. O que posso dizer... sou muito possessiva. Em relação aos benefícios, sei que, sendo a minha mãe professora, me tornei mais sensível e nunca fui daquelas crianças que não respeitavam os professores só porque sim. O momento em que aprendi mais não foi em nenhum nível de ensino, foi nestes últimos anos de trabalho da minha mãe. Tornei-me uma pessoa que sabe da mesquinhez que existe no mundo, sabe que as pessoas trabalham e trabalham e dão as suas almas para, no fim, serem abandonadas, como os professores estão a ser neste momento. Mas isso não fez de mim conformista ou alguém que quisesse desistir; deu-me ainda mais força para lutar por aquilo em que acredito. 4. Sou de comunicação. Nisto não houve qualquer intromissão da minha mãe, pelo menos diretamente. Contudo, cresci rodeada de música, cinema, livros e muitas outras coisas que me fizeram o que sou hoje e me levaram a fazer as escolhas que fiz. Por isso, sim, a minha mãe ajudou-me, através da liberdade, a ser quem sou hoje, e a minha liberdade levou-me ao curso de Comunicação, ao meu amor por História (curso da minha mãe) e à minha ânsia de ter um mestrado em cinema. 5. Só posso falar de mim, okay? Sem empatia e sentimento, nem vale a pena tentar. Estimular a aprendizagem, sempre. Transmissão de conhecimentos... Vá, temos de aprender a pensar sozinhos. Alargamento de horizontes... Eles têm que nos dar o mundo, mas só nós o podemos percorrer. 6. Acho que, numa determinada fase, todos os filhos de professores querem ser professores. Mas isso é antes de ‘cair na real’ [riso]. A sério, percebi logo aos sete anos que não era para mim, era muito difícil. E, passados estes anos todos, ainda tenho mais a certeza de que não é um trabalho que se queira; tudo piorou imenso, o respeito acabou e ninguém deve trabalhar sem respeito e sem amor. Antigamente, ensinar representava uma paixão; agora parece que os ‘donos do Mundo’ querem fazer dos professores androides programados para ensinar o obrigatório, sem expressar qualquer tipo de sentimento. Credo, Orwell was right! 7. Muito fácil. Quero que, acima de tudo, sejam felizes e amem o que fazem. Vi, durante muito tempo, a minha mãe a amar ser professora, até ser obrigada a chegar ao momento em que já estava demasiado cansada para isso. Quero que os professores dos meus filhos sejam respeitados, porque sem isso nunca poderão amar o que fazem e, consequentemente, não o poderão fazer no seu melhor. 8. Na minha opinião? Sim! Até poderia dizer que ser professor se pode considerar uma profissão de risco... [riso]. Agora a sério: como aluna, considero que uma parte de mim foi construída por todas as boas e más experiências no ensino. Toda a gente sabe que um bom professor, amante da sua disciplina, faz nascer nos alunos uma espécie de ‘chama’; também se sabe que um professor cansado e sem vontade faz com que possamos odiar um determinado assunto. As nossas opções de vida, de emprego, e até as políticas, são condicionadas pelos nossos professores. De certa forma, os professores ajudam a interpretar o mundo, tal como a família. O ensino pega nas pessoas numa fase em que ainda somos ‘barro’, e esta é a fase em que podemos ser modelados – este é o principal trabalho de um professor. Além de tudo o que nos ensinam, o mais engraçado é que nos ‘levam para casa’, ou seja, criam laços connosco muito facilmente e acolhem-nos nas suas vidas, o que os leva a envolverem-se muito mais. O professor é também um amigo, alguém em quem podemos confiar.
*21 anos, estudante de Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia na Universidade do Porto, filha de professora do Ensino Secundário
A Página da Educação
Fragmento da imagem publicada na revista A Página da Educação 213
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