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Não é fácil antecipar o que temos pela frente

A pandemia foi um duro golpe em todos os setores da sociedade. Fechou o mundo em casa e virou vidas do avesso. Até que chegou a hora de seguir em frente, com adaptações e reinventes, tratando feridas e olhando o futuro incerto com coragem e esperança.
Os impactos da pandemia fizeram-se sentir a vários níveis, dos alunos aos professores, da escola aos pais. Para refletir sobre a forma como crianças e jovens foram afetados por tudo isto, como os professores, as escolas e as famílias lidaram com a situação, a PÁGINA ouviu algumas opiniões especializadas e expectativas quanto ao futuro. 

JOAQUIM FIDALGO
Professor Universitário; comentador da RTP

Enquanto observador/comentador da atualidade, quais lhe parecem ser as mudanças mais significativas em curso? Que realidade(s) a pandemia veio revelar ou tornar mais evidentes?
Se há uma palavra que eu associo a tudo o que a pandemia trouxe às nossas vidas, é ‘incerteza’. Mesmo que nem tudo fossem certezas antes da pandemia, apesar de tudo, havia uma certa estabilidade e um modo de vida que dávamos mais ou menos por adquirido. Algumas ameaças de que as coisas podiam mudar (como, por exemplo, os impactos das alterações climáticas) eram sempre vistas com preocupação, sim, mas uma preocupação longínqua, distante, perigosa daqui a muitos anos... E cenários como este, da pandemia, só nos passavam pelos olhos em filmes de ficção científica.
De repente, tudo isto foi abalado. Afinal, o perigo podia estar aí, ao virar da esquina, traduzido num simples vírus microscópico que, do dia para a noite, se espalhava pelo mundo todo. Pelo mundo todo, sublinho. Pelo Norte e pelo Sul, pela Europa e pela África, entre brancos e negros, entre cristãos e muçulmanos, entre novos e velhos, grandes e pequenos, homens e mulheres, ricos e pobres. Todos os humanos. E isso, imagino, terá decerto consequências profundas no modo como olhamos para a nossa vida, para a sua ainda maior fragilidade. Tudo fica agora mais incerto, mais fora do nosso controlo, se é que queremos continuar a viver em sociedade, e não isolados numa ilha no meio de nada. Pouco depois do início da pandemia, li uma entrevista interessantíssima de Edgar Morin, onde ele foca precisamente este ponto: a necessidade de aprendermos a aceitar as incertezas e a viver com elas, “quando afinal a nossa civilização nos inculcou a necessidade de certezas cada vez mais numerosas sobre o futuro, embora muitas vezes frívolas e ilusórias”. Cito no original: “L’arrivée de ce virus doit nous rappeler que l’incertitude reste un élément inexpugnable de la condition humaine” [Nous devons vivre avec lincertitude, https://lejournal.cnrs.fr, 06.04.2020]. E é esta a filosofia que Morin diz ter adotado para si: “Attends-toi à l’inattendu”; “espera o inesperado”.
Mesmo no domínio científico, a pandemia trouxe-nos um ensinamento importante: afinal, a Ciência não é um conjunto de verdades absolutas e de afirmações irrefutáveis, como muita gente crê. Os cientistas também têm dúvidas, também têm opiniões divergentes – como vimos em tantos que passaram a participar diariamente nas notícias sobre a covid – e, portanto, também aqui há que viver com a incerteza. Mas, diz Morin, é precisamente assim que a ciência avança, através da discussão, do debate, da controvérsia. E não há mal nenhum nisso, mesmo que não nos dê as certezas de que tanto gostávamos...

O acesso à saúde e a resposta do Estado à crise sanitária, que balanço?
Parece bastante consensual a ideia de que um serviço público de saúde com as características do nosso Serviço Nacional de Saúde (geral, universal, tendencialmente gratuito) provou ser de um valor absolutamente inestimável na situação de emergência que enfrentamos. Mesmo gente tradicionalmente pouco adepta deste tipo de serviço fornecido pelo Estado e mais voltada para a oferta privada (por razões sobretudo ideológicas) acabou por concordar que a resposta concreta do SNS, com todas as suas limitações de meios materiais e humanos, foi decisiva para uma boa resposta à pandemia.
Lembremo-nos das primeiras semanas de crise, quando se multiplicavam as idas à varanda ao início da noite para aplaudir, em comunidade emocionada, o esforço tremendo dos nossos médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar... Palmas sinceras, genuínas, que vimos em Portugal, mas também em Espanha, França, Itália... Julgo que esta compreensão ajudará a que se invista mais no SNS e se melhore a sua capacidade de prestação de cuidados de qualidade. Mesmo que alguma oferta privada continue a existir (e decerto a aumentar, pois já se viu que constitui um campo de negócio muito atrativo), ela será, sobretudo, complementar e não alternativa – a não ser quando seja objeto de convenções.

Enquanto professor, qual a perceção sobre as consequências no ensino, nomeadamente no Superior? A Escola chegou a todos? Que vulnerabilidades?
Um dos impactos mais fortes da pandemia teve a ver com a ne- cessidade de passarmos todos, quase da noite para o dia, a fazer ensino à distância, através dos computadores e das plataformas de comunicação, tipo Skype ou Zoom. Isso pôs em evidência, desde logo, o facto de haver ainda muitas desigualdades no país, quer em termos de equipamentos, quer de acesso a redes de alto débito, quer de competências informáticas. E se tal é verdade para os estudantes (mais nos primeiros níveis de ensino do que no Superior, ao qual estou ligado), é também verdade para os professores. Alguns já estariam habituados a trabalhar com estas coisas e com estes processos, mas muitos outros não – e tiveram de aprender de um dia para o outro... Nesse sentido, julgo que as coisas até acabaram por correr bastante bem, tal o esforço que foi pedido a toda a gente e a generosidade com que toda a gente tentou dar o seu melhor nestes novos domínios do tele- -ensino e do teletrabalho. Agora, vale a pena refletir, e discutir, que repercussões terá, no próximo futuro do nosso ensino, esta nova janela que se abriu. Já começa a haver, mesmo a nível go- vernamental, quem veja aqui imensas possibilidades de poupar recursos, espaços, equipamentos, viagens, pessoal, passando a usar as aulas à distância mesmo quando não houver pandemia – e fazê-lo não pontualmente, como é compreensível, mas por sistema. Convém recordar que há muito que se perde quando se substitui o contacto cara a cara, e a interação direta que ele
permite, por ecrãs de computador. Alguma complementaridade de procedimentos pode ser útil, mas com conta, peso e medida. E se isso, na minha opinião, é válido para o Ensino Superior, muito mais o é para os ensinos Básico e Secundário.

O que temos pela frente? Que expectativas, no imediato e a longo prazo?
Não é fácil antecipar o que temos pela frente, quer a curto, quer a longo prazo. Uma das coisas que aprendemos com a pandemia foi a necessidade de maior prudência nas nossas previsões, sobretudo quando há tantas incertezas em volta dela. Ao longo deste ano e meio, já várias vezes nos pareceu que isto ia passar, depois volta a piorar, depois melhora e a seguir surge mais uma nova variante e piora outra vez... Começamos a perceber que parte desta doença talvez passe a viver sempre connosco, embora num contexto muito menos ameaçador da nossa saúde, por obra e graça das vacinas – que foram desenvolvidas num tempo absolutamente recorde, fruto de muito investimento, mas também de muito trabalho em equipa e de muita troca de informações entre cientistas, laboratórios, países...
No fundo, e voltando a Edgar Morin, parece claro que teremos de nos habituar a viver com as incertezas, mas sem fazer disso um drama. É mais lógico viver, e tentar viver bem, em cima da incerteza do que procurar desesperadamente por certezas que ninguém nos pode dar (nem sequer a Ciência). Vamos caminhando por aproximações sucessivas, por pequenos passos, tentando que o próximo patamar seja um nadinha mais seguro do que o anterior, mas sempre a caminho. E fazendo caminho a andar.

Quando chegarmos ao fim do túnel, quando tudo isto acabar, certamente muita coisa terá mudado...
Uma das ideias mais fortes que podemos retirar desta experiência fortíssima é que somos, de facto, todos iguais. Todos vulneráveis. Todos. Em todo o mundo, desde a casa do vizinho do lado até aos confins mais recônditos da floresta amazónica. O vírus chegou a todo o lado e infetou brancos e negros, homens e mulheres, velhos e novos, ricos e pobres, todos... E a solução, a ser encontrada, tem de ser também para todos. Só nos salvamos todos juntos – ou morremos todos juntos. O vírus não é seletivo, coloca-nos a todos no mesmo barco, o que significa que só nos sentiremos seguros se e quando o conseguirmos erradicar (ou controlar) em todo o lado. Não es- taremos seguros na Europa se o vírus continua ativo em África; não estaremos seguros no litoral se o vírus andar no interior; não estaremos seguros entre os velhos se o vírus continuar a propagar-se entre os jovens... E por aí adiante. Estamos todos, mais do que nunca, ligados e dependentes uns dos outros. E esta é uma mensagem fortíssima, que deverá contribuir, espero, para uma maior solidariedade e uma maior atenção ao ‘outro’, seja ele quem for e viva onde viver.
Mas esta absoluta interdependência também pode, paradoxalmente, provocar algum fechamento entre comunidades e entre países. Nas últimas décadas, as fronteiras foram sendo cada vez mais abertas (veja-se a Europa) e a possibilidade de viajarmos de avião a baixo custo aumentou muitíssimo o nosso contacto com terras e gentes diferentes. Agora, como já fomos vendo, espreitam tentações de maior isolamento aqui e ali, com o objetivo de diminuir os contactos e os contágios, ou pelo menos para assegurar uma progressão mais lenta da doença. E como a vacinação tem caminhado a velocidades muito diversas, conforme as latitudes, é bem possível que o trânsito entre países venha a sofrer restrições que até aqui não tínhamos. Até por isso, seria importante que as vacinas chegassem rapidamente a todo o globo, pois em todo o globo há gente igualzinha a nós...
Finalmente, pergunto-me se desta crise sairá uma maior consciência sobre a ameaça que significam as alterações climáticas. Nos primeiros tempos do confinamento falou-se muito disso, quando se percebeu que uma diminuição drástica das viagens de avião e de automóvel, assim como a paragem forçada de certas indústrias, tinha rapidamente melhorado a qualidade do ar que respiramos. Aqui e ali foi-se percebendo que o modelo de vida em que estamos instalados, com uma enorme dependência do consumo massificado, dos combustíveis fósseis e dos plásticos, poderia, talvez, ir dando lugar a outros padrões de desenvolvimento. Foi-se percebendo que pode haver alternativas, que pode haver progressos concretos, mesmo que pequeninos e à medida de cada um de nós, daquilo que podemos tentar modificar no nosso quotidiano. A dúvida está em saber se, fechado o capítulo da pandemia (se é que alguma vez vai fechar completamente...), resolvemos voltar depressa à vida que tínhamos antes, assim como quem pareceu acordar de um pesadelo, ou se aprendemos que coisas deste tipo podem repetir-se, e cada vez com maior intensidade. Aprender a lição seria também ver, em concreto, o que podemos fazer para alterar as coisas. Se quisermos, claro... Porque é muito – embora não tudo – uma questão de querer.

COMUNICAR BEM É MEIO CAMINHO ANDADO

“A extrema importância da comunicação ficou bem demonstrada nestes tempos de pandemia – e em planos muito diversos, não só o da comunicação social. Percebeu-se muito cedo que era essencial ter uma boa comunicação sobre os riscos da pandemia e sobre os modos de lidar com ela, tanto em termos individuais como de comunidade. A necessidade de que os poderes públicos difundissem mensagens claras, coerentes, compreensíveis por toda a gente, de modo a conseguir-se uma boa resposta social, foi enfatizada em muitas situações – sobretudo, naquelas em que isto não correu muito bem...
No meio da avalanche de informação (e até de desinformação) oriunda das mais diversas proveniências, percebeu-se como é crítico tratar estes assuntos de modo competente, profissional, e não com simples boa vontade de amadores. Comunicar bem é meio caminho andado para que as coisas corram bem, designada- mente quando se pretende que todos nós alteremos um conjunto de comportamentos quotidianos, em nome do nosso bem-estar, mas também do dos outros. E os poderes públicos têm, aqui, responsabilidades particulares. Precisamente porque são... públicos.

Quanto à comunicação social, este tempo tem sido também de grandes impactos e enormes desafios. Nunca se consumiu tanta informação como neste tempo, sobretudo por via das televisões e dos meios online. Horas e horas dedicadas à pandemia, dia após dia, tentaram satisfazer a nossa extrema necessidade de perceber o que estava a passar-se e o que poderia vir a seguir. Além dos jornalistas e dos comentadores habituais, passámos a ver com muita frequência cientistas de variados domínios nos ‘telejornais’: epidemiologistas, virologistas, médicos de saúde pública, matemáticos, etc. E como dizia Edgar Morin, na já referida entrevista, muitos deles a dizer coisas díspares ou até contraditórias, deixando-nos a navegar no tal mar de incerteza e sem saber muito bem em quem acreditar mais...
Nos jornais, as coisas foram mais difíceis, pois períodos sucessivos de confinamento levaram a uma diminuição forte de vendas. Em contrapartida, notou-se que certo tipo de publicações, sobretudo as ‘de referência’, como o Expresso e o Público, viram subir muitíssimo as suas assinaturas online, compensando até as quebras no papel. É um sinal positivo para futuro. Mas a situação da imprensa continua difícil, porque não há muita gente disposta a pagar por informação, quando vai conseguindo alguma de graça, seja nas televisões, seja através da internet...

A atividade das redes sociais também foi marcante neste período, para o bem e para o mal. A sua grande vantagem é a acessibilidade de toda a gente, seja para receber informação, seja para a difundir. Com um simples smartphone e sem necessidade de grande aprendizagem, qualquer um de nós pode pôr-se em contacto instantâneo com todo o mundo, pode produzir e disseminar informação em palavras, imagens ou sons; qualquer um de nós pode participar. O outro lado da moeda é que qualquer um de nós também pode usar esses aparelhos e essas redes para mentir, enganar, desinformar, agredir verbalmente, invadir a privacidade alheia, multiplicar perfis falsos, etc. etc. E de tudo isso também temos visto muito durante a pandemia, frequentemente sem sequer conseguirmos distinguir o que é verdade do que é mentira – o que põe em evidência a extrema necessidade de desenvolvermos a nossa literacia mediática, a capacidade de descodificar o que nos chega das mais diversas proveniências e de separar o trigo do joio. Como, em tempos disse Umberto Eco, a internet veio dar voz a toda a gente, inclusive aos imbecis... E é preocupante ver como, por vezes, se põe no mesmo plano a voz de um cientista com créditos firmados explicando que a terra é redonda e a voz de alguém que defende que a terra é plana, como se se tratasse de duas opiniões igualmente respeitáveis.”

Maria João Leite e António Baldaia


  
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