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A pandemia foi um duro golpe em todos os setores da sociedade. Fechou o mundo em casa e virou vidas do avesso. Até que chegou a hora de seguir em frente, com adaptações e reinventes, tratando feridas e olhando o futuro incerto com coragem e esperança. Os impactos da pandemia fizeram-se sentir a vários níveis, dos alunos aos professores, da escola aos pais. Para refletir sobre a forma como crianças e jovens foram afetados por tudo isto, como os professores, as escolas e as famílias lidaram com a situação, a PÁGINA ouviu algumas opiniões especializadas e expectativas quanto ao futuro.
FRANCISCO TEIXEIRA Professor do Ensino Secundário e do Superior; coordenador do Departamento de Política Educativa do Sindicato dos Professores do Norte
Na sua opinião, quais foram os principais impactos da pandemia? O que mudou na educação em Portugal? A capacidade de configurar as relações diminuiu. Educar é, sobretudo, configurar um espaço emocional, suscetível de transmitir conhecimentos e experiências. Com a pandemia, a capacidade de o professor configurar esse espaço emocional diminuiu. E sem presença, sem capacidade de configurar as relações emocionais, sem sermos capazes de nos olharmos, de modelar os discursos, os gestos, vendo os outros e até tocando-lhes, não é possível ensinar. O ensino à distância pode funcionar para jovens adultos ou adultos já com uma base cultural sólida; a ideia de que é possível substituir uma aula presencial por uma aula digital não é verdade, não é possível de todo.
Como é que a relação professores-alunos vai sair disto? Acho que sai prejudicada. Acredito que se pode reconfigurar, que se pode reganhar o espaço de proximidade inicial, mas é evidente que, no imediato, a relação de ensino-aprendizagem sai prejudicada. A ideia de que a educação é uma questão de transmissão de conteúdos pura e simples é um erro. É óbvio que o ‘Dr.’ Google sabe muito mais do que alguma vez nós poderemos saber, mas a grande distinção entre um professor e os motores de busca ou as bibliotecas digitais é que nós configuramos emoções. E ao configurarmos emoções fazemos com que o conhecimento se inscreva verdadeiramente no corpo das pessoas. Essa é a grande diferença, absolutamente decisiva, sobretudo quando se é criança ou jovem.
O ensino à distância foi um fator de discriminação? Foi, obviamente. Muitas crianças e muitos jovens não tinham computadores em casa; outros tinham computadores sem condições, sem ligações à internet; outros tinham casas que não lhes permitam, sequer, ter uma relação com o digital em condições. Portanto, logo aqui houve discriminação...
Mas houve um esforço da escola e dos professores para chegar a todos? Acho que houve um esforço de toda a gente, escola, professores e até o Governo, embora tardio. Quer dizer, escolas e professores, talvez porque têm mais proximidade, reagiram com muito mais aprendi velocidade do que o Governo, que reagiu lentamente e de maneira muito tardia. Mas mesmo as respostas das escolas, dos professores e do Governo não superaram as condições infraestruturais das famílias; condições económicas de base, que estabeleceram, logo à partida, uma discriminação negativa relativamente aos mais pobres. Não haja a menor dúvida. Portanto, nesse sentido, também a pandemia foi uma catástrofe, porque acentuou as divisões que já existiam... A reação das escolas foi muito importante, decisiva talvez, do ponto de vista social. Permitiu manter a ligação das crianças e das famílias; permitiu que, num momento de catástrofe, de abatimento global, se criasse uma coesão social, que a ligação entre pessoas, instituições e o país ocorresse. Esse contributo foi absolutamente inestimável.
Como foi a sua experiência de ensino à distância? Deu aulas presenciais e online? Primeiro, as aulas à distância, que na verdade não eram aulas à distância... A primeira clarificação é esta – eram espaços de ligação, momentos em que estava ligado com os meus alunos, em que estabeleci relações com eles. Não eram verdadeiramente aulas, no sentido em que eu não tinha nenhuma garantia de que o que estava do lado de cá passava para o lado de lá. Não tinha possibilidade de modelar o que quer que fosse. Tive de tudo: alunos que não apareceram, alunos que tinham condições excelentes e algumas situações divertidas e outras dolorosas. No meio disto, há sempre situações excecionais, alunos que não precisam de ser ensinados, mas esses são a exceção.
No Ensino Superior foi diferente? Não muito. A grande diferença foi que, de facto, podia dar aulas expositivas, mas ao fim de meia hora, quer eu, quer os alunos estávamos cansadíssimos e já ninguém se conseguia ouvir. Quer dizer, ao fim de meia hora eu estava farto de aturar o silêncio e a imobilidade deles e eles faziam de conta que assistiam àquilo que eu dizia. Claro que, sendo jovens adultos, tinham uma certa capacidade de autocontrolo e autodisciplina que as crianças ou os adolescentes não tinham.
É possível recorrer a esta solução ou só mesmo em última instância? Não, não é solução. Aconteceu alguns chamarem-lhe ensino de emergência... Aliás, não chega a ser ensino; relação social e pedagógica de emergência é, talvez, a expressão conceptualmente mais correta. Agora, pensar que podemos substituir as aulas presenciais por aulas digitais é uma mentira, nem sequer é um erro. Todos nós podemos ir aos motores de busca e ter aulas à distância. Temos aulas gravadas dos maiores professores, dos maiores pensadores, dos maiores especialistas, mas isso não substitui a relação e a capacidade de o professor configurar as emoções, porque é isso que define e estabelece a relação pedagógica e a experiência. Assusta-me a ideia de que se pode digitalizar integralmente a educação ou o ensino. Essa possibilidade é quase distópica, dá a ideia de que tudo pode ser digitalizado, telemático e distanciado... O que não quer dizer que não se possam, e se devam, utilizar instrumentos digitais em contextos pedagógicos normais. Isso, com certeza. Já se utilizavam e vão continuar a utilizar-se. Pode haver conteúdos digitais, relações digitais, mas são conteúdos e relações digitais no contexto de relações pessoais, de proximidade física. Substituir as relações pessoais por relações estritamente digitais é, de facto, uma possibilidade aterradora sobre a qual temos de refletir.
Quais são os desafios neste pós-pandemia? O que é preciso fazer para os ultrapassar? O grande desafio é o aprofundamento da relação analógica na sala de aula. Existe um certo modismo pedagógico segundo o qual a sala de aula já não conta, a sala é a escola inteira, a cidade, o país, o mundo inteiro; que se deve derrubar as paredes da sala de aula. Eu não concordo nada com isso. Tem de se reconfigurar a relação professor-aluno, dar-lhes a noção de que essa relação continua a ser de enorme importância e de que o professor é capaz, ou deve ser capaz, de configurar essas relações. E, para isso, a sala e a escola têm de se distinguir do meio. Uma coisa é a sala e a escola, outra coisa é a sociedade; eu não queria utilizar uma terminologia muito abstrata, mas... A escola e a sala são sistemas sociais que não podem diluir-se no todo social. Não, a escola e a pedagogia têm lógicas próprias e específicas que passam por dar ao professor poder para configurar as relações emocionais, cognitivas e culturais dos seus alunos. Portanto, o professor precisa de poder – pedagógico, cultural, político. O professor não pode ser despolitizado, descurricularizado. Existe muito essa tendência: as associações industriais mandam propostas curriculares, bancos, autarquias, associações de pais, culturais e cívicas, ONG. Todos mandam propostas curriculares... Cada vez mais, parece que há uma espécie de descurricularização da escola. Nós precisamos, de facto, de empoderar as escolas e, para isso, empoderar os professores. E para empoderar os professores temos de dizer que em cada sala de aula o professor tem poder: cultural, científico, tem autonomia cultural e científica, que, aliás, é definida no Estatuto da Carreira Docente e na Lei de Bases do Sistema Educativo. Portanto, o primeiro objetivo é empoderar os professores, culturalmente, politicamente, curricularmente. Porque se os professores deixarem de ter poder neste sentido, dentro das salas e das escolas, outros terão por eles.
Com o ensino à distância, houve várias implicações para a classe docente... Sim. Com a história do ensino à distância, ou relação escolar de emergência, deixou de haver distinção entre escola e casa dos professores, entre escola e família. Ora, nós precisamos que isto fique bem distinto: uma coisa é a minha casa, outra é a minha escola. Eu não quero, nem posso deixar que a minha escola entre pela minha casa dentro. Porque o meu espaço de trabalho tem de ser diferente do espaço doméstico. A escola não é um espaço doméstico, é um espaço cultural e político, onde há conflito e diálogo, onde há debate cultural e científico, e tem de ser diferente do que são as minhas opções e a minha vida particular e individual. Os professores têm de ter tempo para eles próprios, para a sua família, os seus filhos, a sua vida. E de repente, os professores deixaram de ter vida própria, no sentido literal da palavra. Os professores são trabalhadores intelectuais e, se são trabalhadores, a casa deles é diferente do local de trabalho. Os professores têm de ter horário de trabalho e de poder desligar, de poder parar. Ora, durante o período de emergência, os professores não desligaram – o que se entende, e até se justifica socialmente, num período de emergência, mas isso tem de acabar. Não podemos viver permanente em estado de emergência.
O regresso à escola foi muito exigente, para os professores, no que toca à recuperação das aprendizagens? Foi um regresso exigente, difícil e, na verdade, impossível. Não é possível recuperar em dois meses as aprendizagens que se perderam em um ano, ano e meio. A aprendizagem não depende do número de horas que se dá, mas é preciso tempo. Para se consolidarem, as aprendizagens precisam de se arrastar no tempo, são camadas que se vão sustentando umas sobre as outras. Do ponto de vista pedagógico, cognitivo e cultural, 200 horas num ano e 200 horas em dois meses, sendo o mesmo número, não têm o mesmo efeito junto dos alunos. Portanto, a recuperação das aprendizagens, de facto, é uma recuperação a fazer nos próximos anos. Vai demorar tempo e, claro, é absolutamente necessário que o Governo crie condições de otimização dessa recuperação.
A propósito, o que pensa do Plano 21|23 Escola+, apresentado pelo Governo? O plano mistura recursos infraestruturais, recursos digitais... A questão do apetrechamento não é atendível à conta da recuperação das aprendizagens; tinha de se fazer em qualquer circunstância, independentemente da recuperação das aprendizagens. Na questão das aprendizagens, que é o essencial para os próximos dois ou três anos, o Governo ficou muito aquém do necessário. Sobretudo, é preciso uma coisa que o plano não dá – tempo. E como é que a administração pode dar tempo aos professores e às escolas? Diminuindo o número de alunos por turma; se diminuir o número de alunos por turma, eu tenho mais tempo para cada um dos alunos. Por outro lado, aumentando o crédito horário para as escolas. Mais crédito horário permite que os professores sejam geridos internamente, de acordo com as necessidades de cada grupo de alunos; e diminuindo o número de alunos por turma, precisamos de mais professores. Ou seja, o problema do tempo resolve-se, sobretudo, contratando mais professores, para as turmas ficarem mais pequenas, para haver mais crédito horário e para que, por exemplo, as tutorias – outro dos instrumentos que aparece no plano do Governo – deixem de ter 6, 7, 10 alunos, para serem tutorias verdadeiras. Em suma, o plano do Governo falha onde era mais necessário: tempo para os professores e para as escolas. E não havendo tempo ocorre um cansaço generalizado...
Na sua opinião, a situação de pandemia trouxe alguma valorização à profissão docente? Infelizmente, acho que não. Houve quem ficasse surpreendido por, de repente, algumas pessoas terem percebido a relevância social da escola, mas a verdade é que a maior parte olhou para a escola de uma maneira puramente instrumental, ou seja, a escola é muito útil para tomar conta dos nossos filhos, para nós podermos trabalhar. E isso é dramático. A escola toma conta das crianças para as educar, no sentido amplo da palavra. A função fundamental da escola é, de facto, ajudar a produzir pessoas cultas, sensíveis aos valores democráticos, à beleza, ao bem, e dar-lhes ferramentas, conhecimentos culturais profundos.
Também promove a relação entre os próprios alunos... Sim, também tem uma função de sociabilização. Mas, na verdade, essa função é menos importante do que há uns anos. Hoje, a escola tem menos poder e menos impacto nos jovens; hoje há uma série de instrumentos sociais que escapam à escola, quer no sentido da produção de conhecimento, quer da sociabilização. Hoje, os jovens sociabilizam através dos meios digitais de maneira muito intensa; a sociabilização digital é massiva. Mas até porque, justamente, tem menos poder de sociabilização, é cada vez mais importante empoderar os professores, quer com tempo, quer com prestígio social e profissional. Se os professores não tiverem 13 prestígio nenhum, os alunos não aprenderão. Porque a relação dos alunos com a escola depende muito do modo como os pais e a comunidade a veem. Se os alunos entram na escola, ou nas salas de aula, a desconsiderar a escola, o que quer que o professor faça vai ter muito menos efeito do que se assim não for. E, portanto, precisamos de revalorizar o papel da escola e do professor.
Que expectativas relativamente ao futuro? Acho que vale a pena pensar como um pessimista e agir como um otimista. O que vemos acontecer pelo mundo inteiro é um resvalamento do estatuto do professor e da escola. Mas se assim é, temos de combater, de agir de maneira absolutamente determinada no sentido de recolocar a escola e o professor no centro das comunidades, das cidades e do país. As sociedades contemporâneas exigem escolas enquanto instrumento de progresso social; e enquanto instrumento de progresso, as escolas precisam dos professores. Se vai correr bem, não sei – sei é que temos de ir à luta.
Maria João Leite e António Baldaia
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