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O que não se aprendeu este ano irá aprender-se mais tarde

A pandemia foi um duro golpe em todos os setores da sociedade. Fechou o mundo em casa e virou vidas do avesso. Até que chegou a hora de seguir em frente, com adaptações e reinventes, tratando feridas e olhando o futuro incerto com coragem e esperança.
Os impactos da pandemia fizeram-se sentir a vários níveis, dos alunos aos professores, da escola aos pais. Para refletir sobre a forma como crianças e jovens foram afetados por tudo isto, como os professores, as escolas e as famílias lidaram com a situação, a PÁGINA ouviu algumas opiniões especializadas e expectativas quanto ao futuro.

ISABEL COELHO ARAÚJO
Professora do Ensino Básico; coordenadora de estabelecimento

A nível escolar, que realidades mostrou a pandemia?
A pandemia mostrou a necessidade de estarmos preparados para uma mudança abrupta, inesperada, para a qual é obrigatória uma disponibilidade imediata, constante e que implica a procura sistemática da novidade e da alternativa eficaz.

A escola chegou a todos? Que vulnerabilidades?
A escola não chegou a todos. Chegou àqueles que conseguem ir desenvolvendo uma cultura efetiva para a literacia – refiro-me, principalmente, aos adultos: professores e pais. Chegou àqueles que tiveram acesso aos equipamentos de comunicação à distância.

O que mudou na escola que coordena?
Mudou quase tudo: a acrescentar a um medo permanente de falhar, misturou-se a necessidade de acompanhar uma nova realidade diária, ditada pela proteção física e psicológica de toda a comunidade educativa. A implementação de novas regras (que podiam mudar do dia para a noite), a tentativa de passar aos alunos e pais uma tranquilidade por vezes não sentida por quem gere os destinos do agrupamento/escola, a necessidade de normalizar um ano escolar que foi tudo menos normal.

E nas relações escola-comunidade?
Foi necessário um esforço contínuo de chamar cada vez mais os pais e alunos a partilhar um entendimento face ao novo viver a escola. Este aspeto foi importantíssimo para não haver conflitos acrescidos.

O ensino à distância foi fator de discriminação ou de aproximação?
O ensino à distância, no meu agrupamento, foi fator de aproximação. Fizemos perceber que estávamos todos no mesmo barco e que, se este afundasse, seriam os alunos os principais lesados. O facto de muitos pais acompanharem as aulas à distância fez com que ficassem a ‘ver’ uma realidade ao nível dos comportamentos e do trabalho que a escola presencial os faz esquecer. A reflexão sobre as dinâmicas familiares foi abanada. A função do professor foi um pouquinho mais percebida.

Que impactos teve nos processos de aprendizagem?
É óbvio que as aulas presenciais são muito mais ricas. Existe uma interação entre o professor e os alunos e entre os próprios alunos que se perdeu nas aulas à distância, não só pela limitação dos tempos de aulas como pela distância a que todos se encontravam. Então, penso que a escola e os processos de aprendizagem, sem a componente de proximidade humana, ficaram mais pobres, menos responsáveis e menos eficazes.

E para os docentes?
Trabalho. Muito mais trabalho com menos resultados...

O que é preciso fazer para recuperar as aprendizagens? Há aprendizagens (ir)recuperáveis?
Para recuperar as aprendizagens, é necessária uma escola presencial com um entrosamento acrescido da parte da família. Aprendizagens irrecuperáveis... Não me parece. Tudo tem uma continuidade: o que não se aprendeu este ano, irá aprender-se mais tarde.

Expectativas para o futuro?
Parece-me que ficou claro que a escola à distância será eficaz para idades mais avançadas e com uma autonomia ‘adulta’. Nas idades do 1o Ciclo, e até mais na Pré-Escolar, o futuro manda que a escola tenha gente junta, a partilhar espaços, experiências, angústias, sucessos. Manda que haja abraços, secar lágrimas, rir em grupo. A grande expectativa é que a pandemia deixe a escola sem medo de voltar a sê-lo, de forma normal, partilhada e presencial.

Maria João Leite e António Baldaia


  
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