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Nasceu na Praia da Granja, mas passou parte significativa da infância numa aldeia do coração do Minho, de onde eram naturais os pais – de cujas vidas a música tradicional e folclórica “fazia parte integrante, marcando-lhes os ciclos e as estações”. Durante a juventude, repartiu o tempo entre a licenciatura em Economia e o estudo e divulgação das músicas tradicionais. No início dos anos ’70, entrou para os quadros da revista MC-Mundo da Canção, publicada no Porto, da qual foi diretor entre 1976 e 1998. Nessa fase, foi também responsável pela programação e produção executiva do Festival Intercéltico do Porto. No final da década de ‘90, criou a editora Sons da Terra e dedicou-se à edição de recolhas musicais e publicações de temática musical e à promoção de concertos e festivais. Fundou o Festival Intercéltico de Sendim (1999) e, na mesma localidade, o Centro de Música Tradicional Sons da Terra (2001). Atualmente, Mário Correia é diretor do FIS e do centro. Convidado frequente de festivais internacionais, seminários, conferências e colóquios relacionados com música tradicional e popular, participa regularmente em sessões informativas em escolas, universidades e associações culturais.
Começando pela atualidade: que significado teve para ti a atribuição, em outubro, do Prémio Mérito Etnografia e Tradição da Fundação INATEL? Não integro, de forma alguma, o grupo dos que se movem por prémios ou distinções, bem pelo contrário. Vou para o campo pelo prazer que me dá fazer recolhas documentais do nosso património musical de tradição oral, num tempo de desvanecimento e de despovoamento de terras onde os modos de vida foram profundamente afetados, sobretudo a partir de meados do século passado. Do ponto de vista pessoal, considero uma das distinções mais gratificantes, na justa medida em que me foi atribuída por uma entidade que muito tem feito em prol da cultura popular neste país. Teve, portanto, um significado muito especial, pois partilhamos idênticas satisfações e inquietações nos domínios culturais.
Em 2007 foste distinguido com o Premio Europeo de Folklore Agapito Marzuela (Segóvia) e em 2010 com o Chosco de Oro (Astúrias). Por cá, em 2012, o governo de Passos Coelho concedeu-te a Medalha de Mérito Cultural, que fizeste questão de receber em Sendim. Duas questões: - os vizinhos ibéricos descobriram-te e reconheceram-te antes dos portugueses, e isso terá algum significado... - porquê receber a medalha em Sendim? O facto de os primeiros gestos de reconhecimento virem de Espanha deve-se ao facto de, desde muito jovem, eu ter percorrido – quer física, quer culturalmente, sobretudo, através dos discos, mas também da literatura – as distintas geografias espanholas, sobretudo na área da meseta norte ibérica, primeiro pela Galiza e Astúrias, depois, sobretudo, por terras leonesas e cantábricas e num âmbito mais alargado. As músicas dos distintos cantautores – galegos, asturianos, leoneses, bascos, catalães, extremenhos... – eram referências culturais de posicionamentos contra uma ditadura que pertencia à família da ditadura portuguesa e, tal como em Portugal, eles incorporavam as músicas tradicionais ou populares das respectivas regiões de origem. E não posso deixar de recordar, por exemplo, a importância do conhecimento do trabalho de campo e de recriação levado a cabo por Joaquín Díaz, para citar apenas um dos grandes coletores e divulgadores da nação vizinha. E assim fui reforçando a ideia de que uma adequada e correcta compreensão da música tradicional portuguesa implicava um conhecimento geográfica e culturalmente alargado, no mínimo ibérico, sem esquecer as expressões etnomusicais do chamado Arco do Atlântico, assim como das rotas mediterrânicas, entre outras menos evidentes. Tudo isto gerou dinâmicas de relacionamento que, ao longo dos tempos, levaram a que o meu trabalho fosse bastante mais conhecido e apreciado em Espanha, o que se reforçou a partir do momento em que me fixei na região transfronteiriça de Miranda do Douro, em Sendim, e a cooperação e colaboração passou a ser mais estreita e frequente. O reconhecimento de mérito cultural pelo XIX Governo Constitucional, por iniciativa do então secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, teria obrigatoriamente de o repartir com todos quantos, na área do Nordeste Transmontano, me tinham ajudado a concretizar o projecto cultural e editorial do Centro de Música Tradicional Sons da Terra. Na altura, pensei que apenas faria sentido se a respetiva medalha me fosse entregue em Sendim, contando, para tal, com a presença de vários gaiteiros, tamborileiros e cantadeiras tradicionais. Foi a forma que encontrei para os homenagear, pois sem eles não teria sido distinguido com esse reconhecimento nacional.
No entanto, a tua ‘carreira musical’ começou nos anos ‘70, no Porto, onde te mantiveste até final dos anos ‘90. Certamente, terá sido um período de vida muito intenso. Foram, de facto, anos muito importantes para a minha educação musical e para tudo quanto com isso se possa relacionar. Filho de pais minhotos sem terra, migrados para trabalhar como caseiros nas quintas dos arredores do Porto, eles levavam consigo o gosto pelos cantares e pelas danças da terra, que eu nas férias grandes reencontrava in situ pois era recambiado para casa dos avós e tios, nos arredores de Braga. Em princípios dos anos ‘70, então com 18 anos de idade, comecei a colaborar na revista MC-Mundo da Canção e a descobrir as mais variadas expressões musicais, desde a folk ao rock anglo-americanos, passando pela música portuguesa então emergente, a partir das trovas e baladas, e, de um modo geral, toda a canção de texto europeia e latino-americana. A escrita e a participação em estruturas organizativas de concertos e festivais, a partir do Mundo da Canção, trouxe-me um conhecimento muito profundo das várias vertentes da produção musical e tive a felicidade de viver os tempos em que a animação da cidade do Porto – liderada pela vereadora Manuela de Melo – era uma realidade muito pujante e amplamente participada, com a criação e organização de eventos de referência – na área em que me movimentei, devo recordar o Festival Intercéltico, o Festival de Jazz Europeu, o Festival Ritmos... Foi, de facto, um período muito intensamente vivido e muito rico de experiências, a todos os níveis.
E o que te levou para terras de Miranda – na altura, certamente, muito mais distantes do que hoje? Houve uma conjugação de factores de natureza pessoal, mas, sobretudo, a vontade de realizar um registo intensivo dos repertórios dos gaiteiros e tamborileiros tradicionais do Nordeste Transmontano, que em meados/finais dos anos ‘90 eram uma realidade cada vez mais rara. Ou seja, uma tradição profundamente ameaçada na sua continuidade expressiva, que já se reflectia na permanência ativa dos próprios grupos de pauliteiros. Senti que era necessário resgatar esses repertórios, registando-os e divulgando-os e, dessa forma, contribuir para a respetiva valorização. E, em simultâneo, procurar contribuir para a revivificação dessa tradição, a recuperação de contextos e ocasiões festivas tradicionais e a criação de novos eventos de divulgação. Não se tratava, portanto, apenas de registar e fazer arquivos sonoros documentais para memória futura.
Nessa altura, já tinhas criado a editora Sons da Terra? Como surgiu a ideia? A criação da editora foi resultado de um daqueles golpes do acaso com que a vida, por vezes, nos brinda: em 1997, demandei a aldeia de Vale Martinho, em terras de Mirandela, para gravar o gaiteiro Ezequiel dos Santos, um homem extraordinário, último gaiteiro daquela região. Apresentada a proposta de edição ao município, então presidido por José Silvano, a resposta em termos de quantidade de exemplares a adquirir foi francamente aliciante, de tal modo que não hesitei e criei a Sons da Terra. Que, no entanto, nos primeiros cinco anos, não teve vida fácil, embora se aguentasse, sobretudo, graças aos apoios do então Instituto das Artes e de algumas entidades oficiais e autárquicas.
E a passagem/o alargamento da editora a Centro de Música Tradicional? Entre 1997 e 2001, o trabalho de recolhas no Nordeste Transmontano – a par de incursões com os mesmos fins nas regiões de Coimbra, Minho e Alentejo – foi sendo progressivamente intensificado, ao ponto de não ser rentável efetuar tantas deslocações a partir de e para a Praia da Granja: havia apenas IP4, nada de túnel no Marão nem IC5; cada viagem era uma canseira e uma verdadeira aventura. Entretanto, as relações com os membros do grupo de música tradicional Galandum Galundaina tinham vindo a permitir concretizar muitos contactos nas terras de Miranda e começou a ganhar força a ideia de se fazer aqui um festival folk, o que obrigaria a longas permanências por estes lados. Acontece que, procurando casa em Sendim (vila mais ou menos equidistante das sedes dos concelhos de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, nos quais o trabalho de campo se estava a centrar), foi-me oferecida a cedência de uma casa que tinha sido doada à freguesia, para fins culturais, pelo Padre Manuel João Afonso, que já tinha manifestado o seu pesar pelo facto de não estar a ser utilizada para esse fim. A respetiva cedência foi aprovada por unanimidade na Assembleia de Freguesia de Sendim e assim se criaram as condições para a instalação do Centro, aqui se centralizando todos os meus arquivos documentais, pacientemente coligidos ao longo dos anos, assim como os equipamentos de registo e os arquivos futuros. O Centro de Música Tradicional Sons da Terra abriu oficialmente no dia 1 de setembro de 2001, tendo sido inaugurado, em janeiro do ano seguinte, pelo então ministro Augusto Santos Silva – cujo ministério, através da Direcção Regional de Cultura do Norte, na pessoa do delegado Jorge Ginja, tinha apoiado instalação.
Gostaria de ser recordado como um entusiasta ‘caçador de sons’
Chegados ao planalto, o centro e o Festival Intercéltico de Sendim (FIS) confundem-se. O Festival Intercéltico de Sendim - Terras de Miranda teve a sua primeira edição em agosto de 2000, graças a uma parceria organizativa entre a Sons da Terra e a Mirai Qu’Alforjas - Associação Cultural de Sendim e aos apoios da Câmara Municipal de Miranda do Douro e da Junta de Freguesia de Sendim. Eu tinha feito parte do núcleo de programação e organização do Festival Intercéltico do Porto (até 1998, integrado na Discantus/Mc-Mundo da Canção) e fui convencido, algo contra a vontade, pelo Paulo Preto – membro dos Galandum Galundaina, que tinha levado ao Intercéltico do Porto uns anos antes, com a ‘cumplicidade’ de António Carção, António Rodrigues e Rui da Matela – a fazer um festival folk, “porque aqui é que faz sentido”. O Centro de Música Tradicional Sons da Terra surge um ano depois.
De outra forma, radicas-te em Sendim por causa do festival, do centro, ou de...? Radico-me em Sendim, sobretudo, por causa do Centro de Música Tradicional Sons da Terra, cujo trabalho de campo estava a ser cada vez mais intensificado, por força da percepção de que estava a lutar contra o tempo para fazer registos sonoros com os velhos gaiteiros ainda vivos e, depois, com outros tocadores e cantadeiras, porque estava tudo ligado e era fundamental documentar toda a tradição musical da área do Planalto Mirandês e do Nordeste Transmontano, sobretudo nas regiões de Bragança e Vinhais. Por outro lado, estavam a ser criadas intensas dinâmicas performativas: jornadas e congressos, apresentações de edições discográficas e bibliográficas, dinamização das festas populares, criação de novos eventos e ocasiões festivas capazes de responder aos novos tempos, estudos e investigação organológica, apoio a estudantes de etnomusicologia e antropologia – estavam a ser estabelecidas parcerias ativas de colaboração com entidades universitárias e musicológicas, quer nacionais quer estrangeiras, sobretudo espanholas... Enfim, atuava-se em todas as frentes. De tal modo que, numa concertação de esforços e de vontades, acabámos por dar enorme visibilidade à Terra de Miranda, tendo como ponto de partida as suas dinâmicas culturais e musicais.
E como tem sido, ao longo destes 20 anos, viver como agente/produtor cultural afastado das metrópoles e dos focos mediáticos? Que constrangimentos e possibilidades? Que resistências e incentivos? Muitas vezes, o preço a pagar é demasiado elevado, acrescendo ostracismos que magoam e silêncios que incomodam. No entanto, as compensações pelo trabalho de formiga que foi sendo realizado, o seu reconhecimento a partir das comunidades locais e, mais tarde, já a nível nacional e internacional constituiu um lenitivo para essas dores. Os focos mediáticos apontam sempre noutras direções, obedecendo a imperativos de natureza mercantilista ou propagandística, subjugados pela “modernidade líquida” – Baumann dixit – ditada por modas e por elites cada vez mais confinadas a centralismos redutores. Os constrangimentos e as reais possibilidades acabam por aguçar o engenho para sermos capazes de resistir à falta de incentivos. E nessas alturas convém ter bem presente a gasta, mas sempre certa, máxima que nos diz que a felicidade não está em ter muito, mas em ser-se feliz com aquilo que se tem. Devo dizer, no entanto, que no fundo acabei por receber da parte da autarquia mirandesa – sobretudo nos últimos 10 anos – um apoio realista e adequado para a prossecução das atividades da Sons da Terra. Muito mais se poderia fazer, é claro, mas tudo isto é, sobretudo, a arte do possível, como em tantas coisas da vida.
E agora, atingido o número redondo das 20 edições, o FIS ainda é uma realidade com futuro? Eventos como o Festival Intercéltico de Sendim duram enquanto fizerem sentido, enquanto a comunidade e o público corresponderem ao apelo por nós lançado e renovado ano após ano. Muita coisa mudou desde 2000, nomeadamente a oferta festivaleira, hoje reconhecidamente hiperinflacionada, tanto na área folk como noutras áreas musicais. Por outro lado, os públicos tornaram-se muito mais multidisciplinares em termos de gostos, acreditando eu que, apesar de haver maior sensibilização para o género de propostas musicais que são apresentadas no Intercéltico de Sendim, estas continuam a ser músicas minoritariamente divulgadas. Longe das ‘multidões’ que acorriam às “celebrações sendintercélticas”, o FIS permanece um referente cultural no Nordeste Transmontano e no panorama dos festivais folk europeus.
Entretanto, em agosto, em pleno FIS, o Centro de Música Tradicional Sons da Terra e o INATEL celebraram um protocolo. Que significado e importância tem esse compromisso? É uma garantia de futuro. E que garantia! O acervo que foi constituído no Centro de Música Tradicional Sons da Terra é algo de muito importante e, de alguma maneira, único no país; e mesmo a nível estrangeiro, tanto quanto me é dado conhecer e a julgar pelos testemunhos de quem noutras paragens se dedica a estas coisas da música tradicional. Para mim, era fundamental que, após a minha partida para outras viagens, este acervo não só continuasse instalado neste território como permanecesse uno e indivisível. Tive propostas para o deslocar, algumas suficientemente interessantes para me assegurarem um fim de vida tranquilo e sossegado, mas sempre as declinei. A minha vontade foi sempre que permanecesse aqui, de alguma forma, como prova de gratidão para com esta terra e estas gentes. Ora, neste protocolo, a Fundação INATEL assumiu esse compromisso fundamental, assim como o de contribuir para a continuidade do trabalho: recolha (continua a ser necessário recolher e gravar, por exemplo, os novos gaiteiros, que serão os velhos gaiteiros daqui a algumas décadas e, nessa altura, vai ser extraordinário ter acesso a registos dos tempos da sua juventude), investigação, edição e manutenção das condições de acesso ao acervo para estudantes e investigadores, assegurando os compromissos de colaboração assumidos com entidades públicas e privadas da área musical, nacionais e estrangeiras. O protocolo foi um respirar de alívio indescritível. E um estímulo sem limites para continuar a trabalhar enquanto for possível.
Olhando para esse trabalho de investigador-coletor-editor, o que te dá mais trabalho e mais prazer? Claro que é importante investigar e editar, conhecer a fundo e divulgar o mais amplamente possível este património cultural imaterial de inestimável valia. E isso dá-me muito prazer. Mas, em boa verdade, o que mais gosto de fazer e o que me dá mais prazer é falar com as pessoas, recolher os seus testemunhos e histórias de vida e fazer de cada um deles um amigo, cuja porta de casa sempre me é franqueada bem ao jeito do Entre quem é! sempre e ainda tão transmontano. Como escreveu o saudoso Amadeu Ferreira, quando se visita uma terra, verifica-se a tendência de procurar monumentos como igrejas, pontes romanas, etc., esquecendo-se aqueles que são os monumentos mais importantes, as pessoas que lá vivem. E, volvidos todos estes anos de trabalho e dedicação, está a dar-me muito prazer escrever livros e artigos mais ou menos científicos sobre todas estas vivências.
Dás-te bem com a designação de etnomusicólogo? Quais as principais motivações para o teu trabalho? Simplesmente musicólogo – ou, ainda mais simples e prosaicamente, recolhólogo, como diz o meu amigo José Alberto Sardinha! Também gostaria de ser recordado como tendo sido um entusiasta caçador de sons, embora não nutra especial atração pela faina da caça. As motivações são muitas, mas podem ser resumidas numa ideia fundamental: as tradições alteram-se e modificam-se através dos tempos – quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto; quando deixam de ser úteis ou de fazer sentido, morrem (como nós) e essa realidade não deve ser motivo para alarme ou drama. Ninguém salva o que quer que seja – ainda há quem se assuma como salvador destas coisas! – e o que tiver de desaparecer, deixará de existir. Agora, o que eu não faço, não fiz nem farei, é cruzar os braços e nada fazer para deixar registo para memória futura. Seja o futuro o que for, certo-certo é este presente de ação e intervenção. Como eu costumo dizer, continuo a viver tempos de conspiração cultural e a reger a minha atuação diária com essa batuta.
Ernesto Veiga de Oliveira, Michel Giacometti, José Alberto Sardinha e, mais recentemente, Tiago Pereira, Manuel Rocha... Como te ‘relacionas’ com eles, que relação te inspiram? Todos quantos fizeram trabalho de campo – registos musicais da tradição oral portuguesa – me merecem o maior respeito e admiração, na justa medida da valorização que é geralmente feita dos seus distintos contributos. No entanto, seria muito injusto se não mencionasse o trabalho de Armando Leça, o músico-caminheiro que nos anos ‘30 e ‘40 do século passado definiu os percursos musicais que mais tarde seriam percorridos por Giacometti e Veiga de Oliveira, entre outros. Uma relação de admiração e cumplicidade cultural, porque todos fazemos parte de um ‘rosário’ de verdadeiros missionários da cultura popular, da música tradicional, da portugalidade musical. No que se refere ao Nordeste Transmontano, serão sempre referência os trabalhos de Armando Leça, Rodney Gallop, Kurt Schindler, Laura Boulton, Michel Giacometti, Ernesto Veiga de Oliveira, José Alberto Sardinha, António Maria Mourinho, Firmino Augusto Martins, Belarmino Afonso, Domingos Morais, Alberto Jambrina Leal, Pablo Madrid, José Manuel González Matellán, Daniel Loddo, Salwa Castelo-Branco, Anne Caufriez... Fico por aqui, mas outros contributos, menos conhecidos, mas igualmente importantes, poderiam ser citados. Estas terras sempre suscitaram a atenção dos mais reputados coletores e musicólogos, nacionais e estrangeiros.
Músicas para dormir, não; para não pensar, muito menos; para nos rendermos, nunca
Tocas algum instrumento? Consegues distinguir um bemol de um sustenido? Depois de teres realizado milhentas gravações e audições, qual é o teu som preferido? Que som te emociona mais? Parafraseando Rui Pato, toco, ou melhor, tocava guitarra segundo a técnica do José Afonso: primeira, segunda e marcha-atrás... No entanto, depois do PREC [Processo Revolucionário em Curso] cheguei a fazer parte do grupo CantoArma, um nome bem adequado às circunstâncias da época, que durou quase dois anos e para o qual compus uma boa meia dúzia de cantigas a preceito. Os meus conhecimentos musicais são básicos e não sendo uma partitura propriamente um hieróglifo é, no entanto, algo que me demora muito tempo a ler, movimento-me com algum à vontade, sobretudo à força de muito ter ouvido, e com muita atenção, ao longo de todos estes anos – e praticamente de todos os géneros musicais e proveniências. Tudo isto ajuda a perceber que bemol ou sustenido é apenas uma questão de movimento, para um lado ou para outro (para cima ou para baixo, dizem os manuais) e que a música só existe como tal se houver ouvido humano para a escutar. Ou seja, John Blacking tinha inteira razão ao afirmar que a música é o som humana e culturalmente organizado. O que me leva a considerar, cada vez mais, que o meu som preferido continua a ser aquele que é produzido por músicos que gostam do que estão a fazer quando pegam num instrumento, seja ele qual for, e que nos transmitem a verdade do que fazem, seja qual for o género musical, sem truques nem malabarismos mercantilistas ou soporíferos, obedecendo a ditames de modas efémeras e consumismos acríticos. Músicas para dormir, não; músicas para não pensar, muito menos; músicas para nos rendermos, nunca. São, portanto, muitos e variados os sons que me emocionam. Por exemplo, é com indescritível emoção que assisto ao toque de um gaiteiro ou tamborileiro, na sua aldeia natal, no dia da festa solsticial ou do patrono. É um privilégio de cultural transcendência poder desfrutar de ocasiões musicais e culturais tão intensas e verdadeiras.
Mesmo para terminar: valeu a pena a mudança da tua Praia da Granja para o interior mais interior do país? As árvores não são de onde nascem, mas do local onde se plantam, se aí têm condições para sobreviver e frutificar. Dito isto, não se nasce, cresce e vive impunemente tantos anos ao lado do mar da minha Praia da Granja – “povoação diamante”, como escreveu Ramalho Ortigão – e ainda hoje o apelo do mar é muito forte e, por vezes, com alguma saudade. Mantenho lá o meu apartamento e sempre que é possível faço longos passeios pela praia – aqueles passadiços são uma maravilha, mas sentir a areia sob os pés e o beijo frio das águas é outra coisa!... Apesar desta ‘contrariedade’ – o Douro, por estes lados, é tudo menos um mar, domesticado por uma sucessão de numerosas barragens – valeu muito a pena demandar esta finisterra portuguesa, este interior profundo do luso território: aqui fica a aldeia de Pardela, a mais oriental, por onde o sol entra primeiro em Portugal. Este interior, como outros de Portugal, é fascinante sob todos os pontos de vista, que não apenas o antropológico ou etnográfico, para mencionar apenas os campos em que me movimento. Sendo hoje um território de baixa densidade populacional, as gentes que aqui permanecem – e as que demandaram as rotas da diáspora, mas que aqui regressam periodicamente – continuam a ser fiéis depositárias de uma herança cultural que faz parte integrante do mais expressivo património material e imaterial português. Sendo todo o Nordeste Transmontano uma região de fronteira, resulta ainda muito evidente a partilha de um fundo cultural e histórico comum, que transcende aquelas que foram delimitações político-administrativas fictícias – pensemos, a título de exemplo, nas emblemáticas danças de palos, ou paulitos, cuja permanência expressiva ainda se verifica em grande parte da Meseta Norte Ibérica. Os surtos migracionais e emigracionais que se fizeram sentir a partir de finais do século XIX e que foram particularmente expressivos a partir de meados do século XX, agravados com o advento das guerras coloniais, determinaram uma verdadeira sangria populacional, aliada às profundas alterações dos modos de vida tradicionais. Mas estar aqui, num tempo crucial e decisivo para a sobrevivência destas terras, a todos os níveis, e ter-me envolvido como me envolvi nas suas dinâmicas culturais, foi e continua a ser um desafio aliciante. Porque, apesar de tudo, estas continuam a ser terras de oportunidades, ainda por cima, inquestionavelmente, situadas no inefável Reino Maravilhoso tão justamente incensado por Miguel Torga.
António Baldaia (entrevista) Ana Alvim (fotografia)
NOTA
Autor de uma obra fundamental para o conhecimento da nova música popular portuguesa (Música Popular Portuguesa: Um Ponto de Partida. Ed. Mundo da Canção/Centelha, 1983), Mário Correia começou a publicar em 1976 (Daniel Viglietti: A América Latina Canta e Luta. Ed. Mundo da Canção). De então para cá, assinou 28 livros, maioritariamente centrados em temáticas musicais, destacando-se os escritos sobre José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Carlos Paredes. É, ainda, autor de duas novelas históricas, ambas com chancela Âncora Editora: Pairavam Abutres nas Arribas (2013) e Que é Feito do Pastor João? (2015). O título mais recente (2019, ed. CMT Sons da Terra) é Palimpsesto sobre Vampiros, Eunucos, Chacais & Outras Bichezas na Vida e Obra de José Afonso.
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