|
Nos últimos 20 anos, os professores suportaram mudanças de opinião dos governos, colaboraram com pais e psicólogos e assumiram tarefas que deveriam ser realizadas por outros técnicos especializados; sustentaram as necessidades sociais e não deixaram que as escolas entrassem em angústia, mesmo no sufoco da pandemia.
Ser professor antes de abril de 74 tinha as suas vicissitudes. Ganhava-se muito pouco, a seleção de docentes era politicamente severa e, meia-volta, os inspetores causavam o pânico entre os docentes. Porém, a maior parte dos jovens não chegava à escola e os que entravam tinham três caminhos: ou estudavam para doutores, nos liceus, ou para empregados do comércio ou da indústria com alguma especialização, nas escolas técnicas, ou desistiam. A sociedade salazarista (e depois marcelista) parecia assentar calmamente neste equilíbrio fictício. De facto, o alunos que permaneciam no ensino eram, na sua generalidade, filhos de 'boas famílias' com um determinado grau de cultura, com livros em casa para ler. Eram alunos fáceis, à partida, ainda que ouçamos verdadeiras 'aventuras acidentadas', de professores e alunos, gravadas nas memórias de quem viveu esses tempos. Com o 25 de Abril, nomeadamente com o PREC (processo revolucionário em curso, onde podemos incluir o PS, ou, pelo menos, muitos dos seus atuais militantes), a Educação passou a ser - e muito bem - uma prioridade nacional. É o tempo de "a paz, o pão, habitação, saúde, educação..." Todos sabíamos bem e continuamos a abertura que "só há Liberdade a sério" e democracia com estas riquezas básicas essenciais a casa povo.
Reconhecimento. É nesta ‘onda’ que o trabalho dos professores começa a ser reconhecido como uma mais-valia para a sociedade. Aposta-se na formação inicial, preparam-se os professores para serem agentes da necessária mudança, começa-se, pouco a pouco, a dar às escolas condições que lhes permitam desenvolver um trabalho diferente. E isso é uma realidade. A valorização da carreira docente, alvo constante da luta dos sindicatos – e há que lhes agradecer o que então foi feito – é uma realidade. Ser professor passa a ser uma profissão dignificante. Não só porque se ganha um pouco mais, mas sobretudo porque há uma gestão democrática das escolas em que todos os docentes podem participar; porque há tempo, embora voluntário, que leva muitos docentes a criarem dinâmicas que fazem as escolas avançar pouco a pouco no caminho da cultura, da aproximação e atuação junto do meio envolvente, da solidariedade, da inovação. Digamos que assim se concluiu o século passado. Não vamos dizer que o sistema não permitia que alguns professores trabalhassem pouco e boicotassem até o trabalho dos colegas; não vamos dizer que muitos ansiavam, ainda que inconscientemente, um regresso à escola salazarista com alunos sem problemas de nenhum foro; não vamos dizer que, como em qualquer outra profissão, não havia quem se baldasse. Mas o final do século XX mostra-nos escolas com vida própria, professores e alunos alegres, clubes disto e daquilo, artes, desporto... É um facto. Havia ainda muito a fazer? Havia. O que acontece, então, a partir do início do século XXI?
Degradação. Em primeiro lugar, a evolução social. Que leva a uma maior concentração nas grandes cidades e à desertificação do interior do país. Os capitalistas portugueses (talvez como quase todos) não têm preocupações com equilíbrios sociais, culturais, ambientais ou outros e olham sobretudo para o centro do mundo que, na sua perspetiva, se situa exatamente no respetivo umbigo. As populações amontoam-se sem “paz, pão, habitação, saúde, educação”. Os pais não têm onde guardar os filhos das estradas cheias de trânsito, dos bairros sem vegetação ou parques infantis, dos perigos urbanos. A regionalização deveria ter avançado há muitos anos. Quem votou contra, lembram-se? Valeu-nos o Serviço Nacional de Saúde (um dos melhores do mundo, apesar de tudo), com uma série de repercussões benéficas, que vão, há muito tempo, muito para lá da covid-19 e deviam ser bem divulgadas; mas não o são, porque há partidos que o querem destruir, ou entregar à iniciativa privada. Nas escolas, ao fim de duas décadas do novo milénio, vivemos grandes atribulações. A sociedade pouco planificada socialmente, em que nos fomos transformando, não tem outro recurso senão entregar os seus filhos à guarda das escolas ou às suas estruturas paralelas. É uma realidade. Com pais que entram às seis ou sete horas da manhã e saem dos empregos às sete ou oito da tarde, e sem qualquer benesse por terem filhos pequenos, não há por onde escapar.
Desvalorização. Para que as escolas protejam os filhos da sociedade que gerem, os governos têm seguido diferentes alternativas: uma, foi desprestigiar o trabalho dos professores ao máximo, retirando-lhes o status de profissão de desgaste (que é), convencendo a sociedade de que trabalham poucas horas e ganham muito (grande mentira!), obrigando as escolas a agruparem-se, ainda que sem qualquer sentido, coartando as carreiras, sendo incontornáveis os nomes de Maria de Lurdes Rodrigues (PS) e Nuno Crato (PSD); outra opção tem sido – e bem – contribuir para a mudança pedagógica, com inúmeras propostas, às vezes, de forma tão arreigada que não permite às escolas uma resposta refletida, autónoma e interiorizada. O protagonista de todas estas tentativas pedagógicas tem sido o PS, há que reconhecê-lo, com medidas que renovam a avaliação dos alunos – falta a dos professores, que é injusta, seletiva – e protagonizam formas mais eficazes para o trabalho didaticopedagógico. Quanto ao PSD, apesar de Rui Rio tanto falar agora (pré-campanha eleitoral) de professores e de educação, ainda temos programas completamente obscuros, promulgados por Nuno Crato, e em tudo fazendo apelo a formas pedagógicas conservadoras e pouco ativas.
E agora? Nos últimos 20 anos, os professores viveram tudo isto. Suportaram as mudanças de opinião dos diferentes governos, que alternam entre si como bolas de ping-pong, colaboraram com pais e psicólogos (como deve ser) e assumiram tarefas que deveriam ser realizadas por outros técnicos especializados (como não deve ser), sustentaram as necessidades sociais, não deixaram que as escolas entrassem em angústia (às vezes nem se sabe como), sem falar no sufoco da pandemia. E tudo isto com um recente ministro-fantasma, que quase nem se sabe se existe. Esperam agora ver o que vai acontecer com a municipalização: que esclarecimentos vão ter, que possibilidades terão os seus representantes nos conselhos municipais de Educação de apresentar as suas propostas, que benefícios daí advirão para as escolas... Por tudo isto, e sabendo que a crise dos professores é, de certa forma, mundial, proponho que quem de direito proclame o Ano Internacional dos Professores. Era bem merecido.
Rafael Tormenta
|