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Salazar e os Beatles

"Os Beatles e a Censura em Portugal", de Abel Soares Rosa (Âncora Editora, Novembro de 2020) mostra a pesquisa feita pelo autor nos arquivos da Comissão de Censura.

“A Censura não tem prazer em cortar filmes, mas tem o dever de respeitar princípios”, afirmou um dos presidentes da Comissão do lápis azul. Na Torre do Tombo, estão catalogados cerca de 600 processos de filmes proibidos e de 4030 aprovados com cortes, entre 1945 e 1974, embora muitos se tenham perdido. A legislação e as directivas saídas da Comissão (entre elas o Regulamento de 1958) e da Inspecção dos Espectáculos obedecem a um crescente controlo burocrático que não deixa de fora nenhum pormenor nem material publicitário, incluindo cartazes, trailers, programas, fotografias, cartonados.
No regulamento lê-se que “a simples nomeação para vogais da Comissão de Censura aos espectáculos pressupõe o reconhecimento em nós (...) do substractum ideológico e cultural necessário ao exercício da nossa missão de censores” e que “a responsabilidade das nossas funções (...) no sentido de um exame atento, rigoroso e honesto a tudo o que for objecto de censura e tendo sempre em vista os superiores interesses morais e espirituais. Está em jogo a saúde do povo”, bem como “defender certas pessoas que personificam aqueles valores, tais como a classe militar, os sacerdotes, a magistratura – todas elas têm de estar na primeira linha de pensamento da Comissão”.

Beatles film Banned. Todos os filmes dos Beatles foram alvo de cortes – o mais torturado foi A Hard Day's Night e o menos maltratado Yellow Submarine, por ser de “desenhos animados”. A estupidez humana – especialmente a dos censores de todo o lado – não tem limites, já dizia Einstein.
Em 20 de Agosto de 1964, o relator da censura escrevia esta pérola:
“O filme, em si mesmo, era susceptível de aprovação para maiores de 12 anos, com alguns cortes. Não podemos esquecer, porém, quem são os intervenientes no filme, a onda de ‘histerismo’ que têm desencadeado em toda a Europa, doença de que, na medida do possível, temos de defender a nossa juventude, guardada para tarefas mais árduas cuja utilização requer carácteres sadios, devidamente formados. Porque o que está em causa não é propriamente o filme, mas os ‘Beatles’, com intervenientes ‘problema’ que a sequência do processo natural acabará por levar ao plenário da comissão. Aprova-se o filme para maiores de dezassete anos, a mesma para o trailer.” [assinatura ilegível].
“Concordo inteiramente com o parecer acima. Este fraco filme em si mesmo não constitui problema desde que a comissão entenda poder dar o seu assentimento à actual fase de cretinização e desmoralização da juventude...”. A notícia desta decisão saiu em dois jornais ingleses – Liverpool Echo e Liverpool Daily Post – com o título Beatles film Banned.
Mas que cortes propunha a Censura? Além de alguns cortes em diálogos, exigia a supressão de todas as cenas de reacção do público às canções, por “atitudes descompostas e esgares da assistência aos espectáculos e à passagem dos Beatles”.
Na sessão de estreia do filme, mostrando os medos dos censores, enviaram um sub-inspector para confirmar que não havia nada de “anormal” ou reacções “inconvenientes” por parte do público.
Pois, pois... “Politicamente, só existe o que o público sabe que existe”, Salazar dixit.

Paulo Teixeira de Sousa


  
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