|
As relações que estabelecemos com os outros estruturam as nossas vidas. E os outros contribuem para sermos quem somos. Na verdade, as relações de sociabilidade convocam à (re)configuração identitária, humanizam, interpelam, constroem laços. Somos resultado das pessoas com quem nos cruzamos.
Uma viagem a Salamanca significa sempre um (re)começo. A última está viva na memória, porque muito revisitada, esperando o regresso. Não imaginava que doravante tudo seria diferente. Nesse dia, o ponto de encontro foi no espaço exterior da universidade. A intencionalidade era a de encontrar espaço para um momento informal, aproveitando a presença de um amigo comum – Mohamed Nazir Ibraimo, da Universidade Católica de Moçambique – que se encontrava a realizar um projeto de investigação, ao qual se havia candidatado através de uma bolsa para investigadores africanos. Inicialmente estava previsto um encontro, fora dos muros da universidade, para celebrar os laços académicos (e de amizade) com o nosso amigo moçambicano, que se foram construindo desde o I Fórum sobre África, dedicado à temática Lengua, Literatura y Ciencias de la Educación en los Sistemas Educativos del Africa Subsahariana, realizado em novembro de 2014. Porém, aguardava-nos uma ‘lição’ de história, porque o professor nunca perde a vontade sublime de ensinar. Ele faz a diferença. O destino foi a cidade de Béjar, na província de Salamanca, comunidade autónoma de Castilla y León. Durante a viagem de mais de 70 Km, enquanto conduzia, o professor foi contando a história dos lugares que o nosso olhar alcançava. Ressaltava, paralelamente, alguns apontamentos históricos sobre a importância que Béjar teve desde os primórdios até à contemporaneidade. Desde logo, a marcante atividade têxtil, que se terá iniciado no século XIII, desenvolvendo-se com a chegada de artesãos flamengos (1691), levados pela Casa Ducal, que pretendia o incremento da indústria local. Em meados do século XVIII, estima-se que empregava cerca de 3000 trabalhadores, apesar de uma localização geográfica pouco favorável.
Um verdadeiro legado. Transbordava sabedoria sobre a cidade. Parecia, até, que tinha preparado uma ‘lição de sapiência’. Não me surpreendeu, porque já estou habituada a participar em situações semelhantes, visitando o património histórico-cultural, aquando dos congressos que se realizam, anualmente, em outubro, na Universidade de Salamanca e em que o professor cativa os congressistas com o(s) seu(s) saber(es). Todavia, durante a longa explicação apercebi-me de que era um dos investigadores do Centro de Estudos Bejaranos. De regresso, quis saber mais. Decidi realizar uma breve pesquisa e fui surpreendida. Trata-se de um centro de investigação criado, em 1992, com o objetivo de fomentar as atividades científicas, literárias e artísticas sobre (e de) Béjar. Constatei, além do mais, que o professor foi um dos presidentes e que, em 1981, recebeu o primeiro prémio do concurso organizado pelo Casino Obrero, enquanto autor de Cien Años del Casino Obrero de Béjar. Importa sublinhar que estas referências não foram, explicitamen te, mencionadas. Assim, não imaginava a sua produção científica sobre esta cidade. Sem dúvida, é ampla e diversa, destacando aqui os dois volumes da «Historia de Béjar» (2012 e 2013), que coordenou e em que participou, entre muitas outras publicações. Um verdadeiro legado!
Chegados à cidade, iniciámos com uma caminhada pelas ruas e recantos carregados de história, de simbolismo e de memórias de gente que, outrora, habitou aquele lugar. A arquitetura, o património e os diferentes espaços foram sendo revisitados pela explicação clara e leve, que nos transportava para tempos quase sempre, longínquos. Percebia-se que o lugar lhe era próximo. Seria impossível descrever com pormenor a intensidade daquele dia. Registo, por isso, alguns apontamentos, relembrando a passagem pelo Casino Obrero, cuja fundação data de 1881 e nasceu com o objetivo de melhorar, de forma direta ou indireta, as condições de trabalho dos operários, mas que ao longo da sua existência se tornou numa expressão de cultura, de vida, de socialização, de solidariedade, de encontro, de tempo livre (...) em que a sociedade de Béjar sempre participou ativamente, imprimindo uma identidade própria à instituição, tal como escreveu Alexia Cachazo Vasallo (Aula - Revista de Pedagogia, 2012). Saliento, ainda, a visita ao Museu Mateo Hernández, um escultor bejariano da primeira metade do século XX, com reconhecimento mundial. O museu acolhe algumas das suas obras legadas ao Estado espanhol. No seu interior encontram-se expostas cerca de 50 peças, representativas da sua escultura animalista, esculpidas diretamente na pedra, bem como obras que retratam figuras humanas, sendo uma das mais célebres a ‘banhista’. E por último, uma referência à Ruta de las Fábricas Téxtiles, um conjunto de edifícios que se situavam ao longo das margens do rio Cuerpo de Hombre, explicando que esta localização se deveu a vários fatores, mas, também, ao baixo teor de sal das águas do rio, o que o tornava propício para a preparação de tecidos.
Precisamos de (re)encontros. Tudo isto (e muito mais) descobri com um ‘bom’ professor – José María Hernández Díaz, catedrático da Universidade de Salamanca. Um académico e intelectual dos nossos tempos! [N.R.: colaborador permanente da PÁGINA] Esta viagem parece já distante! Foi em 15 de fevereiro de 2020. Diria que foi uma viagem memorável porque o anfitrião é um ser humano de afetos que privilegia a construção de laços. Entretanto, poucos dias depois, tudo mudou. É como se o mundo se abrisse para outros tempos! As notícias reportavam o aparecimento do novo coronavírus que tinha sido identificado em Wuhan, na China. Inicialmente, parecia tratar-se de algo que acontecia longe. Contudo, as escolas e universidades encerraram em março. O resto já sabemos. Confinamento. Distanciamento social e consequências sociais arrasadoras. O vírus, muito rapidamente, mudou as nossas vidas, a forma de estar, de pensar, de olhar o Outro, de agir e de abraçar. Implacável! Um vírus que se espalhou pelos diferentes territórios à escala planetária e chegou decido a invadir as nossas vidas, transformando as relações humanas de modo inimaginável. São agora mais distantes, frias e ausentes de hospitalidade. Lamentavelmente! Contudo, há esperança no regresso à ‘nova normalidade’. Precisamos de (re)encontros. Significa, tão só, que as relações humanas que estabelecemos com os outros estruturam as nossas vidas. E os outros contribuem para ser quem somos. Na verdade, as relações de sociabilidade convocam à (re)configuração identitária. Humanizam. Interpelam. Constroem laços. Nem mais. Somos o resultado das pessoas com quem nos cruzamos. Neste caso, agradeço ao professor esse privilégio!
Evangelina Bonifácio
|