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À sombra da absolvição

A incapacidade de sermos solidários, de honrarmos a nossa liberdade, seja pela intervenção pessoal ou na forma como nos organizamos de forma institucional, pública e privada, conduz à conclusão de que não seremos uma comunidade, mas apenas um aglomerado de gente cuja defesa dos interesses e concretização de objetivos está nas mãos do alheio.

A figura do homem não enganava acerca de ser alguém que provava o amargo da vida, sem rumo, um número anónimo para a estatística. Sem que eu pudesse saber, ou imaginar, donde vinha, tão pouco para onde ia naquele intervalo entre um café e o écran com os horários dos comboios, a criatura teve o condão de despertar a consciência do meu próprio papel nesta encenação da realidade, no labirinto onde nos envolvemos de alegrias, mágoas e desinteresse. “O amigo tem um cigarro?” A questão não se colocava no plano dos cigarros, dos meus e daqueles que pudessem aliviá-lo da ansiedade por momentos; era mais importante do que a mera relação que se travaria, ou não, entre o gesto de quem esmolava e o de quem tinha o poder de responder. “Já tenho poucos. Veja se encontra quem tenha mais do que eu”. Agradeceu, ironia do destino, e sentou-se perto de mim com um copo de cerveja na mão. O meu olhar, então, poisou na personagem para ver mais do que a indumentária, o rosto ou o copo sobre a mesa, viajou pelo meu passado turvo e tive a perceção duma grade invisível erguida entre nós dois, um muro com os contornos de um simples cigarro. Quando me ergui e lhe fui colocar dois dos meus na mão, foi de instinto, um gesto impotente para resolver as causas de uma pobreza evidente ou para estabelecer uma relação inquinada, inexistente como antes de o homem aparecer diante de mim. Aqueles minutos foram o embrião, algo que me permitiu refletir sobretudo nas palavras “veja se encontra quem tenha mais do que eu”. Esta simples frase dá corpo à ferida instalada na comunidade, uma chaga chamada demissão da responsabilidade, desconhecimento dos direitos da pessoa e das suas obrigações. Alguém detém o poder para decidir, para fazer justiça, para exercer a cidadania nas situações complexas ou comezinhas, um ‘alguém’ que é sempre ‘o outro’, tenha ou não rosto, seja ou não detentor de um papel social relevante. Por regra, quem governa fá-lo numa posição sobranceira, desviada do cenário comunitário sobre cujas relações tem a faculdade de legislar e de regular, e a hierarquia que lhe está associada delega as competências em cascata: um esquema kafkiano onde “alguém tem mais responsabilidade do que eu”, seja no topo, seja na base. A imagem do meu companheiro de café levou-me, porém, mais longe. Os juízos sobre a condição mendicante são fáceis, tão comuns como o desprezo que esses fantasmas ambulantes merecem no espaço público, à porta do mercado ou do joalheiro. Mais do que problema de pão, de um cigarro, de higiene, de alcoolismo, de habitação, é o todo de humanidade e da sua assunção que exige a elementar justiça quanto ao direito, tão apregoado, à saúde da mente e do corpo. A incapacidade de sermos solidários, de honrarmos a nossa liberdade, seja pela intervenção pessoal ou na forma como nos organizamos de forma institucional, pública e privada, conduz à conclusão de que não seremos uma comunidade, mas apenas um aglomerado de gente cuja defesa dos interesses e concretização de objetivos está nas mãos do alheio, por um lado, e cujo discurso democrático não se adequa à realidade, por outro. A caridade, tal como a conhecemos, esvazia de dignidade e respeito os seus destinatários, dá espaço à negligência dos responsáveis pela aplicação de políticas conformes com os valores invocados por eles. Os direitos da pessoa não são suscetíveis de serem respeitados a pedido, por intervenção ocasional, ante a paralisia do aparelho do Estado, que, em última análise, é reflexo da incompetência dos seus agentes nas esferas próprias. “O amigo tem um cigarro?” Contas feitas, ele não suspeitava do valor que a sua presença trazia na sombra. Outro, que não eu, talvez lhe desse os cigarros para se desembaraçar dela. Esse pecado, pelo menos, não carrego comigo.

Luís Vendeirinho


  
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