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A ‘poeticidade’ de um texto é o seu potencial onírico

O ideal seria que os alunos descobrissem por si os poemas que lhes ‘falam’. Mas só muito dificilmente isso ocorre. Há que admitir que as crianças, raras vezes, irão procurar espontaneamente livros de poesia, se alguém não as incitar.

Constatar que as crianças e os adolescentes, de um modo geral, são poetas, significa levar em conta a experiência linguística, lúdica e poética que possuem, antes mesmo de entrarem para a escola, como experiência reveladora pela oralidade, pela sonoridade e pelos jogos de palavras que criam. De fato, quando ingressamos na escola, dificilmente somos estimulados a ouvir e ler poemas. O texto serve de trampolim, na maioria das vezes, para o estudo de vocabulário, regras gramaticais e de estilo. Um poema é qualquer coisa que chega aos alunos trazida numa ou por uma voz. A audição de um poema pode comparar-se à audição de música, de toda a música: de câmara, sinfónica, jazz, rap, etc. Os registros da poesia são infinitos e as audições são diversas. Sabemos que cada ouvinte interpreta o poema à sua maneira, recriando-o à sua imagem, em função da sua vida, da sua imaginação e da sua sensibilidade. Alguns se deixam levar e não procuram saber como atua o encanto. Outros querem conhecer as fontes de sua emoção e, embora nem sempre o reconhecerem, analisam. No entanto, a interpretação pessoal de um poema depende, em grande parte, da voz que o diz, do declamador ou do leitor.
Daqui resulta que é impossível e ridículo pretender explicar o significado de um poema, a pretexto de ‘clareza pedagógica’. Daí a ingenuidade de quem pretendeu ‘traduzir’ tantos poetas.
O que mede a ‘poeticidade’ de um texto é o seu potencial onírico. É difícil captar as virtualidades de conotação de um texto para cada leitor.

A prática da poesia pode constituir para certos alunos algo como um ‘bloqueio’, em um primeiro encaminhamento para a palavra, porque é uma palavra diferente da palavra relacional, tão difícil de fazer sair de si para o outro. Jean-Paul Sartre fornece uma das razões para esta ‘transferência’ singular: “Em vez de conhecer as coisas pelo seu nome, parece que [o poeta] teve anteriormente um contato silencioso com elas, uma vez que ao virar-se para outra espécie de coisas que são para ele as palavras, tocando-as, tateando-as, apalpando-as, descobre nelas uma pequena luminosidade própria e afinidades particulares com a terra, o céu e a água e todas as coisas criadas. Não sabendo servir-se das palavras como sinal de um aspecto do mundo, vê na palavra a imagem de um de seus aspectos. E a imagem verbal que escolhe pela sua semelhança com o salgueiro ou com o freixo não é necessariamente a palavra que utilizamos para designar esses objetos. Como o poeta está de fora, as palavras, em vez de serem os indicadores que o lançam para fora de si, para o meio das coisas, são por ele consideradas como uma armadilha para aprisionar uma realidade fugitiva; em resumo, toda a linguagem é para ele o espelho do mundo...” [«Que é Literatura», 2.ª edição. São Paulo: Ática, 1993]”.
A linguagem poética seria então uma armadilha para agarrar uma realidade fugitiva! Que imagem justa para descrever o aluno que não ousa falar (ou escrever), porque a sua linguagem não lhe permite captar as coisas nem atingir os seres. E, sem errar excessivamente, poder-se-ia imaginar que o ‘ele’, que no texto de Sartre designa o poeta, designa também a criança e o adolescente sensível às coisas do mundo e da vida e que se sente incapaz de nomeá-las, de descrevê-las. A poesia vivida, interiorizada, seria, assim, uma espécie de ligação entre o mundo, a criança e a linguagem – na realidade, linguagem primitiva e não linguagem ornamental ou simples embelezamento da linguagem de comunicação.
Mas será que a poesia se ensina? O ideal seria que os alunos descobrissem por si os poemas que lhes ‘falam’. Mas só muito dificilmente isso ocorre. Em primeiro lugar, por razões materiais – os livros de poesia, incluindo as antologias, raramente se encontram nas bibliotecas familiares. Há que reconhecer que são mais frequentes nas seções infância/juventude das bibliotecas e dos centros de documentação e informação. E isto para não falar das crianças do jardim infantil, que ainda não sabem ler. Há que admitir que as crianças, raras vezes, irão procurar espontaneamente livros de poesia, se alguém – pais, professor, colega – não as incitar.

José de Sousa Lopes

https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/a-mocambicanidade-esta-em-construcao-entrevista-a-jose-de-sousa-miguel-lopes


  
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