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A educação vem sendo confrontada com a urgência de integrar no sistema educativo uma forte componente da cultura das artes, depositária que esta é do mundo das emoções e dos sentimentos. Nesta função, cabe à UNESCO um papel fundamental.
A presença das artes no processo da formação humana, implicado no sistema formal de ensino, vem assumindo, sobretudo nas últimas décadas, uma importância crescente no plano das preocupações das grandes instituições internacionais, como a UNESCO, assim como a partir da obra de investigadores emblemáticos, como é o caso de António Damásio. Múltiplos são os aspetos que estão na base dessas preocupações, uns relacionados com a natureza intrínseca das artes, outros derivados de fatores socioculturais incidentes sobre o processo da formação. Entre os primeiros, reconhece-se o caráter fundamentalmente emocional que integra o fenómeno artístico, quer enquanto produto, quer enquanto atividade, condição que vem assumindo no plano do desenvolvimento humano uma expressão cada vez mais imperiosa, designadamente no mundo da escolaridade. É assim que este caráter emocional das artes ganha uma expressão incontornável quando confrontado com os efeitos dos fatores socioculturais incidentes sobre o mundo juvenil, como ficou patente na Conferência Mundial sobre Educação Artística: Desenvolver as capacidades criativas para o século XXI (Lisboa, 2006). Foi aí que António Damásio, na intervenção de abertura, abordou “a questão da Educação Artística na perspetiva da ciência cognitiva, salientando que, em resultado dos progressos da ciência e das tecnologias de informação e comunicação (TIC), o mundo está a mudar a uma escala e a uma velocidade sem precedentes”.
Papel da UNESCO. É ao próprio António Damásio que a consciência científica atual está devendo uma larga percentagem da investigação sobre a participação da componente emocional do saber na estrutura cognitiva da epistemologia contemporânea, ao contrário do que foi a tese tradicional que afirmava a conflitualidade entre a emoção e a razão. Segundo o autor em referência, “a emoção bem dirigida parece ser o sistema de apoio sem o qual o edifício da razão não pode funcionar eficazmente”, acrescentando que “a eliminação da emoção e do sentimento acarreta um empobrecimento da organização da experiência humana”. Na ausência das emoções e sentimentos normais, o indivíduo deixa de poder categorizar a sua experiência de acordo com a marca emocional que confere a cada experiência a qualidade do ‘bem’ e do ‘mal’ [«Ao encontro de Espinosa - as emoções sociais e a neurologia do sentir»]. É nessa perspetiva que a educação vem sendo confrontada com a urgência de integrar no sistema educativo uma forte componente da cultura das artes, depositária que esta é do mundo das emoções e dos sentimentos. Nesta função, cabe naturalmente à UNESCO um papel fundamental, como se pode reconhecer nesta declaração: “Hoje, as habilidades, os valores e os comportamentos promovidos pela educação artística são mais essenciais do que nunca. Essas competências – criatividade, colaboração e resolução criativa de problemas – desenvolvem resiliência, alimentam a apreciação da diversidade cultural e da liberdade de expressão, além de cultivarem a inovação e as habilidades de pensamento crítico. À medida que os estudantes adquirem novas habilidades e encontram consolo por meio do apoio psicossocial oferecido pelas artes e pelas formas de expressão, a educação artística também tem o potencial de preparar os estudantes não apenas para sobreviver, mas para prosperar na realidade pós-COVID” [UNESCO, nota técnica sobre a Semana Internacional da Educação Artística, 25-31 de maio].
Orquestra Geração. Nada mais ilustrativo da força destas palavras do que a experiência absolutamente singular da Orquestra Geração, fundada em 2007, na EB2,3 Miguel Torga (Bairro Casal da Boba, concelho da Amadora), a partir de estudantes de bairros problemáticos – experiência que hoje já se estende a cerca de 1170 crianças e jovens dos 6 aos 20 anos de idade, distribuídos pelos vários instrumentos da orquestra sinfónica, de sopro, de percussão e coro. Por si só, os objetivos da experiência são muito significativos: - promover a inclusão social das crianças e jovens de bairros social e economicamente mais desfavorecidos e problemáticos; - combater o abandono e o insucesso escolar; - promover o trabalho de grupo, a disciplina e a responsabilidade para uma melhor cidadania; - promover a autoestima das crianças e das suas famílias; - aproximar os pais do processo educativo dos filhos; - contribuir para a construção de projetos de vida dos mais novos; - promover o acesso a uma formação musical que seria impossível para a maioria das crianças e jovens que vivem em contextos de exclusão social e urbana.
Manuel Matos
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